Eles continuaram colhendo as frutas em silêncio, mas já não era um silêncio pesado. Aos poucos, Jamila foi se sentindo mais calma. Ainda havia cautela em seus movimentos, ainda havia desconfiança em seu olhar… mas o medo já não dominava como antes.
Quando o cesto ficou cheio, ela tentou erguê-lo, mas o peso fez com que suas mãos vacilassem.
— Deixa que eu levo — disse o feitor, pegando a cesta antes que ela insistisse.
Jamila hesitou por um segundo… mas não discutiu.
Os dois começaram a caminhar de volta para a casa grande. O caminho parecia mais curto dessa vez, embora os pensamentos de Jamila ainda estivessem confusos. Aquela mudança nele… era difícil de entender.
Ao se aproximarem da casa, duas figuras observavam pela janela: Sol e Chinara.
As duas trocavam olhares, claramente sem entender o que estavam vendo.
— O que tá acontecendo? — murmurou Sol, intrigada.
— Isso não é normal… — respondeu Chinara, com o olhar atento.
Sem esperar mais, Sol saiu rapidamente e foi ao encontro deles.
— Jamila! — chamou, aproximando-se. — Tá tudo bem?
Jamila olhou para ela, ainda um pouco surpresa com a preocupação.
— Tá sim… — respondeu, mais tranquila.
O feitor se aproximou e colocou a cesta de frutas no chão, entregando-a.
— Aqui está — disse, simples.
Depois, olhou rapidamente para Jamila.
— Até mais.
E se afastou, sem dizer mais nada.
Sol acompanhou ele com o olhar, ainda desconfiada, e depois voltou-se para Jamila.
— O que foi isso?
Na cozinha, Jamila contou tudo.
Desde o momento em que ele apareceu, até a conversa, o pedido de desculpas… e a forma como ele se comportou.
Sol ouvia tudo com atenção, e aos poucos seu rosto foi se suavizando.
— Ainda bem… — disse, aliviada. — Eu fiquei com medo de acontecer alguma coisa.
Jamila assentiu, sentando-se.
— Eu também… mas ele não fez nada.
Houve um pequeno silêncio.
Sol sorriu de leve.
— Talvez ele tenha mudado…
Mas Chinara, que estava encostada mais ao fundo, permaneceu em silêncio.
Seus olhos estavam fixos em um ponto qualquer, pensativos.
— Eu não confio — disse, por fim, com firmeza.
As duas olharam para ela.
— Gente como ele… não muda assim — continuou. — Alguma coisa tem aí.
Jamila ficou em silêncio, absorvendo aquelas palavras.
Sol, por outro lado, parecia dividida.
— Mas ele pediu desculpa…
Chinara balançou a cabeça.
— Isso não significa nada.
O clima mudou.
Jamila olhou para suas próprias mãos, pensativa.
Lá no fundo… ela também não sabia no que acreditar.
Mas uma coisa era certa:
Algo estava mudando.
A noite caiu silenciosa sobre a fazenda, trazendo consigo aquele clima de segredos e pensamentos que só a escuridão parecia permitir.
Na cozinha, depois que o trabalho terminou, Sol se aproximou de Jamila com curiosidade no olhar.
— E o Afonso? — perguntou, baixinho. — Ele ainda…?
Jamila abaixou o olhar, sentindo o coração apertar só de ouvir o nome dele.
— Eu não sei… — respondeu, sincera. — Não contei nada pra ele ainda.
Sol suspirou.
— Ele devia saber porque dá pra ver que ele gosta de você.
Jamila não respondeu. Apenas ficou em silêncio, perdida nos próprios pensamentos.
Mais tarde, já em seu quarto, Jamila tentou dormir… mas sua mente não parava. As lembranças do dia, da conversa com o feitor, e principalmente de Afonso, se misturavam.
Foi então que ela ouviu um leve barulho.
Seus olhos se abriram na mesma hora.
— Quem tá aí? — sussurrou, assustada.
— Sou eu…
A voz era baixa, mas ela reconheceu.
Afonso.
Ela se sentou rapidamente na cama.
— Afonso? O que você tá fazendo aqui?
Ele se aproximou devagar, ainda na penumbra.
— Me desculpa… eu não devia entrar assim. Eu só… precisava falar com você.
Jamila respirou fundo, ainda nervosa.
— Falar o quê?
Ele hesitou por um instante.
— É verdade… o que estão dizendo? Sobre o feitor?
Ela ficou em silêncio por um segundo… e então assentiu.
— É… ele veio falar comigo hoje. Pediu desculpa… disse que não ia mais me fazer m*l.
Afonso pareceu relaxar um pouco, o corpo menos tenso.
— Ainda bem… — murmurou.
Mas o silêncio entre eles voltou, carregado de algo mais forte.
Eles se olharam.
Dessa vez, não havia como fugir.
Afonso se aproximou lentamente, como sempre fazia… dando a ela a chance de recuar.
Mas Jamila não se afastou.
Os dois ficaram tão próximos que podiam sentir a respiração um do outro.
E então, quase sem perceber…
Seus lábios se encontraram.
O beijo foi mais intenso do que antes, carregado de tudo o que vinham guardando. Não era mais só descoberta… era sentimento, saudade, vontade.
Por alguns instantes, o mundo lá fora deixou de existir.
Mas, como sempre, a realidade voltou.
Jamila se afastou de repente, ofegante, os olhos cheios de conflito.
— Não… — disse, quase em desespero. — Isso tá errado.
Afonso tentou se aproximar novamente, mas ela recuou.
— Jamila…
— Não pode! — ela insistiu, com a voz embargada. — Você não entende…
Ela passou a mão pelo rosto, tentando conter as lágrimas.
— Eu sou só uma escrava… — continuou. — Isso nunca vai dar certo.
O silêncio pesou entre os dois.
— Eu já perdi pessoas demais nessa vida… — disse, com a voz mais baixa. — Não posso passar por isso de novo.
Afonso a olhava, sentindo a dor em cada palavra.
— Eu não quero te machucar…
— Mas pode acontecer — ela respondeu. — Aqui… tudo pode acontecer.
Ela abaixou o olhar.
— E eu não sei se aguento perder mais alguém.
O quarto ficou em silêncio.
O amor entre eles existia… mas o medo era tão grande quanto.
E, naquele momento, parecia impossível saber qual dos dois seria mais forte.