DIEGO - O ESPANHOL

1747 Palavras
Ela cheira a esforço. Não é um perfume caro, desses que as mulheres usam para impressionar. Não é sofisticação comprada em frascos pequenos que custam o salário mínimo de alguém. É algo mais cru. Mais real. Suor. Produto de limpeza. Exaustão. E, por baixo de tudo isso, um perfume simples. Barato, provavelmente. Dessas loções de farmácia que as garotas compram para se sentir bonitas sem gastar muito. Eu conheço esse cheiro. Conheço porque já estive lá. Porque, antes de tudo isso, antes das armas, das rotas e do poder, eu também fui alguém que precisava escolher entre comer e comprar um perfume. Sento na borda da cama e observo. Aleksandr está na poltrona, com os braços cruzados e aquela expressão impenetrável que ele usa quando está pensando demais. Matteo se apoia na parede, os olhos claros fixos nela como se ela fosse um mistério a ser desvendado. E eu? Eu só olho. Olho para as mãos dela, pousadas sobre o edredom. São mãos pequenas, delicadas na forma, mas ásperas no toque. Mãos que trabalharam. Que esfregaram, limparam, organizaram. Mãos que construíram a perfeição ao nosso redor. Levanto uma delas com cuidado. Meus dedos percorrem as palmas, sentindo as pequenas marcas do trabalho. Calos recentes. Pele ressecada pelos produtos químicos. Dezoito anos. Ela tem dezoito anos e mãos de uma mulher vivida. — Diego — a voz de Matteo corta o silêncio. — O que está fazendo? — Conhecendo ela melhor. — Ela está desacordada. — Por isso mesmo. — Sorrio, mas não tiro os olhos dela. — Acordada, ela provavelmente estaria com vergonha. Desacordada, posso ver quem ela realmente é. Aleksandr faz um som baixo, algo entre concordância e irritação. Com ele, nunca se sabe. — E quem ela é? — pergunta. Penso antes de responder. Quem é Taynara Lopes? Dezoito anos. Primeiro emprego registrado. Moradora da periferia. Namorada de alguém que deu a ela um anel simples de prata. Mas isso é só o que está na superfície. — Ela é forte — digo finalmente. — Mais forte do que parece. — Como sabe? — As mãos. — Levanto a mão dela ligeiramente. — Essas mãos não desistiram. Mesmo exausta, mesmo sozinha, mesmo sem ninguém para ver, ela fez o trabalho perfeito. Isso não é sobre dinheiro. É sobre orgulho. Sobre dignidade. Aleksandr se inclina ligeiramente para frente. Seus olhos claros, tão frios quanto o inverno russo que o moldou, percorrem o rosto dela com uma intensidade que poucas pessoas mereceram. — Orgulho e dignidade podem ser problemas — ele observa. — Ou podem ser exatamente o que estamos procurando. Matteo ri baixinho. — O espanhol tem razão. Pela primeira vez na vida. — Vai se f***r, Matteo. Mas estou sorrindo. É difícil não sorrir perto desses dois, mesmo nos momentos mais estranhos. Especialmente nos momentos mais estranhos. Porque eles são minha família. Não de sangue. Mas de escolha. E isso, para mim, sempre significou mais. --- Meu nome é Diego Herrera. Tenho trinta e oito anos. Nasci em Sevilha, Espanha, numa família que não tinha nada além de dívidas e sonhos quebrados. Aprendi cedo que o mundo não dá nada a ninguém — você tem que tomar. E eu tomei. Construí meu império com armas e rotas. Enquanto Aleksandr cuida do dinheiro e Matteo da ponta mais perigosa dos negócios, eu sou a ponte. O negociador. Aquele que sorri enquanto aperta a mão de quem vai morrer na semana seguinte. Carisma é minha arma. As pessoas confiam em mim. Se abrem. Contam segredos que deveriam levar para a cova. E eu uso isso sem remorso. Compartilhamos tudo, nós três. Segredos. Poder. Perigo. E mulheres também. Já tivemos muitas ao longo dos anos — algumas por uma noite, outras por algumas semanas. Todas descartáveis. Todas temporárias. Porque a regra sempre foi clara: ou é dos três, ou não é de nenhum. Nunca tivemos ciúme um do outro. Não é da nossa natureza. Quando você confia sua vida a alguém repetidas vezes, confiar seu prazer é fácil. Mas nenhuma das mulheres que passaram por nós foi suficiente. Até agora. Até Taynara. Lembro da noite em que a ideia do Contrato nasceu. Faz cinco anos. Estávamos na Itália, numa vila nos arredores de Florença, bêbados de vinho e cansaço depois de uma negociação que quase deu errado. Matteo olhou para nós dois e perguntou: — O que vocês querem da vida? Pergunta simples. Resposta complicada. Aleksandr falou primeiro: "Poder. Sempre poder." Matteo riu: "Isso já temos. O que mais?" Silêncio. Foi ele quem disse: "Família." E não era uma família qualquer. Não era esposa tradicional, com jantares em horário comercial e filhos que vão para a escola de manhã. Era algo mais… nosso. Uma mulher que nos aceitasse como somos. Todos os três. Sem julgamento. Sem querer mudar um de nós. Alguém forte o suficiente para nos enfrentar quando preciso, e inteligente o suficiente para saber quando se render. Alguém que fosse nossa. Completamente nossa. Exclusividade. Lealdade. Filhos. Proteção. O Contrato nasceu daquela noite. E desde então, procuramos. Moscou, Paris, Londres, Nova York. Conhecemos mulheres lindas, cultas, sofisticadas. Algumas aceitariam o Contrato num piscar de olhos — pelo dinheiro, pelo status, pela fantasia. Mas nenhuma despertou nada em nós. Nenhuma fez meu coração bater mais rápido. Nenhuma fez Aleksandr perder o controle por um segundo sequer. Nenhuma fez Matteo calar a boca e apenas observar. Até agora. Até Taynara. Passo os dedos de leve pelo cabelo dela. É macio, apesar do trabalho. Ela cuida de si mesma. — O que mais descobriu? — pergunto a Matteo, sem tirar os olhos dela. Ele verifica o celular novamente. — Achei a rede social dela... Ele franze a testa, lendo. — Namorado: Carlos. Dezenove anos. Entregador de aplicativo. Namoram desde os dezesseis. Sinto algo estranho no peito. Não é ciúme. Não exatamente. É mais como… curiosidade. O que ele tem que nós não temos? Por que ela escolheu ele? — Três anos — Matteo continua. — Pelo que parece, é um relacionamento sério. A mãe dela já considera ele parte da família. Chama de "meu filho". Aleksandr solta um som baixo. — Nada que não possa ser desfeito. — Aleksandr — advirto. — O quê? É verdade. Já disse... Namoros terminam. Noivas terminam. Casamentos terminam. — Ela pode amar ele verdadeiramente. — Ela pode. — Ele se inclina na poltrona, os olhos fixos no rosto dela. — Mas amor não é suficiente quando se tem dezoito anos e a vida inteira pela frente. Quero discordar, mas não consigo. Porque ele tem razão. Eu amei, uma vez. Há muito tempo, antes de tudo isso. Uma garota em Sevilha, com sorriso fácil e olhos que prometiam o mundo. Acreditei que aquele amor duraria para sempre. Durou seis meses. Ela me traiu com meu melhor amigo. Aprendi duas coisas naquele dia: amor não é suficiente, e confiança é a única moeda que realmente importa. Com Aleksandr e Matteo, tenho confiança. Com Taynara, sinto que poderia ter as duas coisas. Toco a aliança simples no dedo dela. Prata barata. Dessas que escurecem com o tempo. O brilho me incomoda mais do que deveria. — Carlos — murmuro, testando o nome na boca. — O que você tem que nós não temos? — Tempo — Matteo responde. — Ele teve tempo. Três anos construindo algo. Nós tivemos dois ou três segundos. — Cinco no máximo e ela desmaiou — Aleksandr acrescenta, e há um traço de humor em sua voz. O russo quase fez uma piada. Quase. Sorrio. — Cinco segundos e ela desmaiou. Que primeira impressão estamos deixando? — A melhor possível — Matteo rebate. — Três homens lindos, ricos, poderosos. Ela ficou tão impressionada que perdeu os sentidos. — Isso não é bom. — Por que não? — Porque quando ela acordar, vai estar com medo. Insegura... Aleksandr se recosta na poltrona. Mesmo relaxado, parece um predador. É a postura dele. A forma como ele observa tudo, processa tudo, controla tudo. — Medo é normal — ele diz. — Medo pode ser trabalhado. — Não queremos que ela tenha medo de nós. — Não queremos que ela tenha medo de nós. — Ele enfatiza o "nós" de um jeito que me faz pensar. — Mas um pouco de temor respeitoso? Isso pode ser útil. Conheço Aleksandr há tempo suficiente para entender o que ele quer dizer. Não é sobre violência. Nunca é sobre violência conosco. É sobre presença. Sobre deixar claro que não somos homens comuns. Que o mundo ao redor dela, a partir de agora, pode ser completamente diferente. — Quando ela acordar — começo — vou falar com ela. — Por que você? — Porque sou o mais calmo. O mais acolhedor. Matteo ri. — O mais acolhedor? Você negocia com traficantes colombianos, Diego. Sua acolhida geralmente envolve ameaças implícitas. — Com ela é diferente. — Como sabe? — Porque estou sentindo. — Bato no peito. — Aqui. Algo diferente. Aleksandr me observa com atenção. Seus olhos gelados parecem querer ler minha alma. Depois de um momento, ele desvia o olhar. — Concordo com Diego. Matteo ergue uma sobrancelha. — O russo concordando com alguém? O mundo vai acabar. — Seu mundo pode acabar se não calar a boca. Sorrio. É assim que funciona entre nós. Provocações, ameaças falsas, e uma lealdade que ninguém de fora entenderia. Volto minha atenção para Taynara. Ela está começando a se mexer. Primeiro, os dedos. Um pequeno movimento, quase imperceptível. Depois, as pálpebras tremem levemente. Os lábios se movem, murmurando algo que não entendo. — Ela está acordando — aviso. Os três nos posicionamos. Aleksandr fica na poltrona, imóvel, observando. Matteo se apoia na parede, os braços cruzados, expressão neutra. Eu permaneço sentado na borda da cama, perto o suficiente para que ela me veja primeiro, mas longe o bastante para não se sentir encurralada. Os olhos dela se abrem. Lentos. Confusos. Primeiro, ela vê o teto. O lustre caro. A claridade suave do abajur. Depois, vira a cabeça e me vê. O choque é imediato. Seu corpo se tensiona. Os olhos grandes se arregalam ainda mais. Ela tenta se sentar num movimento brusco, mas o corpo ainda não responde direito. Cai de volta no travesseiro, ofegante. — Calma — digo, com a voz mais suave que consigo. — Calma. Você está segura. Ela pisca. Respira fundo. Olha para mim, depois para Aleksandr, depois para Matteo. Três homens. Desconhecidos. No quarto onde ela estava trabalhando. O medo nos olhos dela é palpável. 💌 Rede Social: @crisfer_autora
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