A madrugada caía sobre Costa da Lua como um véu frio, pesado, cheio de presságios. A brisa de julho trazia cheiro de pinheiro… e de perigo. Dentro da Casa dos Blackwolf, o silêncio que reinava se partiu quando Bryan começou a se vestir às pressas: couro, passos rápidos, respiração tensa. Cada zíper fechado soava como um tambor anunciando guerra.
— Ainda acho que é uma péssima ideia você ir Mia …
Mia que também já estava se arrumando, se vira para ele. O vínculo entre eles vibrou em alerta, esticado como corda prestes a romper. Mika rosnava sob sua pele, e um nó duro de preocupação e fúria apertou sua garganta.
— Você acha mesmo que eu vou ficar aqui? — ela rebateu, puxando a bota com um movimento rápido e firme, como quem se arma para a guerra, enquanto começava a trançar os cabelos platinados com a precisão de uma loba pronta para matar.
Os olhos de Bryan faiscaram.
— Pode ser armadilha. Estão tentando te afastar da segurança. Você é o alvo.
Mia terminou de ajustar a jaqueta de couro, o olhar firme, puxando o zíper até o pescoço como quem sela uma decisão irreversível.
— E se for? — retrucou. — A capital estaria segura se todos os guerreiros partissem? Trevor é nosso aliado e está sangrando. Se ele sangra, nós também sangramos.
Ele respirou fundo, passou a mão pelo rosto e cedeu, baixo: — Não sai do meu lado. Entendeu?
Assentiu. O pacto foi silencioso, firme como aço.
Pelos corredores a casa parecia um coração que prendia a respiração. Rosamund, a governanta, apareceu na porta do quarto das crianças: olhos turvos, prontidão imediata.
— Luna, está tudo bem? — perguntou, voz de quem conhece riscos.
— Não , temos uma emergência— Mia respondeu, segurando as mãos enrugadas da mulher como quem dá coragem. — Preciso que cuide dos meninos. Diga a eles que estamos resolvendo algo importante. Que a mamãe e o papai os amam mais do que tudo.
Rosamund curvou-se, leal: — Voltem vivos. E vitoriosos, meus Alfas. A alcateia precisa de vocês.
Mia acionou o link com Chloe, irmã mais velha, e a conexão atravessou a distância em segundos. “Preciso de você. Preciso que venha até minha casa. Chame Zoe. Protejam os meninos. Tobias Black está sob ataque.”
“Entendido irmã ”, veio a voz firme. “Vou cuidar deles. Vai. Concentre-se na batalha.”
Lá fora, um carro blindado n***o esperava. Benjamim Blackwolf consultava um tablet, austero e urgente. O comboio partiu; o aeroporto militar de Costa da Lua jazia isolado, jatos alinhados flechas metálicas prontas.
No ar, as turbinas cantaram um réquiem de ferro. A cidade ficou pra trás em pontos de luz. Mia olhou para os filhos adormecidos na memória e deixou que Mika rugisse em liberdade: a loba estava acordada.
O pouso foi uma porrada. O jato estalou contra a pista, a rampa abriu com um silvo e a madrugada revelou um inferno em chamas. Labaredas rasgavam o céu; fumaça, sangue e pólvora mágica formavam uma névoa que cheirava a derrota. Casas destroçadas, corpos no chão — cena de extermínio.
Os guerreiros saltaram em formação. Bryan rugiu com o comando alfa: — Protejam civis! Salvem feridos! Abram caminho! Encontrem Tobias!
Mia avançou pela ala leste quando ouviu um choro fraco entre dois corpos. Uma criança — viva.
Um lobo inimigo saltou das sombras, garras prontas para atingir o pequeno.
Mia se lançou para frente.
Agarrou o lobo pelo focinho e pela nuca, torcendo o pescoço dele com um estalo seco que ecoou na praça.
O corpo da criatura despencou no chão, inerte.
Ela puxou a criança para perto e sussurrou:
— Corre. Agora.
A criança fugiu cambaleando, e foi aí que outros inimigos surgiram, cercando-a pelas laterais.
Então veio o grito — urgente, desesperado:
— cuidado, atrás!
Ela girou no exato segundo em que um lobo cinza gigantesco saltava contra ela, garras direcionadas ao seu peito.
Mas o ataque não a acertou — um guerreiro da Borderwolf se lançou na frente, interceptando a fera.
O lobo rasgou o flanco dele, sangue jorrando numa ferida profunda.
O homem gritou, mas seguiu firme, segurando o lobo por um instante precioso…
Tempo suficiente para Mia reagir.
Mika explodiu dentro dela.
Mia agarrou o lobo pelas costelas, enterrando os dedos na carne.
Com a força brutal de sua linhagem, puxou de ambos os lados — e quebrou o lobo AO MEIO, ossos estalando como madeira verde sob um machado.
O corpo se abriu, caindo em duas partes no chão.
Mia então se aproxima do homem que a salvou.
— Eu só queria ajudar — murmurou ele, voz rouca. Sangue escorria.
— E ajudou, você me salvou! — diz ela, calor no meio do caos. — Quem é você?
— Paris Moreau — ele conseguiu.
— Mia Blackwolf. Vamos tirar você daqui.
Ela o apoiou até a área segura; curandeiros trabalharam como anjos feridos.
Enquanto Mia salvava, Bryan e Ben localizaram Tobias. Cercado, com Adam ao lado, Tobias resistia com garras partidas e respiração curta. Bryan urrava — um uivo que era ordem e fúria — e dez leais o seguiram, abrindo caminho como uma lâmina.
Bryan quebrou a linha inimiga, cada golpe preciso. Um atacante mirou Tobias; Bryan atirou-se e quebrou-o em instinto e força. Tobias, tosse e sangue, ergueu os olhos:
— Vocês… vieram.
— Nunca duvide de um Blackwolf — respondeu Bryan, puxando-o para cima.
O céu clareava com lentidão c***l, expondo o que sobrou da noite: casas queimadas, telas de fumaça, cinzas como poeira de almas. O campo era um cemitério aberto: corpos, lamentos, rostos que não esqueceriam.
No centro, Mia e Bryan — fuligem e sangue seco nas peles, olhos que contavam histórias de quem viu a morte de perto. Mika pulsava sob a pele dela, alerta contínuo. Bryan sustentava o queixo, mas a exaustão e o peso do comando vinham dos olhos.
Paris, dolorido numa maca improvisada, procurava Mia com os olhos febris. Tobias e Adam m*l se mantinham de pé; feridos, mas de pé eram testemunhas resistentes.
— Foi calculado — Mia disse, voz cortante. — Alguém sabia onde atacar. Sabiam que viríamos.
— Eles falharam — Bryan respondeu, mas sem convicção completa.
Benjamim chegou com passos firmes, uniforme chamuscado. — Contamos os danos. O saldo é r**m. Muitas baixas. Mas conseguimos impedir o extermínio total. A maioria dos atacantes foi neutralizada; alguns fugiram para o sul. Capturamos treze com vida. Vou interrogá-los pessoalmente quando chegarmos em Costa da lua. Os porta-aviões chegam em menos de duas horas.
— Dá para transportar todos? — Bryan perguntou.
— Sim. Nossa frota está pronta, Três turnos de evacuação. Tobias e Adam na primeira leva. Paris vai com vocês — disse Ben. — Estão estáveis, mas grave.
O silêncio voltou desta vez pesado, cheio de perguntas. A alcateia respirava, remendada e faminta por respostas.
Mia encarou o horizonte em que o sol pedia passagem. A luz não era promessa; era revelação: a ofensiva fora só a primeira peça. Algo dentro de suas linhas ajudara o inimigo.
Ela virou o rosto para Bryan. A dor que se via no rosto dele era reflexo da dela. Mas junto com a dor havia algo novo uma máscara de gelo que se formava: foco, frieza, fúria.
— Alguém próximo a nós está ajudando o inimigo — falou ela, baixa, como quem planta uma sentença numa cova. — Vamos descobrir quem.
Ele assentiu. O vínculo pulsou entre eles — corrente de sangue e juramento. Ao longe, os motores dos porta-aviões começaram a rugir. A guerra apenas começara.
Costa da Lua não seria a mesma depois daquela madrugada.