Capítulo 32 Zeus

1074 Palavras
Zeus Narrando Terminei o café, passei o guardanapo na boca e olhei pra Janete. Ela tava linda, como sempre. Cabelo cacheado solto, xícara na mão, olhar tranquilo. Trinta anos e ainda conseguia me fazer esquecer do mundo por alguns segundos. O rádio chiou. Depois chiou de novo. Mais alto. Vozes nervosas. Peguei o rádio na hora. — Qual foi o bo da madrugada? Por que os rádios tavam gritando daquele jeito? Do outro lado, a voz do Neguinho veio meio enrolada. — Não foi nada não, chefe. Tudo tranquilo. Apertei o rádio com força. — Nada não? Ninguém começa a gritar no rádio e aciona todas as frequências por nada. Que que vocês tão tentando me esconder? Silêncio. Depois: — Foi porque a patroa passou chutada, chefe. Não parou de jeito nenhum. A gente achou estranho, ficou na contenção pra saber se era invasão, se tinha alguém seguindo ela. Mas alguma coisa aconteceu com a mina. Olhei pra Janete. Ela balançou a cabeça, negando, abriu os braços. Não sabia de nada. Levantei da mesa. Joguei o rádio em cima da madeira, peguei a Taurus, coloquei na cintura. — O que foi que a sua filha aprontou dessa vez? — perguntei, a voz meio grossa. Janete largou a xícara, bateu palma e colocou a mão na cintura no mesmo movimento. — Minha filha? Ela herdou o seu gênio, herdou a sua arrogância. Não vem jogar tudo pra cima de mim não. Eu tava na mesma cama que você na hora que aconteceu, então não sei o que a sua filha tem. Respirou fundo depois do discurso todo sem pausa. Eu ri baixo. Só ela mesmo. Peguei o telefone, mandei mensagem pra Carol. Zeus: Tudo bem, filha? Passa na boca mais tarde. Janete olhou de lado. — Se ela tava curtindo, ou tá dormindo, ou já tá no corre. Não vai atender agora. Você conhece sua filha: primeiro trabalha, depois curte, depois responde. É isso aí. Ela saiu da cozinha. Fiquei ali, pensando. Ela nunca entrou chutada assim no morro. Alguma coisa aconteceu. Será que ameaçaram minha filha? Será que algum arrombado tentou fazer alguma coisa com ela nessas boates da vida? Saí pelo portão. Neguinho tava lá, encostado no muro. — Qual foi a parte que eu falei pra você ficar de olho na Carol que você não ficou? — perguntei, chegando perto. Ele levantou as mãos. — Chefe, tu sabe como é. Carol nunca gostou de mim nem de ninguém na cola dela. Se ela quiser, ela dá um perdido na gente. Tu sabe disso. Bufei. Assoviei pro outro lado. Babau apareceu. — E aí, sabe de alguma coisa? O que aconteceu com a Carol? Por que ela entrou chutada daquele jeito? — Chefe, não sei não. Mas sei que a blitz ontem tava pegando pesado. Até onde eu sei, eles tão parando todo mundo. Não importa se tem cara de traficante ou não. — Babau falou coçando a nuca. — Isso aí Carol sabe se sair como ninguém. — Dei o papo rindo de lado, que eu sei que Carol é igualzinha a mim. — Se tivesse acontecido alguma coisa r**m, acho que a própria Carol já teria falado. Ou se não, quem tivesse atrás dela teria metido a cara e a gente tinha parado no peito aqui na entrada. — Neguinho soltou a voz e eu balancei a cabeça. — Vou organizar umas paradas. Tem baile lá no Chapadão, quero ver como é que tão essas blitz. Não vou ficar dando mole. — Babau deu o papo eu concordei. Eu ia saindo, quando vi Neguinho com uma olhada estranha. — Tá sabendo de alguma coisa? — perguntei e ele hesitou. — Fiquei sabendo que o arrombado do Barroso tava dando uns pinote aqui perto do morro. Será que tem a ver com o que aconteceu com a Carol? — ele soltou a voz e eu ri alto. — Aquele policialzinho de merda não é nem doido de tocar na minha filha. Nem de chegar perto. — Eu acho que tá na hora da gente montar uma emboscada pra ele. Ele anda cheio de graça. E não é a primeira vez que eu escuto sobre ele. Os cria dos outros morros tão tudo comentando. — Neguinho insistiu. Parei. Pensei. — Então vamos marcar. Vamos reunir a tropa e dar um susto no policial que acha que pode vir empinar moto na frente do morro. — Passei a ideia, mas a minha mente tava na Carol, tava querendo saber o que realmente aconteceu. Neguinho sorriu. — Então é isso aí, chefe. Vamos botar pra føder nesse caralhø. — Ele deu o papo daquele jeito todo malandro dele. Ele saiu, foi distribuir material. Fui pra boca. Liguei o notebook, mandei mensagem pro meu informante. — Preciso saber sobre a blitz. Tem a ver com o mandado do juiz? — mandei a mensagem com o olho fixo na tela. A resposta demorou. Fiquei na linha, olhando a tela. Uma notificação da Carol apareceu na barra: Já já tô na boca. Abri, respondi rápido. — Vem mais rápido possível. Preciso trocar uma ideia. — Enviei já vendo a mensagem do informante pela barra de notificação. — Tem tudo a ver. Tá tudo ligado ao juiz. Principalmente se for sobre você, seu morro, sua família. Falando nisso… como anda a Carol? — O informante respondeu rápido, cagøu no final, quando perguntou pela Carol. Meu sangue gelou. Dedos voaram no teclado. — Que que tu quer saber de Carol? O papo aqui é você me passar informação. Da minha filha não se interessa. — Meti a pørra da pergunta, já colocando ele no lugar dele. — Desculpa, chefe. Só tô passando o que ouvi. Fica preparado. Armado até os dentes. Eles vão com tudo. Querem sua cabeça. Não importa quantos vão morrer daqui. Querem você morto ou preso. — Meu informante fala, mas ele sabe que eu sou carne de pescoço, osso duro de roer. Fechei os olhos por um segundo. Quando abri, a fera dentro de mim tava acordada. — Tô preparado. Eles podem vir. Mas vão ter que me matar. Porque me prender eles não vão conseguir. — Dei a pørra do papo fechando meu punho e batendo firme na mesa. Desliguei. Ligação Off A fera tá solta. E o juiz ia descobrir, da pior maneira possível, que leão não se caça com papel passado. — Queria falar comigo, coroa? — Carol falou, passando pela porta. Continua...
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