Zeus Narrando
Quando eu puxei a Carol pra dentro, vi a mão dela esticada tentando me alcançar, e aí o mundo virou de cabeça pra baixo. A pressão da explosão me jogou longe. Quando eu caí no chão, do lado de fora, a primeira coisa que passou pela minha cabeça foi ela. Cadê ela? Tudo estava coberto por poeira. E pelos estilhaços do prédio. Na minha cabeça a pergunta é será que ela conseguiu se proteger? Será que ela tava bem?
Tentei levantar. Não deu. Meu corpo não obedecia. Por mais que minha mente gritasse "VAI, CARALHØ! LEVANTA!", minhas pernas não respondiam. Eu queria correr, queria cavar com as mãos, queria achar minha filha debaixo daqueles escombros. Mas não conseguia. Só ouvia aquele zumbido infernal no ouvido, resto da explosão, e os gritos, os tiros, os helicópteros.
Deitei ali, olhando pro céu. Os helicópteros. Tinha dois. Um do comando, outro da polícia. Atirando um contra o outro no meio do céu. Parecia cena de filme, mas era real. Era a p***a da minha vida se desfazendo na minha frente.
Virei a cabeça pro lado. O caveirão tava ali, perto. E eu vi eles. O filho do juiz. O Barroso. Os dois olhando na minha direção. O Lopes tava com uma expressão estranha, difícil de decifrar. O Barroso, com aquele sorriso de sempre, mesmo no meio do fogo cruzado.
Do outro lado, o Babau e o Neguinho tentavam se aproximar, atirando, avançando, mas o fogo tava pesado demais. Eu via eles se abaixando, se protegendo, tentando chegar perto. Tentando me ajudar.
Tentei levantar de novo. Nada. O corpo não respondia.
Foi quando eu senti mãos me puxando. Me arrastando. Me jogando pra dentro daquela lata de sardinha.
Quando me dei conta, eu tava dentro do caveirão. Frente a frente com o filho do homem que eu mais odiava nesse mundo.
O tal Lopes. Depois que a Carol falou sobre ele, eu precisei fui atrás.
Ele me olhou. Eu olhei pra ele. Por um segundo, o tempo parou. Pensei em revidar. Pensei em meter a mão no pescoço dele, em fazer ele pagar por tudo. Mas não dava. Tinha mais homens ali dentro. E eu tava desarmado, moído, sem forças.
Foi quando o baque veio.
PÁ!
O caveirão tremeu inteiro. Algo bateu na lateral com tudo.
PÁ! Outro. Mais forte.
No terceiro, o carro voou. Rodopiou no ar que nem brinquedo. A porta abriu com tudo. O Barroso foi lançado pra fora igual boneco de pano, caiu longe, gritando de dor. O Lopes foi jogado pro lado, bateu com tudo na parede, caiu meio desacordado. Eu bati com tudo também, senti o braço torcer, a cabeça rodar.
— Doía. Muito. — O Barroso gritava lá fora.
Eu pensei em correr. Pensei em sumir. Era a hora. Mas não tinha como. A barreira tava perto, e do lado de fora era só polícia. Os caras do comando tavam longe, trocando tiro com os helicópteros. Eu tava sozinho, caído, no meio do fogo cruzado.
Ou eu morria tentando fugir, ou ia ser preso de qualquer jeito.
Respirei fundo. E fiz o que não imaginei que faria.
Abaixei pra ajudar o Lopes a colocar o Barroso de volta no caveirão.
— Não acredito que o grande Zeus tá ajudando um policial — o Barroso falou, com aquele sorriso de bøsta, mesmo sangrando, mesmo caído.
— Eu não sou arrombado que nem você, não, filho da putä do caralhø. Apesar de você não merecer, eu não tenho escolha.
Peguei ele pelo colete, ajudei a arrastar. O Lopes segurou do outro lado. Os tiros continuavam. PÁ, PÁ, PÁ! Mais dois acertaram as pernas do Barroso. Ele gritou mais alto, um berro que parecia de animal. Sangue jorrou pra todo lado. A cara dele ficou branca na hora.
Foi quando um tiro pegou o Lopes nas costas.
Ele caiu. Bateu com a cara no chão.
Os policiais do lado de fora avançaram. Eu vi as fardas se aproximando. Eu sabia que era agora. Se eles me vissem em pé, atiravam. Não iam perguntar nada.
— BORA! — gritei, puxando o Lopes. — BORA COLOCAR ELE PRA DENTRO!
Eu e o Lopes, juntos, jogamos o Barroso pra dentro do caveirão. Ele caiu em cima do banco e desmaiou na hora. O sangue não parava de sair das pernas dele.
Foi quando outro tiro pegou o Lopes de novo. Nas costas, no mesmo lugar.
Ele caiu de novo. No chão.
— SE JOGA ATRÁS DO CAVEIRÃO! — ele gritou pra mim, a voz rouca, desesperada.
Olhei pra ele. Desconfiado.
— Se você tiver armado e atirar em mim, pode ficar sabendo que você não sai dessa pørra. — Rosnei olhando nos olhos dele.
— SÓ FAZ O QUE EU TÔ MANDANDO, PØRRA! — Lopes fala de novo e dessa vez uma voz carregada não só de autoridade mas de raiva.
Ele puxou a arma. Apoiou no chão. Apontou.
— Calma aí, pô. Eu tô desarmado.
— UM... — Lopes começou uma contagem e deu o primeiro tiro.
Olhei nos olhos dele. Tava vazio. Tava decidido.
— DOIS...
Fechei os olhos.
— TRÊS!
PÁ! PÁ! PÁ!
Três tiros. Na minha direção.
Eu caí.
Senti o impacto no chão, mas não senti bala. Ele tinha atirado pro lado. Os outros dois tiros acertaram a lataria do caveirão, bem perto da minha cabeça.
— Você matou ele? — a voz do Barroso, fraca, de dentro do carro. — Você matou ele?
— Não falaram que era morto ou preso? — o Lopes respondeu, a voz grossa, ofegante. — Ele tá morto.
Eu caído no chão. Consciente. Vivo. Os tiros não me acertaram. Mas eu fiquei, caído, ouvindo tudo.
Os polícia avançaram. Um deles parou perto de mim.
— Vou conferir se o Zeus morreu. — Ele falou e pelos passos ele estava se aproximando.
— É LÓGICO QUE MORREU! — o Lopes gritou, a voz ecoando no meio dos tiros. — AGORA VOCÊ VAI DEIXAR DOIS COMPANHEIROS SEUS MORREREM PORQUE QUER VERIFICAR SE UM TRAFICANTE MORREU?
O Barroso, lá de dentro, falou fraco, quase sumindo.
— É... eu tenho que concordar com meu amigo Lopes. Vamos... vamos embora...
O policial hesitou. Olhou pra mim, caído. Olhou pro caveirão. Pros gritos. Pros tiros.
Senti duas balas passarem rente ao meu corpo. Bateram no chão, perto da minha cabeça, levantando poeira. Por um milímetro, não me acertaram. O filho da putä que atirou é bom no que faz.
— ERA ISSO QUE VOCÊ QUERIA CONFIRMAR? — o Lopes berrou. — ENTÃO JÁ ERA! VAMOS!
O carro arrancou em alta velocidade. Derrapou, saiu cantando pneu, sumiu na curva.
Fiquei ali. Deitado no chão. Os tiros ainda ecoando. Os gritos ainda longe. A poeira baixando devagar.
Respirei fundo. O peito doía. O braço doía. A cabeça doía. Mas eu tava vivo.
O filho do juiz. O Lopes. Ele podia ter me matado. Podia ter me entregado. Podia ter feito tudo certinho, cumprido a missão, agradado o pai.
Mas não fez.
Ele deixou eu escapar.
E na minha cabeça, uma única imagem não saía.
A Carol. Minha filha. Debaixo dos escombros.
Viva ou morta, eu não sei.
Mas eu preciso descobrir. Nem que fosse a última coisa que eu faça.
Continua...