Neguinho Narrando
Mano, assim que ouvimos o barulho da sirene, eu e Babau chamamos mais três e já ficamos preparados para sair do morro se precisasse. Ficamos na contenção, os cinco, de olho na entrada. Quando ela entrou no morro com tudo, a moto cantando no asfalto, a gente não pensou duas vezes. Fizemos aquele paredão na frente dela, as cinco motos paradas, ela não ia passar sem falar com a gente.
Ela sabia que não podia simplesmente passar sem dar satisfação. Principalmente pra mim e pro Babau, que sempre dá fuga pra ela quando precisa sair do morro na calada. Mas se tá acontecendo alguma coisa, se ela tá correndo perigo, a gente precisa saber.
O Babau foi mais tranquilo na abordagem, na dele. Eu não. Soltei o verbo na hora. Porque entre mim e a Carol a parada é diferente. Nós temos praticamente a mesma idade, e a trocação entre a gente sempre foi igual. Crescemos como irmãos, somos de dentro de casa desde que éramos menor. Meu pai e o pai do Babau correram junto com Zeus nesse morro — na verdade, até hoje eles são os veteranos que não largam o fuzil por nada.
Apesar de que a Carol, eu e o Babau estamos aí pro que der e vier. Nunca assumimos os corre do morro sozinho — os velhos tão por trás, fazem o serviço burocrático, e nós cuidamos da parte braçal. É por isso que o Zeus sempre pede pra que eu e o Babau fiquemos de olho nela.
Eu sei que tem um BO muito maior por trás de tudo isso. Apesar dela nunca ter se aberto direito com a gente, eu sempre fui o mais desbocado. Nunca medi palavra pra falar com ela, mesmo ela sendo a herdeira legítima. O nosso papo de irmão sempre foi reto e direto. Passei a visão pra ela do que eu ia aturar e do que eu não ia aturar. Ela abraçou, acelerou a moto e subiu pra casa dela.
Eu e o Babau fomos pra barreira. Porque com essa ameaça no ar, a gente não pode vacilar.
Vou passar a real pra vocês aqui.
Meu nome é Neilson. Tenho 28 anos, 1,89m de altura, mais conhecido como Neguinho. Esse vulgo foi apelido que a Carol me chamava quando eu ainda era pivete. Ela era a minha neguinha e eu era o neguinho dela. Assim como o vulgo "Babau" também foi apelido que ela deu quando nós era pivete. Acabou ficando, e hoje é esse o nome que corre no movimento.
Sou um fiel escudeiro. Eu, Carol e Babau somos os três mosqueteiros. O Zeus sempre colocou a gente pra ser os olhos dele com a Carol, mas era impossível dedurar ela. Já teve época dela ficar de castigo e a gente ser cobrado, apanhar igual filho que desobedeceu o pai. O Zeus tinha a mesma irmandade com meu pai e o pai do Babau que a gente tem com a Carol hoje.
Mas quando a gente acha que ela vai enfiar os pés pelas mãos, a gente fica de olho. Ela jura que a gente não sabe das aventuras dela. A gente pode até não sair junto, pode até deixar ela achar que é livre, mas sempre tem um olho da gente lá fora.
E a minha raiva é maior agora, sabendo que ela se envolveu com bota.
Bora lá, vou me apresentar direito. Tenho várias tatuagens espalhadas pelo corpo, cabelo na régua, semblante bem fechado — aquele rosto quadrado, maxilar quadrado, barba e bigode pra fazer volume. Sou grandão mesmo, quase um armário. Tô solteiro, tô na pista.
Há mais ou menos uns três anos atrás, eu até jurei que tinha me apaixonado pela Carol. A gente ficou uma vez, e foi estranho porque a gente se conhece desde pivete. Descobrimos que não passou de um desejo passageiro, daqueles que surge do nada e some do mesmo jeito. Resolvemos deixar como estava, pra não afetar nossa amizade, nossa irmandade.
A gente nasceu pra ser irmão. Não pra ser parceiro de cama. Até porque não rolou sexo entre a gente — só uns amassos e a certeza de que aquilo não era pra nós.
Hoje, olhando pra tudo que tá acontecendo, minha única preocupação é proteger ela. Mesmo que ela não peça. Mesmo que ela não queira. Porque irmão é isso: cuida mesmo quando o outro não tá vendo.
E se precisar dar uma chacoalhada nela pra acordar, eu vou dar. Se precisar cair no poço com ela, eu caio. Sem pensar duas vezes.
O rádio chiou no meu ouvido. Era o Zeus.
— Neguinho, a Carol já voltou?
Peguei o rádio na hora.
— Voltou sim, chefe. Passou aqui agora pouco.
— Reforça a barreira. Ela não sai mais do morro hoje. De jeito nenhum.
Respirei fundo. Sabia que ia ser osso.
— Vou tentar, chefe.
A voz do Zeus ficou mais grossa na hora.
— Não é pra tentar, não. É pra SEGURAR. Se for preciso, amarra e traz pra mim.
Passei a mão no rosto. Merda.
— Beleza, chefe. Tu que manda.
Desliguei o rádio e fiquei ali, processando. Segurar a Carol amarrada? Ela ia adorar saber disso.
Foi quando ouvi a voz atrás de mim.
— Neguinho...
Era a Hillary. A p**a da Hilary, uma mina que vivi dando em cima de mim. Loira, corpo bombado, mas com um jeito de interesseira que dava pra sentir de longe.
Coloquei a chave na ignição, já preparado pra vazar.
— O que você vai fazer agora? — ela perguntou, se aproximando.
— Vou pro barraco, tomar um banho.
Ela sorriu, aquele sorriso manhoso.
— Posso ir com você?
Soltei uma gargalhada.
— Desde quando eu levo marmita pro meu barraco?
Ela não desistiu. Foi pra cima, com aquela voz de p**a barata.
— Então vamos pro meu. Porque eu tô doidinha pra sentar nesse seu taco de chocolate.
Ela passou a mão no meu braço, lenta, provocante. Afastei na hora.
— Desencosta, caralhø.
Ela ignorou. A mão dela subiu pro meu peito, depois desceu pro cós da bermuda. Num movimento rápido, apertou meu paü.
— Tá MALUCONA, PØRRA? — gritei, puxando meu corpo pra trás.
Ela riu, sem vergonha nenhuma.
— Tá me tirando, Neguinho? Tu acha mesmo que a Carol quer alguma coisa com você? — Ela começou com a pørra do discurso montado dela.
Meu sangue gelou. Que pørra era essa?
— Você tem que entender que a Carol é sua chefe. E você não é nada além de um empregado. — Ela soltou desdenhando.
Segurei o pulso dela com força, jogando longe. A raiva subiu na mesma hora.
— Escuta aqui, Hilary. Meu lance com a Carol é lance de irmão. E se eu tiver afim de comer marmita, eu procuro. Mas hoje eu vou atrás de comer de verdade, tô afim de banquete. Vou aproveitar que tem uma loira linda que eu admiro no morro.
Ela deu uma gargalhada cínica.
— Até parece que a Raíssa, uma advogada inteligente do jeito que ela é, vai ficar sentando pra bandidinhø como você.
Não pensei duas vezes. Enfiei a mão na cara dela. Ela rodou, quase caindo.
Subi na moto, liguei o motor e acelerei.
A imagem da Raíssa veio na mente. A loira inteligente, advogada, linda. Será que um dia...
Balancei a cabeça. Não era hora pra isso.
Acelerei mais. Precisava pensar. Precisava de um banho. E precisava, de algum jeito, cumprir a ordem do Zeus sem ter que amarrar a Carol.
Continua...