A Suprema Sacerdotisa, a maior autoridade do planeta Noldá, Regente do Templo dos Trealtas e Guardiã da Cidade dos Immunus, estava bem séria diante daquelas pessoas, a olhá-las, mas desfez a sua expressão e começou a sorrir, deixou o seu Cajado de lado, que ficava em pé sozinho, e levantou os braços para os céus a gritar:
— Naty — Talita correu para abraçar a sua velha amiga. — Oi, meninas, que saudade.
Naty, que ficou acanhada com a ação da Suprema Sacerdotisa, apenas retribuiu o abraço. Mesmo sendo amigas, agora precisava ser tratada com mais formalidades, mas Talita não era assim, apesar de cumprir muito bem o seu papel.
— Talita, é muito bom te rever — respondeu Naty.
Depois, Talita abraçou Fabiana, Gisele e por fim, Belisa.
— Vocês se conhecem? — questionou o Grão-Mestre. — Eu não fazia ideia.
— A Natybinle foi quem me encontrou na Terra quando a Magia das Luzes oscilou por lá. O Destino fez com que ela e as Feiticeiras Prodígios morassem numa casa exatamente do lado da casa do Allogaj Cesar, acredita? Na verdade, eu o encontrei, eu o descobri, depois fomos atrás de novos recrutas para o g***o de Feiticeiros Prodígios e encontramos as outras meninas. A história é muito grande. Pensei ter te contado?
— Não contou.
— Foi m*l, tem muita coisa na minha cabeça. E quem é esta aí? — a Suprema Sacerdotisa Talita apontou para Sabryna. — Ela não se curvou quando me viu, então, não é dorbiana.
Até mesmo a Karen havia se curvado, por impulso.
— Suprema, esta é a Sabryna Mendes, a Allogaj da Profecia.
— É ela? — Talita aproximou-se da garota. — Pensei que seria um rapaz. Sabryna, por que eu não sinto o seu poder mágico?
— Ela bloqueou a Emissão, Vossa Superioridade — respondeu Fabiana.
— Muito bom. Assim ninguém vai perceber a sua presença. Fong, qual o grau de magia desta Allogaj?
— Não posso responder, Suprema — disse Fong —, ela consegue bloquear o dom de uma pessoa sobre ela.
— Esta habilidade é inusitada. Tem mais alguma coisa sobre ela que eu deva saber?
— Sim — respondeu o Grão-Mestre —, ela não é das luzes, é das cinzas.
— Impossível — Talita pôs as mãos sobre a boca. — Isso... Isso é fabuloso. Sabryna, você tem noção do que isto significa?
Sabryna, negou com a cabeça.
— Bom — continuou Talita —, nem eu, mas parece ser muito importante — algumas pessoas seguraram o riso, exceto Gisele, ela não se controlava em momentos jocosos. — Eu sinto que o Universo quer dizer alguma coisa, preciso meditar de novo, da última vez tive uma Epifania, mas parece que não veio muito exata.
— Pensando por outro lado — disse a Sapiensis Débora —, se me permite, Vossa Superioridade...
— Permitido, belíssima Sapiensis.
— A Profecia, basicamente, dizia que outro Allogaj surgiria, e que a sua luz seria muito forte. Na língua dorbiana não existe gênero nas palavras, então, não tinha como ter uma tradução exata, automaticamente a senhora traduziu para o masculino, já que a senhora não é nativa de Dorbis e sim da Terra, e do Brasil, eu também sou. Outra coisa, ser das cinzas é ter as duas magias, nesse caso, ela é uma Allogaj das Luzes, e também das Trevas, o que a torna o que ela é agora. A luz dela é tão intensa que purificou uma Pedra de Vírnam, a mesma qual continha o DNA da Allogaj Valéria, uma obra que...
— Somente eu poderia fazer e com muito esforço — completou Talita que ficou admirada. — Sabryna, temos muito o que conversar. Obrigada, Débora, você me mostrou que a Profecia estava certa, porém, com algumas omissões.
O modo como Talita falava parecia que a Profecia não era dela, mas ninguém ousou questionar.
— Suprema — disse o acompanhante de Débora, Ícaro —, se me permite também, gostaria de dizer que tenho o quarto olho, não é um dom tão exato quanto o da Identificadora, mas posso responder algumas perguntas.
Ícaro tinha o quarto olho, significava que ele podia enxergar através das pessoas melhor que Aurira, que tinha apenas o terceiro olho, o que ela via eram coisas bem básicas, e Ícaro tinha uma visão num nível intermediário. Já a Fong, tinha o quinto olho, o que via nas pessoas era de um nível muito avançado.
— Você enxerga através das pessoas — disse Talita. — Qual o grau de magia da Allogaj?
— Vinte — a resposta de Ícaro deixou toda a sala de queixo caído.
— Vinte? — berrou Leiane e imediatamente tapou a boca.
— Ela supera até mesmo o Grão-Mestre com grau dezenove e provavelmente vai chegar a vinte daqui a uns trinta e cinco anos. Somente perde para a senhora, Suprema, com grau vinte e um, estás no ápice do poder mágico.
— Obrigada, Ícaro — agradeceu Talita. — Você também é brasileiro, não é?
— Sim, senhora.
— Grão-Mestre — disse a Suprema Sacerdotisa —, todos os terráqueos da Zingária, inclusive eu que não pertenço a este lugar, estão nesta sala?
— Não, Suprema... — o Grão-Mestre respondia, quando alguém abriu a porta e interrompeu a conversa.
— Grão-Mestre, dois minutos para a reunião começar — disse Kitga.
— Agora estão todos aqui — complementou o Mascarado.
— Por que vocês dorbianos têm fascinação pelos Feiticeiros Oprimidos?
— Vocês são muito rápidos para desenvolverem habilidades e para aprenderem as coisas — respondeu o Mascarado. — Fora que os seus poderes mágicos são executados com bastante intensidade.
— E a lista é muito grande.
— A reunião, senhor — lembrou Kit.
Dessa vez, todas foram para o salão do galpão, a Suma-Sacerdotisa usou o Cajado Údmoz para trocar de roupa. O Grão-Mestre ficou em cima do palanque. Havia música e bebida. Karen não desgrudou de Sabryna, enquanto ela estava de um lado, Aurira estava do outro.
— Sabryna, quero falar com você em particular — chamou Talita.
Do lado de fora, Sabryna pôde ver como os cogumelos gigantes brilhavam.
— Sabryna — prosseguiu Talita —, antes de partir, o antigo Sumo-Sacerdote de Dorbis previu algumas coisas e passou para mim em particular. Vou te contar um segredo, eu posso ter muitas habilidades, mas não tenho o dom da Profecia, nem da previsão. Eu menti, não me julgue, mas eu nunca lancei nenhuma Profecia. Qual é? Eu sou a Suma-Sacerdotisa, preciso fazer alguma coisa importante. As profecias do antigo Sumo-Sacerdote cumpriram-se, e ainda estão se cumprindo porque eu estou vendo. Você, garota, será o canal para que este mundo não seja mergulhado nas profundezas do m*l. Dheramar, o antigo Sumo-Sacerdote, me disse "o Allogaj será chamado de destruidor, mas na verdade será o salvador". Parece que ele falhou com uma coisa, o Allogaj não era homem, era uma mulher n***a. E não era das luzes, era das cinzas. Acho que vou começar a questionar esta Profecia.
— Ainda não entendo.
— Não se preocupe, uma hora você vai entender tudo. Quando tudo fizer sentido, você terá que fazer o que o Destino reservou-lhe para fazer. Eu não sei quando vai começar, mas saberei quando chegar o momento, e quando começar, eu estarei pronta para iniciar o processo de...
— Senhoras — disse Kitga, a Secretária do Grão-Mestre, ela fez uma reverência —, perdoe-me pela intromissão, mas o Grão-Mestre deseja que estejam presentes ao lado dele no palanque, em alguns instantes.
Talita afirmou com a cabeça e foram para dentro do galpão, hora de ouvirem o discurso daquele homem grande. No percurso, Sabryna olhava para Kitga com curiosidade.
— Há algo de errado, minha senhora? — perguntou Kit com toda a graça e educação que possuía.
— Só uma: as pessoas não te oprimem? — Sabryna queria entender como uma mulher como ela conseguia sobreviver na Terra, apesar de não serem da mesma nação. Diferir dos elitistas da Terra nunca foi um privilégio. Sabryna se lembrou do cabeleireiro Sidney, era agredido somente por ser efeminado, que dirás fazer o que a Kit fez?
— Na Terra, sim, aqui, não — respondeu Kit enquanto passavam pela multidão. — Por isso eu vir para cá, para o mundo mágico, mesmo sendo perseguida por ser das cinzas, mas estava cansada de ser perseguida por ser uma mulher transexual. Sei que aqui não é o lugar perfeito, mas os "donos" da Terra oprimem tudo o que não faz parte do padrão, até mesmo matam — foi exatamente o que ela pensou. — Tudo o que for diferente é rejeitado, massacrado, humilhado, morto. A Terra é um mundo cheio de pessoas podres que se acham donas da razão, da verdade, são julgadoras e condenadoras, mas se esquecem que somos a mesma matéria. Aqui, eu sou tratada como normal, tão normal que nem me perguntam sobre o meu s**o. Depois de muito tempo, perguntaram agora, mas eu sei que só estavam curiosas. Parece que onde a gente for, vai achar preconceito, não tem como fugir, então, o jeito é ficar e enfrentar, e a nossa morte não será esquecida. — Kit parou Sabryna para falar outra coisa: — Senhora, por tanto tempo sendo quem sou, analisei as pessoas que me observavam, de todas, o único olhar que percebi compaixão de imediato foi o seu, como se você entendesse o que sofri, de algum modo aquilo me fez perceber que não estou sozinha nesta luta.
— Não está — Sabryna falou muito baixo, mas Kit conseguiu entender.
— Obrigada! — agradeceu a mulher transexual, e sorriu para a Allogaj. — Isso me fez muito bem.
Sabryna queria dizer algumas coisas positivas e motivacionais, mas era muito tímida para isso. Ela entendia, mais do que ninguém, sobre o que Kitga passou, e Sabryna sofreu ainda mais por ser mulher n***a num país onde imperavam a misoginia e o racismo. Fato. Pelo menos, caminhavam para a luta contra a pobreza e desigualdade.
Agora, Sabryna estava atrás do Grande Grão-Mestre no palanque do galpão, ao seu lado direito estava a Suma-Sacerdotisa, usava roupas não sacerdotais para não se destacar no meio daquele povo padronizado; e ao seu lado esquerdo estava o Mandante Kordell, o líder dos Guerreiros das Cinzas levantado pelo próprio Grão-Mestre na Zingária.
— Feiticeiras e feiticeiros das cinzas — discursou o Feiticeiro Mascarado com a sua voz grossa e estrondosa —, o mundo muda e o m*l domina a mente dos que o regem. Humanos com Magia das Trevas acreditam na sua supremacia e esta ideologia ganha proporções ininterruptamente; humanos da Magia das Luzes segregam os que não pertencem à Luz e são mais imprudentes que os filhos das trevas; e nós, que, por obra do próprio Destino, nascemos com as duas Magias, sofremos rejeição e perseguição por aqueles que se consideram normais. Eles nos chamam de aberrantes, de erro, eles inventaram que trazemos o desequilíbrio ao Cosmos para justificarem a sua falta de senso. Hoje, temos que nos esconder, fingir quem nós não somos com medo do rótulo de renegados, mas isso precisa acabar. Os humanos mágicos das luzes e das trevas causaram o caos, mas estão cegos com os seus próprios egos e nos culpam pelas consequências. Isto vai acabar, pois, o Universo permitiu que uma salvadora dos oprimidos surgisse para este mundo. Aurira, Afrima, Fabiana, Gisele, Belisa, Fong e Leiane, sete mulheres da nossa Zingária foram escolhidas por mim para trazerem aquela que carrega o número sete, a nossa salvadora, uma Allogaj que pensávamos que seria das Luzes, mas, na verdade, é das Cinzas e isso só comprova que estamos na direção certa. Nunca existiu um Allogaj das Cinzas antes, porque não existe Magia das Cinzas, somos a mistura de duas Magias que coexistem em equilíbrio no nosso cerne. Somos a verdadeira prova do equilíbrio, e por isso, somos desprezados por quem teme o nosso valor. Infelizmente, se é guerra que eles querem, é guerra que eles terão, e a a**a mais poderosa nós já temos. Enfim, como eu havia prometido, se trouxessem a Allogaj, eu me revelaria para vocês, agora é a hora.
O momento que todos e todas esperavam havia chegado. Primeiro, o Feiticeiro Mascarado pegou o seu bastão mágico e bateu a ponta inferior no chão, o objeto começou a descascar e os pedaços caíram no chão a revelar um arcaico cetro real do Reino de Ic, depois ele puxou a máscara e o seu rosto foi sugado para ele, não só o rosto como também todo o seu corpo que diminuiu até se transformar numa linda mulher de longos cabelos platinados e olhos azuis. Todo mundo ficou de boca aberta e Karen era a única que pedia explicações porque não entendia absolutamente nada.
— Eu sou a Princesa Rammahdic, filha do Grande Rei Ic, filho do Imperador Icobax de Umnari — Depois dessa grande revelação, a Zingária ficou em silêncio. — Eu havia rejeitado o Trono de Ic quando o meu eterno pai ascendeu aos céus, pois, ele sempre soube o que eu era, e sabia sobre o sofrimento que eu enfrentaria na vida. O meu pai, o Grande Rei Ic, junto a minha mãe, a Rainha Datrila e o Mago Real Lidarred, disseram para mim quando criança que eu precisava rejeitar o trono quando o rei fosse embora, o Reino jamais me aceitaria como Rainha, mas parece que o próprio trono, que é encantado, rejeitou as sucessoras e chama por mim e eu não vou mais fugir, aceito o meu chamado, aceito o meu destino. Quem está comigo?
Depois de um grandíssimo silêncio, toda a Zingária ajoelhou-se perante a Princesa Rammahdic.
— Vossa Alteza — até mesmo a Suma-Sacerdotisa a reverenciou.
Apenas Sabryna continuou de pé. Rammahdic olhou-lhe e sorriu.