Capítulo 13

2666 Palavras
Alguns dias passaram-se devagar para o pessoal na casa de Sabryna, era trinta de julho de dois mil e sete. O mês ia embora e Sabryna aprendeu várias coisas sobre magia com as feiticeiras, não ocorreu nenhum evento que pudesse deixá-las agitadas. Então, estava tudo tranquilo. Também, Sabryna passou a trabalhar como diarista com a Professora Linda, que era uma mulher cheia de conteúdo para ensinar e ensinou o máximo de assuntos que pôde compartilhar para a garota. Sabryna internalizava tudo, tinha o dom da leitura e isso a fez desenvolver uma memória eidética. Sarah e Karen visitavam-na todos os dias e apesar de não se gostarem, as duas concordavam numa coisa, para elas era um absurdo Sabryna trabalhar como diarista. Sabryna se encontrava acompanhada no seu quarto, não foi trabalhar naquele dia, de frente para Aurira, estavam sentadas no chão e de pernas cruzadas, meditavam. — Muito bem — disse Aurira ao sair do estado de meditação, a sua síndrome tornava a sua fala diferente, porém, ela era bem articulada. — Chega de meditar. Ficou cansativo até para mim que estou acostumada. Como você consegue? — Ser Allogaj não tem a ver com isto? — questionou Sabryna. — Não, isso é da própria pessoa. Você é perfeita na concentração, quando aprender mais sobre feitiços vai ser uma ótima conjuradora. Vai fazer feitiços de maneira não-o**l. Sinto que você vai conseguir até mesmo patentear feitiços. — Eu não sei esperanto. — Você conjurou a luz sem mesmo dizer o feitiço em esperanto, você não precisa da magia da língua. O seu d****o de fazer magia é tão potente que acabou burlando esta regra mágica. Tudo o que você precisa é de consciência do que está fazendo. Depois disto, o mundo será seu. — Eu não quero o mundo. — Eu sei, é só modo de falar. — Aurira — Sabryna ficou curiosa com uma coisa —, eu já vi todas as meninas fazerem magia, menos você. — Eu não posso fazer magia. — Por quê? — Bloqueei uma cautela. Não é de propósito, acontece com todo mundo uma hora. — Como desbloqueia? — Só eu poderei fazer isto, preciso trabalhar o meu psicológico, mas está tão difícil. Afrima e eu perdemos a nossa mãe, presenciamos a sua morte. Eu era mais nova na época, Afrima me disse que aquilo me traumatizou e desde então eu não consegui mais fazer magia. Isso é normal, muita gente passa por esta fase de bloqueio, o problema é que eu não consigo sair disto. De qualquer maneira, fiquei tanto tempo oprimida com a prática de magia que acabei desenvolvendo a habilidade da Percepção. A minha percepção é tão apurada que supera a de muita gente potente. — Parabéns. — Obrigada! Eu só não entendo por que a sua percepção é tão obtusa. Você é a Allogaj, devia ser a mais forte de todas, a sua concentração é excelente. Talvez, haja uma barreira na sua vida, você procura por alguém e está frustrada porque não a encontra? Sabryna ficou de olhos arregalados com aquela jovem com Síndrome de Down. Aurira era muito perspicaz. — Você acertou. — Faz parte do meu dom, mas não me bloqueie, por favor. — Não farei isto. — Eu vejo através das pessoas, é parecido com o dom da Fong, mas ela é mais exata, eu só faço suposições. Você é emotiva e isso pode te atrapalhar, Sabryna. Contudo, você tem uns lapsos de polaridade e perde as emoções instantaneamente, porém, não usa da razão também. Sabryna não concordava com aquelas palavras de Aurira, mas não falaria isso para ela. — Não sabia que as minhas emoções podiam me atrapalhar. — Nossas emoções sempre nos atrapalham alguma hora. Há momentos em que são extremamente necessárias, mas a razão precisa ter espaço. De igual modo, a razão exagerada nem sempre é o caminho certo, pode nos fazer errar sem percebermos. Em tudo tem que haver equilíbrio. Agora, diga-me, quem você quer encontrar? — O meu pai biológico. Aurira quase se engasgou com a própria saliva e Sabryna achou muita graça. — Você fala isso com tanta naturalidade? Isso é muito sério — aquele fato mexia com Aurira, ela perdeu a mãe quando era criança e toda a família que lhe restou foi o seu pai e a sua irmã Afrima. — Você tem vinte anos e não sabe quem é o pai verdadeiro, agora quer encontrá-lo. Pela situação qual você está, deduzi que nem o procurou. — Eu quis procurar por ele. Na verdade, ainda quero muito, mas as minhas duas mães disseram-me para não fazer isto. — Então peça permissão. Isso vai te desbloquear no Cosmos. — O que é o Cosmos que vocês tanto falam? — Poxa! Eu sei o que é, mas não sei explicar. Outra pessoa pode te explicar depois. Voltando ao assunto, peça permissão para as suas duas mães e depois procure por ele. Claro que você não precisaria disso, você é uma Allogaj, mas como eu disse, as emoções podem nos atrapalhar. Por respeitar muito as suas mães, não passaria por cima de uma ordem, então peça permissão e procure por ele, assim, quando o encontrar você estará livre de qualquer bloqueio. Ou não precisa nem encontrá-lo, mas é provável que vá, os privilégios de ser uma feiticeira poderosa é fazer com que o Destino trabalhe ao seu favor. Aquilo foi como se os olhos de Sabryna fossem abertos. — Aurira, você é incrível — foi a primeira vez que Sabryna elogiou alguém assim. — Você conseguiu ocultar a própria emissão sem ritual nem objeto mágico, o que é inédito, e eu que sou incrível? Sabryna, você é um exemplo para mim, eu sempre achei que sofria mais que todo mundo por ser quem sou, mas depois que ouvi as suas histórias, não sei como você não enlouqueceu. Olha que faço parte de um categoria de feiticeiros perseguida por ser quem é diariamente. Sabryna, você é um espelho para mim — Sabryna sorriu para Aurira por causa daquelas palavras. — Também quero dizer uma coisa, ao longo desse tempo eu já vi todas chorarem, exceto você. Você não chora? Isso é uma contrariedade muito grande, já que é tão emotiva. Isso é o auge dos lapsos de polaridade. — Nunca soube o que há comigo — foi a resposta de Sabryna. Aurira não ficou satisfeita com a resposta, mas não insistiria naquilo. Pensou que em algum momento veria Sabryna chorar e esperava que não fosse por nada triste. ¶ Sabryna chamou a sua mãe Dona Fátima em particular na cozinha — Gisele estava lá a comer alguma coisa que encontrou na geladeira — e falou: — Mãe, a senhora me dá a permissão de ir procurar o meu pai biológico? — Hein? Por que está me pedindo isso agora? — Porque eu a considero muito e a sua permissão vai trabalhar o meu psicológico para que eu venha criar uma conexão mútua com o Cosmos e ele vai me desbloquear para eu adquirir a habilidade da Percepção. Dona Fátima olhou a sua filha com curiosidade e disse: — Eu, hein! Vá lá. Já encontrou uma mesmo, só falta o outro. — Obrigada, mãe — Sabryna abraçou Dona Fátima. — Como pretende fazer isto? Magia? — Eu não sei. Talvez sim. De repente, Belisa entrou na cozinha para dar o recado à Sabryna. — Sabryna, há uma mulher aí fora a esperar por você. — Quem é? - perguntou Sabryna. — Ela disse que o nome dela é Olívia. Fátima encarou a filha que ainda a abraçava. — Só pode ser brincadeira. Sabryna estava de frente para Olívia na entrada da casa, atrás dela estavam todas as mulheres que ali habitavam. Dona Fátima estava de cara amarrada, ela sentia ciúmes por Sabryna gostar dela apesar de Sabryna não ter dito isso, mas Fátima sentia. — Então, é aqui que você mora — afirmou Olívia. — Foi difícil te achar. — É sim — disse Sabryna. Ficou contente pela presença da mulher, principalmente porque precisava dela para desbloquear a sua habilidade de percepção. — Oi, Dona Fátima — saudou Olívia. — Oi! — respondeu a mulher secamente. — Há quanto tempo? — Vinte anos — respondeu Fátima tão rápido que a pergunta nem havia acabado. Olívia limpou a garganta e perguntou para a filha: — Sabryna, será que podemos nos falar a sós? Antes que Sabryna pudesse responder, Fátima tomou a fala de maneira rude: — Óbvio que não. O que tiver que dizer a ela você vai falar aqui e agora. Sabryna não contrariaria a sua mãe, então teve que aceitar a condição. Já Olívia, que era uma mulher ousada, engoliu o orgulho e disse: — Tudo bem, eu entendo por que vocês devem estar chateadas comigo, eu demorei para perceber que eu estava errada com as minhas ideias e vim aqui para te pedir desculpas. — Do que é que ela está falando, Sabryna? — perguntou Fátima. — Isso não importa mais — inusitadamente, Sabryna andou na direção de Olívia e a abraçou. — Eu te perdoo. Olívia ficou relutante, mas depois abraçou a garota. Ela não tinha aquele afeto de mãe como Fátima tinha, mas tinha muito apreço por ela, se pareciam tanto. Principalmente depois que Sabryna foi atrás dela para querer fazer com que ela mudasse de vida. — Obrigada, garota — agradeceu Olívia. Fátima não queria ver aquilo, então entrou de casa. Sabryna era uma pessoa bem ingênua, nunca fez nada com a intenção de provocar alguém, mas o ciúme crescia no coração de Fátima e ela tinha a sua razão. Sabryna a soltou e aproveitou o momento para fazer o pedido. — Olívia, a senhora me dá permissão para procurar o meu pai biológico? Olívia riu. — Não só dou permissão como saio com você para procurar por ele. Era tudo o que Sabryna queria ouvir. — Isso seria maravilhoso. — A propósito, aquela proposta ainda está de pé? Sabryna olhou para trás da sua mãe biológica. — Já teremos a resposta, mas aposto que sim. Quando Olívia olhou para trás, viu Sarah bastante contente a caminhar na sua direção, o seu motorista a acompanhava, também, o seu marido Terázio. — Oi, mãe biológica — saudou Sarah. Olívia recuou um pouco, tinha medo de ser "hipnotizada" novamente por ela. — Não tenha medo, eu não vou te hipnotizar — garantiu a garota. — Alguém me explica o que está acontecendo aqui? — Olívia vai aceitar a proposta — respondeu Sabryna. — Depois de tanto tempo? — Sarah fez um silêncio desconfortável, depois sorriu. — Que maravilha. Você será muito bem-vinda. Começará a trabalhar amanhã mesmo. — Muito bom — disse Sabryna. — O que veio fazer aqui, Sarah? — Eu vim apresentar o meu marido para vocês, achei que devia. Ele está ficando pálido, não sai de casa há meses. Eu pensava em levá-lo à praia. — Pode apresentá-lo em outra hora? — Ué? Por quê? — Nós vamos procurar pelo meu pai biológico: agora. — Agora? — Olívia e Sarah perguntaram simultaneamente. — O quanto antes, melhor (Nouz zati, naruel) — comentou Aurira. — O que, gente? — questionou Olívia. — Que língua é essa? — ela não entendia dorbiano porque não era feiticeira, nem estava exposta à magia o suficiente para ter um reflexo dela. — Sabryna, você não me disse o que está acontecendo nesta casa. — Depois eu explico — falou Sabryna. — Vamos embora. Antes de partirem, Sabryna se despediu da sua mãe e pediu que ela a abençoasse. Fátima nunca lhe negou nada, nem mesmo negaria naquela circunstância, sempre teve uma boa filha. Dentro do carro, Sarah olhava incessantemente para Olívia que ficou constrangida com o comportamento da garota. — O que é? Vai me hipnotizar de novo? — Poderia, mas não — Sarah sorriu para Olívia sem mostrar os dentes. — Para com isso, Sarah — pediu Sabryna docemente, estava no meio entres as duas. — Tudo bem. Tenho até medo quando você diz "para". Da última vez fui bloqueada. — Vocês me deixam muito confusa — falou Olívia. — Tem certeza que este foi o lugar que você o viu pela última vez? — perguntou Sabryna. — Sim, tenho — afirmou Olívia Ficaram a passear de carro pelo bairro a procura do homem até que Sabryna pediu para sair. Então desceram do carro e andaram a pé. Sarah não precisava ir, mas insistiu em acompanhá-las e levou o seu bastão diminuto consigo. — Olívia — disse Sabryna enquanto caminhavam —, você ainda não me disse o nome dele. — Érico. — Que nome bonito. Ela focou naquele nome e desejou que se encontrassem pelo caminho, como ensinou Aurira, a força do d****o era muito poderosa. Nessa hora, Sarah chegou bem perto do ouvido de Sabryna e sussurrou: — Por uma fração de segundo eu senti a sua intensidade mágica. Está desejando se encontra com o Érico, não é? — Sim. — Você vai me ensinar isto, Sabryna. Todo feiticeiro está sujeito ao Destino assim como o Destino está sujeito a todo feiticeiro. Saber usar isto é raro, você, que não entende praticamente nada de magia consegue chegar a um nível absurdo de uso de poder. Você precisa me ensinar. — Eu não sei ensinar. Só estou fazendo o que Aurira me mandou. Pergunta para ela. — O que Aurira te ensinou, todas nós sabemos. Você está customizando a magia e é isto que quero que me ensine, o seu modo de executar. Se os Vinte e Quatro Anciões souberem disto vão ficar nervosos. Eles odeiam os Allogajs e tem como prisioneiros os únicos que existem em Dorbis. Se souberem que mais uma surgiu na Terra de novo, vão surtar em dobro. Eu preciso estar lá para ver isto. — Quem são os Vinte e Quatro Anciões? — Os Senhores de Dorbis, não te falaram sobre eles? — Não, só ouvi mencionarem algumas vezes. — Os Vinte e Quatro Anciões, junto aos Sacerdotes dos Trealtas e à Ordem dos Magos são responsáveis por manterem a Organização Mundial da Magia do Universo, em Noldá. E é assim mesmo que se chamam, Organização Mundial da Magia do Universo. Você tem conhecimento sobre os graus de Magia, não tem? — Sim. — Sabe o limite? — Vinte e um, é o último grau. — Sim. Contudo, há como passar deste grau, geralmente, quem passa são feiticeiros, ou feiticeiras, bem velhinhos, bem antigos na teoria e, na prática da magia. Eles passam por uma metamorfose e se transformam num humanoide de matéria translúcida e palpável de cor azulada. — Espera — Sabryna parou no meio da rua movimentada e encarou a loira —, você descreveu uma pessoa do meu sonho. Eu nem conhecia vocês. — Sabryna, você tem o dom da projeção astral. Você não sonhou, você se autoprojetou. Por que não contou este sonho? Há um tempão que esperava o seu dom se manifestar. — Eu não sabia que era tão importante. Agora que parei para analisar, nesse sonho eu vi os nomes dos dois Allogajs antes de saber quem eram, ou que existiam. — Pelos Trealtas, Sabryna, conte-me agora como foi esse sonho. — O que vocês estão fazendo aí? — gritou Olívia. — Acabei de encontrar o Érico. Imediatamente, Sabryna se virou para Olívia e a mulher apontou para um homem na calçada. Estava distante delas, jogado no chão com um litro de cachaça na mão. As pessoas olhavam para ele, tratavam-no como um p***e coitado e desprezível. — Aquele ali é o meu pai biológico? — perguntou Sabryna. — Sim, aquele moribundo. Eu falei que não valia a pena, mas você insistiu. Sabryna sorriu, ainda que um sorriso efêmero, e mostrou os dentes que praticamente ninguém via, então se apressou para encontrá-lo. — Ela sorriu? — indagou Olívia atônita. — Parece que sim — falou Sarah. — Que menina estranha, viu!? Elas teriam que deixar a sua conversa para depois, para Sabryna, aquilo era muito mais importante.
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