Dentro da ambulância, a garota esperava que o paramédico terminasse de aferir a sua pressão para que ela entrasse logo dentro de casa, os vizinhos foram observar o que acontecia e ela não queria ser motivo de fofocas. A sua mãe aguardava do lado de fora, segurava uma xícara de chocolate quente que a vizinha concedeu.
— E então, minha jovem — disse o paramédico depois de um suspiro —, a sua pressão está ótima, você não está doente, não tem alergias, a sua saúde é como a de um touro. Mas a sua mãe me contou que você não se alimenta direito, presumo que o seu desmaio foi devido à má alimentação — imediatamente, Dona Fátima entrega à filha a xícara de chocolate quente e Sabryna bebeu. — Fora isto, você está bem, pode ir para casa e se alimente direito, você não é imortal.
Sem dizer uma palavra a ele, Sabryna desceu da ambulância e foi às pressas até a sua residência. Lá dentro se sentou no sofá e a sua mãe sentou-se ao seu lado.
— Minha filha, eu avisei para você não ficar sem comer, que isso fazia m*l à saúde, olha aí o que aconteceu.
— Tudo bem, mãe, eu já entendi — a voz de Sabryna saía quase como um sussurro, sentia-se estranha pelo que aconteceu, desviou os olhos da xícara e olhou para Dona Fátima. — Não precisava ter ido chamar uma ambulância — ela disse isso porque provavelmente a sua mãe pediu ajuda a algum vizinho, e ela detestava ter que socializar depois, devido à sua timidez era bastante julgada.
— Como não? Você ficou desmaiada por um tempão, eu não sabia o que fazer — elas ficaram em silêncio por alguns segundos até Dona Fátima suspirar de alívio, em seguida, a própria soltou um sorrisinho involuntariamente.
— O que foi? — perguntou Sabryna.
— Sabe, minha filha, por um momento eu pensei que você estava grávida.
Sabryna engasgou com a própria saliva e com os olhos bem abertos fitou a sua mãe.
— Mãe? É sério?
— Não me olhe assim, você sabe que eu quero um netinho, e que também você se case logo com um homem de verdade.
— Mãe, eu não quero um homem e menos ainda ter filhos.
— Toda mulher quer ter filhos.
— Então não sou mulher.
— Ora! Não fale besteiras — Dona Fátima levantou-se do sofá e cortou um pedaço de bolo para a sua filha.
— Obrigada! — agradeceu Sabryna a pegar o prato.
— Viu o seu pai hoje?
— Hum, hum! — negou Sabryna com a cabeça.
— Crápula. Eu quero saber o que ele tanto faz dentro de casa.
— Deixa isso para lá, mãe, eu não ligo.
— Pois, devia. Em pleno aniversário da própria filha e o bendito não apareceu nem para dar um abraço?
Sabryna queria dizer que não se importava porque ele não era o pai dela de verdade, mas sabia que a sua mãe ficaria triste porque ela também não era a sua mãe biológica, de qualquer maneira, Sabryna se referiria ao modo como ele a tratou desde que se divorciou, desde que saiu de casa, desde que abandonou a família e nem teve a decência de se mudar para longe, ele tratava-a como uma conhecida, no máximo, amiga, não como filha. Não se viam todos os dias porque ele não saía de dentro da casa luxuosa da sua esposa para nada.
De uma coisa Sabryna era muito grata, Seu Alceu conseguiu um emprego para ela, em meio a tantas pessoas brancas, ela era a única n***a que trabalhava como caixa naquele supermercado. Parecia que a dona ainda não sabia quem era ela, da última vez que Sabryna viu o seu pai, a conversa que tiveram não foi muito agradável. Ela entendeu que ele escondia da atual esposa que tinha uma ex-esposa e uma filha adotiva. Podia ter sido paranoia da sua parte, mas ela preferia continuar com essa ideia, justificava muita coisa.
Que deprimente.
¶
Após ter se alimentado bem, Sabryna foi para o seu quarto que era um pouco grande e repleto de livros, a sua cama de casal foi a única coisa que o seu pai havia dado-lhe, as demais coisas fora a sua mãe quem comprou com o dinheiro da sua mão-de-obra. A jovem lia Dom Casmurro tranquilamente quando Dona Fátima invadiu o quarto a segurar um pequeno cartão de papel cor de rosa.
— Você vai — afirmou a mulher.
Sabryna arfou e fechou o livro para conversar sobre aquilo.
— Eu vou — respondeu a garota bem rápido, porém, sem ânimo algum.
— Não, minha filha, eu insisto em dizer que... — Dona Fátima interrompeu-se quando ouviu a filha dizer que ia para a festa de Karen, se aproximou com cerimônia e sentou-se na cama. — Você disse que vai? Que milagre — ela jogou as mãos para o alto. — Obrigada, Deus.
— Só vou porque disse que ia, não gosto de mentir.
— Que bom, minha filha, finalmente você tem uma amiga.
— Karen não é minha amiga, mãe.
— E por que ela te convidou para uma festa particular?
— Porque ela é psicótica.
— Isso não faz sentido, Sabryna.
— Mãe, a Karen é uma garota fútil e mimada que estudou na mesma classe que eu durante o ensino médio. Eu sempre a observei, era a única que falava comigo e sei o quão obcecada ela é.
— Obcecada pelo quê?
— Pelo padrão, pela organização, pela perfeição. Ou por tudo. Sei lá.
— E o que tem de errado nisso?
— Ela não me convidou porque quer ser minha amiga, ela me convidou porque eu era da classe dela e ela quer que todos estejam nesta festa, um a menos seria motivo de alarde, um a mais seria o cúmulo do absurdo. Se não for como ela quer, ela vai fazer um barulho tão irritante que ninguém vai suportar.
— Nossa! Você sabe tanto sobre esta garota, acho que vocês deveriam ser amigas.
— Meu Deus, mãe — Sabryna falava como se estivesse com sono. — Não ouviu nada do que eu disse?
— Ouvi, é que eu estou enxergando o que você não está — Dona Fátima ficou de pé. — A festa é amanhã, escolha uma roupa bem bonita.
"O que deu nesta mulher?", pensou Sabryna.
Aquele dia parecia ser igual a todos os outros, mas alguma coisa estava diferente e Sabryna precisava entender o que era. Ao se jogar na cama abraçada com o seu livro, ela ficou pensativa sobre aquele sonho que teve quando desmaiou. Nunca na sua vida teve um sonho semelhante e pareceu tão real para ela, tudo o que viu, o que sentiu, o que pensou. Aquilo aconteceu de verdade, mas não sabia explicar como.
E foi dormir às onze horas da noite depois de ter lido os últimos capítulos de Dom Casmurro.
¶
Sabryna se encontrava numa extensa sala cilíndrica feita de pedras e era iluminada por globos flutuantes de luz incandescente como lâmpadas, estava de frente para um armário com porta de vidro e dentro desse armário existiam várias esferas pequenas e translúcidas de vidro maciço com vários tons diferentes. Cada esfera estava num pequeno suporte cuja base tinha umas inscrições quais Sabryna não se recorda de ter visto antes, contudo, curiosamente, ela conseguia entender, eram nomes próprios. Gostava muito de ler, então leu cada um deles e todos aqueles nomes eram tão incomuns, tinha a certeza de que não estava no Brasil.
O último nome naquele armário chamou-lhe bastante atenção, além de a esfera ser a única de cor preta, e dizia:
Allogaj Valéria - vulgo Audaxy
Valéria, com certeza, era um nome muito comum no Brasil. Aquilo tudo era muito curioso e intrigante.
Segundos depois, Sabryna foi pega de surpresa ao se virar para o seu lado esquerdo, duas pessoas vestidas como guardas medievais arrastavam pelos braços um jovem n***o muito bonito, não era tão retinto como ela, a sua pele era mais clara, ele tinha lábios carnudos e vermelhos, um sinal perto do olho direito e os seus olhos eram das cores de um girassol.
Os guardas colocaram-no dentro de outro armário no canto da parede bem maior do que o que estava perto dela, na outra extremidade de onde ela estava. O armário era cilíndrico e também tinha uma porta de vidro. Parecia uma espécie de banheiro futurista e rústico, ou até mesmo um teleportador. Foi aí que Sabryna percebeu que ela própria não tocava o chão, ela flutuava naquele ambiente e todo o seu corpo tinha um aspecto azulado e transparente.
Um terceiro homem aproximou-se do armário cilíndrico com porta de vidro e carregava um bastão de madeira com um cristal oval segurado na ponta superior. Ele encaixou o bastão num côncavo centralizado na base do "teleportador" e disse:
"Spegulo Mondo", a sua voz soou duplicada.
Do nada, um monte de cacos de espelhos surgiram debaixo dos pés do garoto que continuou sério, firme e orgulhoso. Os cacos de espelhos ploriferaram-se e tomaram todo o espaço cilíndrico por dentro, depois subtraíram-se e tudo sumiu, inclusive o garoto. Por fim, ao lado direito do armário uma pequena esfera de vidro maciço como bola de gude rolou para fora de um cano prateado, era a única de cor branca e reluzia.
O homem que usou o bastão pegou a esfera e a admirou, depois andou para a direção de Sabryna e ela saiu do caminho, ele abriu a porta do armário, colocou a esfera num suporte vago, apontou o seu bastão que brilhou e disse:
"Allogaj Cesar - vulgo Rasec." Outro nome comum no Brasil.
A medida que falava, na base do suporte da pequena esfera o nome era escrito. Sabryna a tudo prestava atenção e nada dizia, apesar da sua grande curiosidade.
Por fim, um homem da terceira idade entrou no recinto, entretanto, ele também flutuava como Sabryna, e também era translúcido e azulado como ela, a diferença era que ele era palpável e visível, e conversava com os guardas.
"Está feito?", perguntou o velho que parecia ser o dono daquele lugar.
"Sim, meu Senhor", respondeu o que usou o bastão. "Mas o senhor não disse por quanto tempo este Allogaj ficará preso na Prisão Dimensional."
"Ele ficará por tempo indeterminado, estes Allogajs são consequências do desequilíbrio no Cosmos, precisam ser detidos antes que…", o velho parou de falar de repente. Ele ficou estatelado como se estivesse a sentir alguma coisa.
"Ancião, há alguma coisa errada?", perguntou o guardo com o bastão.
"Você não está sentindo? Tem mais alguém aqui."
Sabryna ficou apreensiva sobre o que ele disse, ela sabia que era com ela, até então ninguém tinha a visto.
O Ancião fechou os olhos, concentra-se e em seguida os abriu, agora estavam vazios, apenas lhe sobraram as escleras azuladas dentro das pálpebras. Ele se voltou para ela com uma expressão de ira e gritou:
"Como você entrou aqui?"
Sabryna se assustou e recuou o máximo que pôde até atravessar a parede.
¶
Agora, estava deitada na cama e com os olhos bem abertos, ela ofegava. O sol já raiou, mas ela percebeu somente por causa dos raios solares que atravessaram as arestas da janela fechada do seu quarto.
— Meu Deus, o que são esses sonhos? — indagou Sabryna consigo própria.
¶
Era dia oito de julho, às oito horas da manhã. Sabryna havia acordado bem cedo e não conseguiu mais dormir. Ela dormia até tarde dia de domingo, mas os seus recentes "sonhos" passaram a deixá-la perturbada. Como não conseguiu mais dormir, foi tomar um café na cozinha.
Normalmente ela leria depois da refeição, mas estava ansiosa então pegou um dos seus livros preferidos, O Senhor dos Anéis, e começou a folhear.
Sabryna se distraía a rodar a colher na xícara com café enquanto lia, com a outra mão segurava o livro perto do rosto, pois, cansou de ficar com a cabeça baixa. Daí, largou a colher, passou uma folha do livro e voltou a mão para a xícara, porém, por um descuido, esbarrou-se nela e a derrubou.
Estendeu a mão rapidamente para pegá-la, mas parecia tarde demais. Apenas pareceu, porque a xícara, milagrosamente, voltou para a sua mão antes de tocar o chão, além de todo o café voltar para dentro da xícara, inclusive a colher.
Sabryna arregalou os olhos, nem acreditou que aquilo aconteceu mesmo. Tudo foi tão rápido que nem deu tempo de entender. A garota pensou que delirava. Tentou normalizar aquilo mesmo nunca ter ocorrido nada parecido em toda a sua vida.
Não esperou mais um segundo, desconfiada, fechou o livro e levantou-se para voltar para o seu quarto, mas antes pensou em pegar um pote de vidro que estava em cima do armário da cozinha, continha vários biscoitos, estavam velhos, mas era o que tinham no momento, no entanto, deixou para outra hora.
Ela nunca entendeu por que não ganhava o mesmo salário que as outras caixas do supermercado, ganhava tão pouco, mas sabia se manter e jamais ousou protestar sobre aquilo, era muito p***e, mas estava acostumada com a vida.
Quando ela passou pelo armário da cozinha, o pote de vidro caiu e espatifou-se no chão a espalhar vidros e biscoitos quebrados. Sabryna assustou-se e pôs uma mão sobre a boca. E agora ficou deveras assustada.
Nesse momento, Dona Fátima sai do seu quarto para checar o que aconteceu.
— O que foi isso... — a mãe da garota deparou-se com a situação, o vidro quebrado no chão e o estado da sua filha. — Oh! Sabryna, deixa isso aí que eu arrumo.
— Mãe... — Sabryna queria explicar o que houve, na verdade, nem ela própria sabia como explicar.
— Tudo bem, Sabryna, só foi um vaso de biscoitos. Já estavam velhos mesmo.
— Mas não fui eu quem quebrou, ele caiu sozinho — Sabryna se odiou por dizer aquilo, mas ela era assim, não gostava de mentiras.
Dona Fátima olhou para onde o pote de vidro estava, depois encarou a sua filha.
— Este pote estava ali há um bom tempo, Sabryna, por que cairia do nada agora? — Dona Fátima não queria dizer que a sua filha havia mentido, e não disse, mas foi o que deu a entender.
A mãe da garota imaginou que ela tentou pegar o pote com uma mão, já que a outra estava ocupada a carregar o livro, desequilibrou-se e o derrubou.
A garota apenas negou com a cabeça e foi para o seu quarto. Talvez a sua mãe quisesse mesmo ouvir o que ela tinha a dizer depois da pergunta, porém, ela não era daquele jeito, de se justificar, de explicar as coisas em momentos embaraçosos, de contar uma história, então ficou por isso mesmo.
Dentro do quarto, ficou pensativa e um pouco assombrada. Mas o que estava acontecendo? Tudo começou no dia do seu aniversário de vinte anos. Será que era tudo obra do acaso?
Por muito pensar, Sabryna chegou à rápida conclusão de que conseguia mover as coisas com o poder da mente, então, posicionou um livro a um metro de distância dela e estendeu a mão, concentrou-se e tentou mover o livro por telecinesia.
Após tentar bastante, deitou-se na cama e olhou para o teto.
— Eu preciso parar de me aprofundar tanto nesses livros — disse ela.