Começo a tirar a bota e em seguida a camisa, depois a calça jeans. Confesso que ficar apenas de lingerie na frente dele foi mais vergonhoso do que eu imaginei, principalmente com ele me olhando. E o Rafael, se é que vocês não perceberam não é um gay comum, do tipo que demonstra que é gay mesmo, ele se diverte te confundindo, te provocando... E assim ele faz, fica me olhando daquele jeito safado que faz com que eu me pergunte cem vezes se ele é realmente gay. Para depois mudar de assunto rapidamente.
- Bela Lingerie.
Olho para baixo e vejo minha lingerie preta, levemente simples apesar de ficar bem no meu corpo. Olho para ele devolvendo o mesmo sorriso.
- Quer emprestado? - Pergunto. - Se quiser é só falar, não sou tão apegada com as minhas coisas.
- Você ta falando da Lingerie ou...
Ele pediu por um tapa e recebeu. Mas o desgraçado apenas ria.
- A gente vai entrar ou... - Mas ele já tinha me jogado dentro da cachoeira, antes mesmo de terminar a frase.
A água parecia quentinha na mão, mas quando entrou em contato com minha pele aquecida pelas roupas, tornou-se gelada e eu gritei, tanto de susto, quanto de frio, graças ao choque térmico que meu corpo sofreu.
- Seu louco! - Comecei a jogar água na cara e sem querer comecei uma guerra.
Ele jogava água em mim tão forte que minha pele queimava, e pude perceber com orgulho que a dele também queimava ante ao meu ataque, já que era notável as manchinhas levemente avermelhadas que apareciam em sua pele. De repente ele mergulhou e eu não o encontrei. Virei-me e vi apenas a água corrente, com algumas bolhinhas por conta da queda d'agua próxima a nós.
- Rafael. - Chamei começando a me assustar. E se acontecer alguma coisa com ele aqui meu Deus? Eu não sei nem mesmo como voltar pelo caminho que viemos.
Mas então ele me dá um susto puxando meu pé em baixo d'agua e eu quase morro do coração achando que era uma cobra, as lágrimas apossaram-se dos meus olhos no mesmo instante, assim como um grito alto e estridente ecoa da minha garganta involuntariamente.
Ao ver minha cara ele vem até mim e me abraça.
- Me perdoa Lara, eu esqueci. Por favor me perdoa. - Eu assenti com a cabeça e ele segurou o rosto entre as mãos. - Não queria te assustar assim, você sabe disso não é? Foi uma brincadeira de péssimo gosto.
Puxo o ar fortemente e tento respirar fundo várias vezes, esperando a razão e o controle voltar a mim.
Quando eu consigo, eu tento sorrir. Afinal de contas eu sei que foi apenas uma brincadeira normal, que todo mundo faz e que minha crise é apenas uma infantilidade que eu tenho que aprender a controlar.
Empurro-o com força e ele caí dentro d'água.
- Da próxima vez que me assustar assim, eu te afogo.
O sorriso volta ao seu rosto e segura minhas pernas e me derruba na água junto com ele. Nada comigo até uma pedra grande que fica bem próximo a queda d'água, tanto que alguns respingos de água tocam minha face o tempo inteiro.
- Você é incrível sabia? - Ele alisa meu rosto, e meus olhos teimam em querer fechar e aproveitar a sua caricia, mas eu não posso ceder tento manter minha respiração normal e meu coração em um ritmo cardíaco estável, mas essa tarefa é muito complica para mim ainda.
- Tem certeza? Você quer dizer incrivelmente medrosa não é?
Ele balança a cabeça negativamente.
- Incrivelmente corajosa. Teve medo de andar de helicóptero porque tem medo de altura e ainda assim, enfrentou seu medo e andou. Teve medo de andar de cavalo e ainda assim o enfrentou também com coragem o suficiente para conseguir aproveitar a experiência. Morre de medo de cobra, e olha pra você, está aqui na cachoeira comigo onde por menor que seja as chances possa haver uma. E quando eu sou i****a o bastante para te fazer achar que há uma, mesmo sem querer te assustar a esse ponto, você respira fundo e recupera o bom humor. Sabe Lara, às vezes eu me pergunto se você existe mesmo.
Não dá tempo nem de recuperar meu raciocínio, por que ele sua cabeça vem lentamente em direção a minha, seu hálito bem perto do meu, e sua respiração se fundindo a minha.
- Não tem nenhum paparazzi aqui, a gente não precisa... - Tento dizer ainda que com a voz entrecortada.
Ele sorri.
- Tem certeza? Para mim pode muito bem ter algum escondido em uma arvore, ou minha irmã atrás de alguma pedra. É melhor nos precavermos.
E então seus lábios tocam os meus, macios e doces. E eu não demonstro qualquer resistência a entreabrir os lábios e lhe dar passagem para se apossar de minha boca. Não controlo e nem sequer tento controlar minhas mãos que vão para a sua nuca e para o seu cabelo molhado. Assim como as suas vão diretamente para o meu. Ele não é suave em seu aperto e eu não me incomodo nem um pouco por isso, apenas saboreio a sensação de sua boca na minha e suas mãos em mim. Nunca provei um beijo tão bom. Nunca experimentei sensação melhor do que a que sinto quando ele me toma em seus braços. Minha mente perde qualquer capacidade de raciocínio e meu coração comemora achando que é um baterista de banda de rock.
Sinto seu batimento acelerado também e ao passar minhas mãos - que de repente criaram vida própria - por seus braços rígidos, percebo que assim como eu ele está arrepiado e entregue as reações de nossos corpos. Nunca me senti mais adorada, do que agora.
O ar nos falta e precisamos nos separar. Seus olhos se abrem e estão marejados. Ao olhar diretamente para os meus ele encontra-se confuso e pela primeira vez desde que o conheci ele encontra-se sem palavras. Mas em que eu posso culpá-lo? Duvido que consiga formar uma silaba sequer.
Suas mãos voltam ao meu rosto e ele continua a acariciá-lo, como um cego querendo decorar cada traço. Seu olhar continua o mesmo e sua boca inchada e vermelha, se comprime. Em momento algum ele deixa escapar as lagrimas presentes em seus olhos e eu luto arduamente para fazer o mesmo. Estou assustada, mas não consigo definir o porquê.
- Você é incrível Lara, não vou me cansar te dizer isso nunca. Você merece coisa muito melhor do que ficar presa a alguém como eu.
- Você... - Não concluo o pensamento.
Nem falo nem penso. Bloqueio o que quer que eu fosse pensar ou dizer por que a única coisa que eu sei é que prejudicaria esse momento. Abaixo a cabeça incapaz de conseguir continuar fitando seu olhar profundo, aquele mar de confusão que reflete exatamente o que eu estou sentindo. Confusão. Uma palavra fielmente descritiva.
Ele me abraça, e eu retribuo. Ficamos assim por alguns momentos até que ele olha para o céu e fala que está perto de escurecer. A água em que estávamos começava a gelar e meu corpo começava a tremer, apesar de seu corpo emanar um calor delicioso. Concordo com ele e saímos do rio. Vestimos nossas roupas calados e seguimos a trilha da mesma forma. Quando ele vai me ajudar a subir no cavalo que toca em mim, ele para, com as mãos ainda em minha cintura.
- Me perdoa?
Me assusto e se já estava confusa, fiquei ainda mais.
- Por quê?
- Por ter me aproveitado da situação em que estamos.
Virei para ele entendendo ainda menos.
- Você se aproveitando? - Balanço a cabeça negativamente. - Não tem o que perdoar Rafa.
Ele ergue a sobrancelha sorrindo. Primeira vez que sorri desde o episodio do beijo.
- Rafa?
- Já está ficando estranho ficar te chamando de Rafael. Mas se preferir, eu te chamo de Rafinha.
Ele ri, jogando aquela cabeça linda pra trás.
- Você pode me chamar do que você quiser Lara. Sempre que quiser.
Então ele me monta no cavalo e monta no seu sem a menor dificuldade.
Começamos a cavalgar e olho para o horizonte, o sol estava se pondo de uma forma tão linda... Nunca havia visto um por do sol assim, com total atenção. É tão... Perfeito.
- Eu amo o por de sol. É uma forma linda de pensar no fim, no fim de algo. Como um sol se pondo e encerrando um dia. Se aplicando na vida, encerrando alguma fase... - Ele pausa e fita o horizonte, em seguida olha para mim. - Sabe, eu sinto como se eu estivesse encerrando uma fase nesse momento, e nem mesmo sei qual é.
- Vai parecer estranho se eu disser que sinto a mesma coisa?
Ele n**a com a cabeça. Depois de alguns minutos de caminhada nós avistamos a casa. Há um carro parado lá e ao notar Rafael para o cavalo na hora. Com um olhar distante no rosto.
- O que foi Rafa?
Ele contrai os lábios e parece estar chateado com a alguma coisa. Olha para mim e me parece tentar encontrar as palavras. Então suspira.
- Olha, o Samuel... Ele não sabe sobre mim. Vai parecer que sabe, mas não sabe ok? - Assinto sem entender.
- Ele desconfia?
- Desde criança vive falando isso. Ele não é uma pessoa muito legal, apesar de meus pais insistirem em não perceber. É um primo e querendo ou não ele é da família, só esperava que não estivesse aqui hoje.
- Fica tranquilo, sou uma boa atriz não sou?
Ele sorri, mas não parece um de seus sorrisos genuínos. Apesar de eu não conseguir interpretar.
- Às vezes eu me pergunto o quão boa atriz você consegue ser.
Pela sua cara, pareceu que ele estava falando mais consigo mesmo do que comigo, assim como diversas vezes, eu preferi ficar calada. Seu olhar estava distante, e eu tive certeza que não estava neste mundo.