Coloco uma calça alfaiataria de cintura alta e uma blusa branca de mangas compridas. Um misto de ansiedade e medo e esperança domina meu corpo enquanto preencho as mãos, pulsos, pescoço, cintura e orelhas com acessórios. Calço um chinelo de dedo e amarro os meus cabelos num r**o de cavalo. No espelho, faço uma maquiagem leve, apenas para não sair de casa de cara lavada. Vou utilizando a necessidade de atenção e precisão dos pincéis no meu rosto e ordem de cosméticos para controlar a respiração e tentar-me manter positiva.
Não Acordei tarde graças a ter chegado em casa de madrugada. Voltei com Rafael, e ele preferiu dormir por aqui e ainda deve estar dormindo.
Saio do quarto procurando o carregador do celular na minha bolsa, porém ao chegar à cozinha, percebo que errei no meu palpite, pois o encontro apenas de shorts curtos demais para o meu cérebro recém-desperto, fazendo o café da manhã.
— Bom dia! — Nossa que cheiro bom. Achei que dormiria até mais tarde. — Comento sentando-me na bancada.
— Acordei com fome, pensei em ir fazer algum exercício, mas preciso falar com o administrador do edifício para reservar um horário apenas para mim. Já imaginou se alguma fã me visse na academia?
Eu ri. — Seria um caos.
Evito olhar para ele, ver um cara (bonito e malhado) sem camisa no seu apartamento logo pela manhã, quando seu cérebro ainda não se recuperou da noite anterior, não é uma boa ideia.
— Mudando de assunto, você sempre acorda linda assim, ou ta indo para algum lugar?
— Você é sempre galanteador assim, ou é só comigo?
Ele ri. — Perguntei primeiro.
— Estou indo ver a Poly, ela vai ser transferida hoje de manhã para um hospital particular.
— Nossa que legal! Se ela é tão incrível como você diz, gostaria de conhecê-la em breve.
— Ela é mais que incrível, ela é... A Poly. — Só de pensar na pessoa linda que a minha amiga é, meu peito já se aquece e um sorriso surge sem aviso.
— Bom, eu não vou deixar você ir sem tomar café da manhã, então senta aí. Fiz panquecas.
Olho desconfiada.
— Ainda não confio na sua palavra para acreditar que sabe cozinhar.
— Então não coma. — Ele pisca para mim e um riso leve escapa-me — Eu adoro cozinhar, e raramente faço isso, já que estou sempre em hotéis. Mas sempre que estou em casa, faço questão de cozinhar.
O cheiro está delicioso, não sei se é dele ou da comida, mas meu estômago deu sinal ao sentir.
— Talvez eu prove, mas não vou admitir nem sobre pena de morte que o cheiro está maravilhoso.
Sua risada ecoa no apartamento, não consigo evitar o riso de evacuar pela minha garganta, em resposta a sua gargalhada espontânea me pegando de surpresa.
— Prometo não te obrigar a admitir.
Faço o seu gosto e provo as panquecas. Não acredito que ele estava certo. Nunca havia provado das famosas panquecas doces, e arrependo-me imediatamente de nunca o haver feito. Essas estão simplesmente divinas. Ele coloca um suco de laranja, geladinho e após experimentar constato que está com o nível de açúcar perfeito, não muito doce, permitindo-me sentir o sabor delicioso da fruta. Ele encara-me esperando a minha reação com um sorriso.
— Não foi você que fez isso. — Sentencio, com as minhas papilas gustativas ainda gritando de satisfação.
— Claro que foi.
— Não foi, não. Primeiro, está gostoso demais para ter passado por mãos masculinas. Segundo, não tem bagunça nenhuma nessa cozinha. Minha conclusão: você pediu essa comida, e jogou as embalagens fora e agora para me deixar admirada, está dizendo que foi você que fez.
Ele ri de um jeito um pouquinho diferente de segundos atrás.
— Ah, Lara. Você não faz ideia do que essas mãos masculinas são capazes de fazer.
Ignoro o arrepio que sua voz grave me causou, e principalmente por ter pronunciando uma frase como essa, aguçando minha imaginação, já fértil.
— Não tente me provocar e me confundir Rafael. Eu sei que você é gay.
Ele sorri largamente e seus olhos tornam-se de um azul profundo, a mudança de seu olhar faz com que o meu corpo tencione-se. Ele se aproxima de mim, perto demais para o bem da minha sanidade, e só volta a falar quando o seu rosto estava bem próximo ao meu.
— Tem certeza disso Lara?
Foi difícil raciocinar. Na verdade, foi praticamente impossível. O seu hálito de menta e o cheiro delicioso levemente adocicado da sua loção pós-barba fez com que todos os meus sentidos se perdessem em meio a luxúria, e o meu raciocínio se inebriasse. Minhas mãos formigavam de vontade de tocar seu rosto recém-barbeado e, por um segundo, achei que não conseguiria controlá-las, então ele muda de assunto abruptamente, voltando a se defender da minha acusação culinária.
— Eu não gosto de bagunça. Limpo tudo na mesma hora que cozinho; por isso, está tudo arrumado, mas se olhar o lava-louças vai ver todos os utensílios que utilizei.
O que? Essa mudança ríspida de assunto faz a minha cabeça girar. Mastigo mais um pouco da maravilhosa panqueca e tomo todo o suco que ainda restava no copo. Um gemido leve escapa os meus lábios, e ao olhar o relógio em meu pulso, percebo que já estou atrasada para o horário de visitas. Que a nossa senhora do trânsito me ajude.
— Então já que você quem fez, estava horrível, tente melhorar da próxima vez. — Pego a minha bolsa em cima do balcão e levanto-me. — Agora eu estou indo, estou super atrasada.
— Não vai nem me dar um beijinho de despedida? — Seu muchacho apertou meu peito e parte de mim só quis aproveitar, tirar uma casquinha como a filha de seu empresário sugeriu, mas ainda não me recuperei de sua última brincadeirinha, logo, o meu tom sai mais ríspido do que eu gostaria.
— Não há nenhuma câmara aqui dentro, e ninguém além de nós dois, o fingimento fica para outra hora.
Poderia apostar que vi um fio de decepção nos seus olhos, mas presumo ser fruto da imaginação que se encontra perturbada após um início de manhã tão conturbado e estimulante.
Jogo um beijo no ar e saio do apartamento.
***
Na recepção do hospital eu assinei todos os documentos que precisou para a remoção da Poly daquele lugar. A Ciara ainda não entendia como eu teria conseguido um empréstimo tão alto, ainda conversava com ela, tentando desconversar quando uma garota se aproximou de mim. Devia ter a faixa de dezessete anos, mais ou menos. Senti o meu corpo tencionar em antecipação.
— É você? Parece muito com você.
A olho confusa e ao olhar de relance para Ciara ela está com o mesmo olhar que o meu.
— A namorada de Rafael Nero. É você não é?
A compreensão invade-me, minha intuição grita um "te avisei" e ofereço-lhe um sorriso nervoso.
— É... Hum... Sou eu sim. — Digo por fim, sem conseguir encontrar direito as palavras.
E depois daí acontecem duas situações: a primeira é a menina dando um gritinho agudo fazendo com que nós duas tapemos os ouvidos instantaneamente, mas temo que os meus tímpanos tenham tido um dano grave, e outra é o olhar perplexo da Ciara.
— Ai meu Deus, como você conseguiu fisgá-lo? Onde vocês se conheceram? Como ele é? É um fofo né? E o beijo dele? Ai ele deve beijar tão bem!
A voz da garota se torna quase tão aguda quanto o grito dela. Eu começo a entrar em pânico sem saber direito o que responder, mas o Doutor Carter aparece para me socorrer.
— Lara? Com licença querida, eu posso conversar com Lara a sós?
A garota então começa a comer o Doutor com os olhos e sorri saindo de perto sem tirar os olhos dele.
— Quer vir com a gente, Ciara? Vou ao consultório conversar com a Lara.
Ciara n**a com a cabeça e indica a cadeira, entendemos que ela prefere ficar por ali mesmo.
— Namorada de Rafael Nero. — A pergunta direta do Dr. Carter me pega de surpresa — Foi assim que conseguiu o dinheiro?
Meu coração acelera e eu engulo em seco.
— Ele me emprestou.
— Engraçado, conseguir namorar um famoso quando mais precisava...
— O que está insinuando Doutor Carter? — Interrompo-o indignada
— Não estou insinuando nada, estou apenas preocupado com você. — Sua voz suaviza e ele baixa o olhar parecendo envergonhado.
Isso não é o bastante para esfriar o meu sangue.
— Achei que fosse medico, não sabia que era analista também.
— Me perdoe Lara, — ele estende as mãos pra cima em rendição — Eu me excedi, só tenho medo que faça algo que se arrependa para salvar a Poly...
— Não existe nada no mundo que eu pudesse fazer e arrepender se fosse para salvar a Poly. Venderia meu corpo se preciso, mas fique tranquilo Doutor Carter, eu não estou fazendo isso.
Ele respira fundo e coça a cabeça. Então volta seu olhar pra mim.
— Tudo bem, eu já disse que me excedi. Sei que a Poly vale à pena, mas não se esqueça nunca de quem você é.
— E por acaso você sabe quem eu sou, Doutor Carter?
— Eu acho que sim, e espero de coração que eu não esteja enganado.
Sei que não tenho porque, mas pego-me sentindo vergonha. Talvez porque mesmo que eu tenha sido sincera quando disse para o Doutor Carter que não estou vendendo meu corpo, sei que o que estou fazendo, não é de todo honesto, afinal estou mentido para um país inteiro, e isso é errado. Mas não errado o bastante para que eu me arrependa do que eu fiz.
— Precisa que eu assine alguma coisa? — Pergunto.
— Só estes papéis. — Ele me estende e eu os assino. Olho na última folha e vejo o valor inicial do tratamento, arregalo os olhos, e Carter percebe. — Eu tinha te avisado que seria muito caro, mas suponho que seu namorado possa bancar.
— Sim, ele pode. Quando preciso pagar? — Pergunto pegando a minha bolsa.
— Isso não é comigo, você resolve isso no financeiro do HST. Faremos a remoção em alguns minutos.
Assinto e saio da sua sala. Carter estava certo, não demorou muitos minutos e a Poly já estava saindo em uma maca. O rostinho dela cada vez mais pálido, meu coração apertou novamente, vê-la naquela situação era um martírio.
— Lara? Para onde exatamente eu estou indo? — ela olha para mim enquanto pergunta, seus olhos tristes e sua voz fraca partem formam um nó em minha garganta.
— Eu prometi que você não ia morrer e estou cumprindo. Você vai para um hospital melhor.
Ela me olha com confusão, mas não dá tempo de perguntar mais nada, pois um enfermeiro empurra a maca em direção ao estacionamento.
Carter acompanha, assim como eu e a mãe dela.
— Foi com o cantor, não foi? — m*l chegamos na ambulância e a voz de Ciara corta o barulho das rodinhas da maca, de novo explicações são cobradas, mas agora, da mulher que considerei a vida inteira uma segunda mãe, evasão não funcionar — Como conseguiu namorar com ele?