Capítulo 03 : União Forçada

1299 Palavras
Gabriel Não sou homem de rodeios. Quando quero algo, eu tomo. E quando tomo, é pra ser meu. Não por um tempo. Mas pra sempre. O casamento foi rápido. Um papel assinado por um pastor que devia a mim mais do que podia pagar. Duas testemunhas. Nenhuma aliança de ouro, nenhuma música, nenhuma p***a de flor. Era um contrato. Uma sentença. Um pacto selado com o silêncio e o olhar dela queimando de ódio. Melhor assim. Carol chegou na minha casa no fim da tarde, com uma mochila velha jogada no ombro e o rosto travado. Olhar duro, desafiador. As meninas da cozinha a encararam com desdém, cochichando baixinho, achando que eu não ouvia. Ouvi tudo. Deixei. Por enquanto. Minha casa fica no alto do morro. Não porque eu gosto de vista, mas porque ninguém chega aqui sem que eu permita. Muro alto, portão eletrônico, câmeras. Dentro, segurança 24 horas, dois homens armados em cada entrada. Piso de mármore na sala, sofá de couro importado, um luxo que poucos aqui podem ter. Ela entrou como se estivesse pisando em território inimigo. E estava mesmo. — Esse quarto é seu. — indiquei a porta à direita do corredor. — Pode se ajeitar. Ela não respondeu. Só me lançou um olhar de desprezo e entrou. A ousadia dela me provoca. Gosto de mulher com fogo, não de boneca de porcelana. Mas também sei dobrar até as mais bravas. Dei uns minutos e fui atrás. Ela estava parada no meio do quarto, observando o ambiente. Cama king-size, guarda-roupa planejado, banheiro privativo. Ela tocava as coisas com desconfiança. Como se cada objeto tivesse uma armadilha. — Algum problema, princesa? Ela se virou devagar, os olhos faiscando. — Eu não sou sua princesa. Sorri. Não respondi. Me aproximei devagar, com as mãos no bolso da calça jeans, o corpo relaxado, mas o olhar atento. — Vai se acostumar. — Eu só estou aqui por causa do meu irmão. Isso não significa que você manda em mim. Ah, a inocência dela. — Você está debaixo do meu teto. No meu morro. No meu mundo. Tudo aqui é meu, inclusive você. — Me aproximei mais, sem tocá-la. — E quanto antes aceitar isso, melhor vai ser. Ela respirou fundo, os punhos cerrados. Ainda queria lutar. Ainda pensava que podia ter controle. — Eu nunca vou te amar. — ela cuspiu. — Nunca vou ser sua. Inclinei o rosto, com um sorriso cínico. — Amor não é parte do acordo, Carol. Eu não quero o seu coração. Quero sua presença, sua boca calada, e o respeito que se deve ao dono da casa. Ela empalideceu. Mas não recuou. A garota tinha coragem. Mas coragem sozinha não sustenta ninguém aqui dentro. Naquela noite, sentei na varanda com uma cerveja na mão, observando as luzes da Rocinha se acendendo como constelações tortas. Meus homens faziam a ronda, tudo estava em paz. Mas minha cabeça não desligava. Carol. Desde moleque, eu reparava nela. Filha da costureira do morro. Sempre apressada, com os livros no braço, com o tal curso de enfermagem, o cabelo preso num coque bagunçado e aquele ar de quem sonhava fugir daqui. Nunca dava bola pra ninguém. Nunca olhava pra mim, mesmo quando eu já controlava metade da favela. Ela andava como se estivesse acima de tudo isso. E agora… agora ela estava na minha casa. Sob o meu teto. Com meu sobrenome, mesmo que não aceitasse usá-lo. Não era amor, não era obsessão. Era justiça. Era posse. Era a necessidade de mostrar que até as que se acham inalcançáveis, cedo ou tarde, se dobram ao que é inevitável. Ela queria me odiar? Que odiasse. Mas ia dormir na minha cama. Ia viver na minha sombra. *** Os dias seguintes foram um campo de batalha silencioso. Ela evitava a sala quando eu estava, comia rápido na cozinha, falava pouco, dormia tarde e trancava a porta do quarto. Deixei. Dei espaço. A tensão entre nós era como uma corda esticada, prestes a arrebentar. — Ela pensa que tá onde? — ouvi Natália, uma das meninas que me servia há anos, resmungar na cozinha. — Nem cumprimenta, nem agradece. Só anda de nariz empinado. Se acha por quê? — Cala a boca. — disse seco, entrando de surpresa. Ela congelou. — Eu... desculpa, Gabriel... — Da próxima vez que eu ouvir qualquer uma daqui falando da minha mulher, vou trocar o sangue de vocês pela louça da pia. Entendido? — Sim... sim, senhor. As outras meninas não falaram mais nada. Carol era odiada, mas ninguém ia encostar um dedo nela. Não sem minha permissão. Certa noite, voltei mais tarde. Tínhamos pego dois moleques da parte baixa tentando vender droga que não era nossa. Dei o recado pessoalmente. Quebrei o braço de um. Disparei perto do outro. O suficiente pra saberem que aqui, quem manda, sou eu. Quando cheguei em casa, passei pelo corredor e percebi a porta do quarto dela entreaberta. Empurrei devagar. Ela dormia encolhida no canto da cama, usando uma blusa larga e com o rosto virado pro travesseiro. O quarto estava uma bagunça. Ela não tinha desfazido as malas. Não decorava nada. Como se recusasse a tornar o lugar um lar. Me aproximei devagar. Observei os traços dela à meia-luz. Os cílios longos, a pele morena, os lábios entreabertos. Havia uma beleza crua nela. Selvagem. Me ajoelhei ao lado da cama e sussurrei: — Você vai se render, Carol. Não importa quanto tempo demore. Eu tenho paciência. Ela se mexeu, mas não acordou. Me levantei e saí, deixando a porta encostada. Na manhã seguinte, encontrei ela na cozinha, com uma caneca de café nas mãos. Usava uma camisa minha. O cabelo solto, os olhos inchados de sono. Bonita. Frágil. Feroz. — Dormiu bem? — perguntei. — O suficiente. — respondeu, sem me olhar. — Tem uma reunião comigo hoje. Quero que esteja presente. Ela franziu o cenho. — Eu? Por quê? — Porque você é minha esposa. E os caras precisam ver que o que é meu tá sob meu domínio. — Eu não sou troféu pra exibir. Me aproximei, tirei a caneca da mão dela e encostei o corpo no dela. — Não. Você é propriedade. E hoje vai sentar ao meu lado. Vai sorrir se eu mandar. Vai calar se eu quiser. E se alguém olhar demais pra você, eu arranco os olhos. Simples assim. Ela ficou imóvel. Mas eu sentia. O coração dela disparado. Ela podia odiar. Mas o medo já começava a se infiltrar. Na reunião, os olhares curiosos estavam todos sobre ela. Carol manteve o queixo erguido, altiva. Orgulhosa demais pra se curvar. Eu a observava de soslaio. Cada gesto. Cada suspiro contido. Quando um dos caras sorriu demais pra ela, bati a mão na mesa com força. — O foco tá aqui. Quem desviar, sai pela porta com os dentes na mão. O recado foi dado. Quando terminou, ela me seguiu em silêncio até o carro. — Isso é o que você quer da vida? — ela perguntou, finalmente. — Mandar, ameaçar, controlar tudo ao seu redor? — Isso é o que me mantém vivo. — respondi. — E agora também é o que mantém o Rafael respirando. Não esquece disso. Ela se calou. Sabia que era verdade. *** Nessa noite, quando entrei no quarto, ela não trancou a porta. — Vai dormir aqui? — ela perguntou, com a voz baixa. — A casa é minha. A cama também. Deitei ao lado dela, sem tocar. Só o silêncio entre nós. Tenso. Cortante. Antes de apagar a luz, disse: — Você acha que me odeia agora. Mas um dia, Carol... vai desejar esse ódio mais do que qualquer amor. Ela não respondeu. Mas demorou a adormecer. E eu fiquei ali. Observando. Ela já estava aqui. Agora, só faltava quebrar o resto.
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