Carol O tempo se estende feito elástico dentro deste quarto sem janelas. Do lado de fora, escuto ruídos abafados: o arrastar dos passos dos homens de Gabriel, a chuva pesada tamborilando nos telhados e, por vezes, o eco seco de tiros distantes que nunca deixam o morro dormir em paz. O mundo lá fora é feito de movimento, estratégia, medo e poder. Aqui dentro, sou refém do silêncio. Meu corpo ainda dói. O repouso absoluto ordenado por Margarida me transforma em espectadora da própria vida. Fico deitada, observando o jogo das sombras nas paredes. Uma árvore antiga balança no quintal; os galhos lançam tentáculos escuros que parecem se arrastar até minha cama. A cada noite, sonho que eles me envolvem, me puxam, me levam para um lugar onde não sou mais mãe, nem esposa, nem sobrevivente — só au

