Capítulo 10-A Noite que Quebrou Nossas Defesas

1304 Palavras
Ana Lis Fiquei irritada com o Theo. Quem ele pensa que é? Mas, ao mesmo tempo, senti algo estranho se mover dentro de mim. Uma sensação que não era só raiva. Era confusão. Era… algo que eu não queria nomear. Saí do meu transe com Márcio e Laura me chamando. Passeamos um pouco pelo pátio da universidade. Eu sentia olhares sobre mim comentários sussurrados, curiosidade no ar. Eleonora me devorava com os olhos do outro lado do corredor. Não estou nem aí. Ela não faz ideia de com quem está mexendo. Se acha que vai me intimidar, está muito enganada. Seguimos em direção ao portão. Despedi-me da Laura e do Márcio; eles foram para casa se arrumar. Hoje tem balada e eu estou amando essa fase da minha vida. Hoje vou de táxi. Bento não poderá me buscar; está resolvendo os trâmites para comprar a empresa onde trabalha. Tenho tanto orgulho do meu irmão. Ele sempre foi determinado. Sempre foi força. Eu estava tentando chamar um carro quando um esportivo preto parou ao meu lado. O vidro desceu devagar. Aceita carona? Era Noah. Aceitei. Fomos conversando no caminho. Ele comentou que já tinha ficado sabendo do ocorrido com Eleonora e disse que, se eu precisasse, poderia contar com ele. Agradeci, mas deixei claro que não queria envolver ninguém. Comentei sobre a balada daquela noite. Ele perguntou se podia ir. Respondi que sim. Ele ligou para Enrico ali mesmo e o convidou. Combinei que iria com eles, mas ficaria com Márcio e Laura na pista; eles ficariam com os colegas. No fim, me dariam carona de volta. Cheguei em casa e o cheiro da comida da dona Ana invadiu meus sentidos. Abracei-a forte e fui tomar banho. Debaixo da água morna, fechei os olhos e lá estava ele. Theo. O olhar verde intenso. A tensão na mandíbula. A forma como me encara como se estivesse tentando me decifrar. Balancei a cabeça. Ridículo. Jantei, liguei para meus pais. Contei sobre o meu dia, sobre meus amigos, sobre a balada. Não mencionei o ocorrido com Eleonora. Minha mãe ficou preocupada. Meu pai também. Mas, no fundo, sabem que eu já sou adulta. Preciso viver. Preciso socializar. Desliguei e fui me arrumar. Vesti um vestido preto, justo, acima do joelho, marcando minhas curvas com elegância. Sandálias de salto médio também pretas. Uma bolsinha discreta. Fiz uma maquiagem delicada, mas que realçasse meus traços. Soltei o cabelo e fiz cachos suaves nas pontas. Quando desci, dona Ana ficou petrificada. Você está linda demais, menina. Corei. A campainha tocou. Enrico e Noah chegaram rápido. Nossa, Ana Lis… você está linda — disse Enrico. Noah ficou estático. Fecha a boca, Noah, Enrico brincou. Eu ri. Chegamos à balada. Márcio e Laura já estavam lá. Laura estava deslumbrante, nunca a vi assim. Notei o olhar de Enrico sobre ela. Interessante. Ana, você está maravilhosa! — ela disse. E você também. E eu? — Márcio perguntou. Você também, seu bobo. Entramos. Enrico e Noah foram para outro espaço. Nós ficamos na pista. Dancei. Ri. Bebi. Talvez tenha bebido demais. Alguns homens se aproximaram. Márcio rapidamente disse que eu tinha namorado, e eles saíram. Fui ao banheiro. Quando voltei, Laura e Márcio estavam dançando. Peguei o drink que havia deixado no balcão e terminei de beber. Foi então que o mundo começou a girar. No começo, achei que fosse o álcool. Mas não. Era diferente. Minhas pernas ficaram pesadas. Minha visão embargou. E, de repente, eu soube. Fui drogada. O desespero tomou conta de mim. O coração disparou. Peguei o telefone. Por um segundo, pensei em Theo. Mas liguei para Enrico. Ele estava ali comigo. Era meu amigo. Eu… — tentei falar, mas as palavras não saíam. Saí andando pelos corredores, segurando nas paredes. Tudo girava. A música parecia distante. Alguém me segurou. Com a visão turva, reconheci o rosto de Enrico. E então tudo escureceu. Acordei deitada em uma cama que não era a minha. Um cheiro familiar invadia o ambiente. Tentei me levantar. Fique deitada. A voz era firme. Irritada. Mas carregada de preocupação. Theo. Você já foi medicada. O efeito vai passar. Eu vi. Vi a fúria nos olhos dele. E vi o medo também. Como vim parar aqui? Ouvi vozes ao fundo, Márcio, Laura, Enrico, Noah respondendo quase ao mesmo tempo: Nós trouxemos você. O que aconteceu? Você foi drogada, Ana , disse Enrico, sério. Eu sabia. No fundo, eu sabia. Entendi , respondi. Entendi? , a voz de Theo explodiu. É só isso que você tem a dizer? Você sabe o quanto foi irresponsável hoje? Sabe o que poderia ter acontecido? A culpa, o medo e a raiva se misturaram dentro de mim. Vocês podem sair? pedi. Eles saíram. Ficamos só nós dois. Quem você pensa que é para gritar comigo? — minha voz saiu trêmula. Sim, eu fui drogada. E o que você tem a ver com isso? O maluco aqui é você! Ele ficou em silêncio. Eu pedi sua ajuda? Não. Então para de se meter na minha vida. Me deixa em paz. Eu odeio você! Não consegui segurar. Chorei. Chorei de frustração. De susto. De vulnerabilidade. Ele mudou. Vi o pânico atravessar seus olhos. Como se minhas palavras o atingissem fisicamente. Desculpa, ele disse, baixo. E saiu. Ouvi o motor do carro. Minutos depois, Enrico e os outros entraram. Pedi que me levassem para casa. Pedi que não contassem nada aos meus irmãos eu mesma falaria. Cheguei em casa ainda zonza. Márcio e Laura ficaram comigo. Tomei um banho demorado. Deixei as lágrimas caírem misturadas com a água. Laura e Márcio choravam, se culpando. Não tem nada a ver com vocês, eu disse. Essas coisas acontecem… infelizmente. Tentamos rir. Falamos que ainda teríamos muitas baladas. Mas, quando fiquei sozinha no quarto, o silêncio pesou. Fechei os olhos. E, pela primeira vez naquela noite, não senti apenas medo. Senti algo diferente. Porque, no momento em que tudo escureceu, antes de perder os sentidos, eu senti braços firmes me segurando. Protegendo. E quando acordei… Ele estava lá. Theo não estava irritado. Ele estava apavorado. E isso… isso mexeu comigo mais do que qualquer grito. Talvez eu não o odeie tanto quanto digo. Talvez o que me assuste não seja a raiva dele. Mas o fato de que, no meio do caos, a primeira pessoa que meu coração pensou em chamar… Foi ele. E isso é perigoso. Muito perigoso. Peguei o celular. Abri a conversa com ele. Não havia nenhuma mensagem. Nenhuma ligação. Parte de mim ficou aliviada. Parte de mim ficou… decepcionada. Digitei. “Obrigada por hoje.” Apaguei. “Desculpa pelo que eu disse.” Apaguei de novo. Respirei fundo. Não. Eu não vou correr atrás. Não depois de ele ter gritado comigo. Mas também não posso fingir que nada aconteceu. Joguei o celular na cama e me deitei, encarando o teto. Talvez hoje tenha sido um aviso. Nem tudo é brincadeira. Nem todo sorriso é inofensivo. Nem toda noite termina em risadas. E talvez… talvez eu precise aprender a equilibrar minha liberdade com cuidado. Mas uma coisa ficou clara. Eu não sou fraca. Eu fui alvo. E sobrevivi. E se Eleonora acha que pode me intimidar… Se alguém acha que pode me apagar… Estão muito enganados. Fechei os olhos, exausta. Antes de adormecer, uma última imagem atravessou minha mente: Theo, parado ao lado da cama, mãos fechadas, mandíbula travada… como se estivesse segurando o mundo inteiro para não desabar. E pela primeira vez desde que o conheci, não vi arrogância. Vi vulnerabilidade. E isso pode ser o começo de algo. Ou o início de uma guerra. Porque, se tem uma coisa que eu aprendi hoje, é que quando o medo encontra o sentimento… Nada volta a ser simples. E eu tenho a sensação de que, depois desta noite, nada entre mim e Theo será como antes.
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