Capítulo 20

1255 Palavras
A noite já havia se instalado quando Elowen retornou à mansão. O portão principal se fechou atrás do carro que a deixara, e um arrepio percorreu sua espinha. O jardim, sempre iluminado por refletores discretos, estava mergulhado em sombras. As janelas, normalmente com alguma luz acesa, estavam todas escuras, como se ninguém estivesse ali dentro. Por um instante, ela pensou ter se enganado de lugar. O silêncio era absoluto, pesado demais para ser natural. Mesmo os sons típicos da noite — grilos, o vento cortando pelas árvores, o farfalhar das folhas — pareciam abafados. Elowen respirou fundo, tentando ignorar o desconforto. Desceu os degraus da entrada, empurrando a porta da frente com cuidado. A madeira rangeu suavemente, denunciando sua chegada. A escuridão a engoliu assim que entrou. Nenhum abajur aceso, nenhum sinal de vida. A mansão parecia abandonada, como se tivesse sido deixada às pressas. — Kael? — chamou, a voz hesitante. Nenhuma resposta. Ela avançou alguns passos, sentindo o coração acelerar. Algo estava errado. Kael jamais permitiria que a casa ficasse em trevas daquela forma. Elowen fechou a porta atrás de si e caminhou pelo hall. O salto leve de seus sapatos ecoava no mármore, criando um som quase perturbador naquele vazio. A cada passo, tinha a sensação de que alguém a observava. Virou para o corredor principal, quando um brilho âmbar piscou na escuridão. Seu corpo travou. Ali, recostado em uma poltrona de couro próxima à lareira apagada, estava Kael. Não havia qualquer luz além da pequena chama de um isqueiro que acabara de acender o cigarro entre seus dedos. O clarão breve iluminou parte do rosto dele: olhos ferozes, mandíbula rígida, uma expressão que parecia feita de sombra e ameaça. Na outra mão, Kael segurava um copo de cristal com whisky. O âmbar da bebida refletia a mínima luz existente. — Finalmente resolveu voltar — disse ele, a voz grave cortando o silêncio como uma lâmina. Elowen levou a mão ao peito, ofegante pelo susto. — O que… o que está fazendo aí no escuro? Um sorriso frio se formou nos lábios dele. — Esperando você. O coração dela disparou. Parte de si queria recuar, mas outra se recusava a mostrar medo. Endireitou a postura, erguendo o queixo. — Você podia simplesmente ter ido para o quarto. — E perder a chance de ver sua expressão quando entrasse por aquela porta? — Ele balançou o copo, fazendo o gelo tilintar. — Não. Eu queria que sentisse o peso da escuridão, exatamente como eu senti quando percebi que havia saído sem permissão. A respiração dela falhou por um instante. Kael apoiou o cotovelo no braço da poltrona e inclinou-se para frente, deixando o olhar penetrar nela. — Diga-me, Elowen… onde esteve? Ela hesitou, mas decidiu não mentir. — Saí com Nyra. A chama de fúria que brilhou nos olhos dele foi quase palpável. O copo em sua mão se inclinou, mas ele conteve o movimento antes que derramasse a bebida. — Nyra. — O nome saiu como um veneno. — E você achou que era uma boa ideia acompanhá-la? Elowen cruzou os braços, tentando se manter firme. — Achei que não precisava da sua permissão para dar um passeio. — Permissão? — A voz dele subiu em intensidade, mas não em volume; era o tipo de raiva controlada que queimava mais do que qualquer grito. — Você está sob o meu teto. Sob a minha p******o. E ainda assim decide sair com alguém que claramente tem interesse em me provocar? — Não é sobre você! — rebateu, sentindo o sangue ferver. — Nyra me convidou, e eu aceitei. Eu precisava respirar fora destas paredes sufocantes. Kael se levantou lentamente. O movimento foi tão calculado, tão cheio de poder, que parecia uma ameaça em si mesmo. Ele não precisou erguer a voz para dominar todo o espaço. — Você não faz ideia do que colocou em risco. — Deu um passo em direção a ela, o olhar predatório. — Cada pessoa que entra nesta casa, cada movimento, cada sombra lá fora… tudo pode ser usado contra mim. E agora contra você. Elowen sentiu o estômago se contrair, mas não desviou os olhos. — Eu não sou sua prisioneira. Ele parou a centímetros dela, tão perto que ela pôde sentir o calor da respiração carregada de whisky. — Não, Elowen. Você não é minha prisioneira. — Baixou o tom, a voz mais grave, mais perigosa. — Mas também não é livre para se jogar nos braços de quem quer brincar com o que é meu. O coração dela disparou. — Eu não sou sua posse. Kael arqueou uma sobrancelha, os olhos faiscando. — Não? — Ele se inclinou ainda mais, o rosto a um sopro do dela. — Então por que voltou? A pergunta a desarmou por um instante. Engoliu em seco, desviando o olhar. — Porque… porque aqui é o lugar mais seguro que eu tenho. Um silêncio denso se instalou entre eles. A confissão escapara antes que pudesse contê-la. Kael analisou cada traço do rosto dela, como se tentasse decifrar algo. O maxilar ainda rígido, mas os olhos carregados de uma intensidade que oscilava entre fúria e desejo. — E mesmo assim ousa desafiar a minha palavra — murmurou. Elowen reuniu toda a coragem que tinha e sustentou o olhar dele. — Eu não vou abaixar a cabeça para você, Kael. Não importa quantas vezes tente me assustar. Um músculo se contraiu no rosto dele. Por um segundo, pareceu prestes a perder o controle. Mas então, inesperadamente, riu baixo, um som sem humor, quase sombrio. — Você é insuportavelmente teimosa. — Ele ergueu o copo e terminou o whisky em um único gole. Depois, deixou o cristal sobre a mesa com um estalo seco. — E isso me enlouquece. Elowen respirava rápido, o corpo em alerta. Mas, apesar do medo, havia algo dentro dela que vibrava, que respondia ao fogo que Kael emanava. Ele passou a mão pelos cabelos, como se lutasse para recuperar o controle. — Não ouse repetir isso, Elowen. Se sair novamente sem a minha autorização, não prometo que serei tão… paciente. Ela ergueu o queixo, enfrentando-o. — Você não pode me controlar para sempre. Kael se aproximou mais um passo, de modo que o peito dele quase roçava o dela. — Não subestime até onde eu posso ir para manter você segura. O coração dela martelava, mas os lábios se curvaram em um desafio contido. — Segura… ou presa? A pergunta pairou no ar como uma provocação perigosa. Kael a encarou por longos segundos, o olhar flamejante, até que finalmente se afastou um pouco, dando espaço para que ela respirasse. — Vá para o seu quarto — ordenou, a voz grave, mas controlada. Elowen permaneceu imóvel por alguns segundos, o corpo ainda vibrando pela tensão. Então, sem dizer uma palavra, virou-se e subiu as escadas. Quando chegou ao corredor, respirou fundo, tentando se acalmar. O coração continuava acelerado, mas havia algo mais: uma estranha sensação de triunfo. Ela não se curvou, não abaixou a cabeça. Mas, no fundo, também sabia que havia ultrapassado um limite. Lá embaixo, Kael permaneceu parado no escuro, os olhos fixos na escada por onde ela desaparecera. A mão cerrada em punho, os pensamentos em ebulição. Elowen estava se tornando mais do que uma distração. Era um desafio constante, uma chama que ele não conseguia apagar. E, embora quisesse odiar aquilo, a verdade era que cada confronto o arrastava ainda mais para perto dela. E isso o assustava mais do que qualquer inimigo lá fora.
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