Capítulo 5

1316 Palavras
O corredor estava silencioso, iluminado apenas pela luz fraca que escapava de lustres antigos. Elowen Vescari caminhava lentamente, os passos ecoando no mármore, cada som amplificado pelo silêncio da mansão Ravelli. Ela havia explorado o espaço durante o dia, aproveitando a liberdade condicional que Kael lhe concedera, mas agora, à noite, a sensação de ser vigiada se intensificava. Cada sombra parecia se mover, cada detalhe parecia carregado de perigo. Quando ouviu a porta do seu quarto se abrir, o corpo inteiro ficou em alerta. Não era o silêncio usual; era algo mais pesado, mais denso, algo que enchia o ar com uma presença quase tangível. Ela se virou, os olhos verdes fixos na figura que surgia. Kael Ravelli. Ele entrou sem avisar, os passos firmes e silenciosos, a camisa preta contrastando com o terno impecável que usava. Havia algo na forma como se movia, na maneira como carregava cada gesto, que fazia o coração de Elowen acelerar — não de medo, mas de alerta. Cada músculo dele parecia pronto para reagir, cada detalhe do corpo exalava controle absoluto. — Está aproveitando a noite? — Sua voz veio baixa, mas intensa, carregada de uma autoridade que não precisava de tom elevado para intimidar. — Não — respondeu Elowen, firme, os olhos desafiadores. — Mas não estou entediada. — Ela cruzou os braços, encostando-se levemente na parede oposta, mantendo a postura reta, mostrando que não se curvaria facilmente. Kael se aproximou lentamente, como quem caminha sobre terreno perigoso, cada passo medido, cada olhar avaliando-a. Quando estava a poucos metros dela, parou, inclinando-se ligeiramente. — Você fala demais para alguém que ainda não sabe onde está. — A voz dele cortou o ar, carregada de tensão. — Pode se arrepender de testar minha paciência. Elowen arqueou uma sobrancelha, sem se intimidar. — Testar sua paciência? Eu nem comecei a brincar. — A língua afiada era sua primeira linha de defesa. Não deixaria que ele sentisse que a havia abalado. Kael sorriu, um gesto que não alcançou os olhos, apenas sugeriu perigo contido. — Acha que é engraçado ser insolente comigo? Ela manteve o olhar, firme. — Engraçado? Não. Provocador? Talvez. Mas você não vai me calar, Kael. — A firmeza na voz dela parecia desafiá-lo, mas também carregava uma ponta de curiosidade. Ele avançou mais um passo. Então, num movimento rápido e preciso, prensou-a contra a parede. O corpo de Elowen bateu suavemente, mas a força não a deixou escapar. O rosto dele estava a centímetros do dela, a respiração dele mesclada com a dela, criando uma tensão quase elétrica no ar. — Não teste minha paciência, Elowen — disse, entre dentes, o olhar n***o cravado no dela. — Não facilitaria sua vida aqui. Posso simplesmente te jogar em um bordel qualquer e ver quanto tempo você aguenta antes de implorar. Ela sentiu uma pontada de vulnerabilidade, mas não se deixou dominar. O coração acelerou, mas a mente manteve o controle. Mesmo assim, havia algo na intensidade daquele olhar que a fez perceber que, por um instante, não poderia escapar apenas com a língua afiada. — Você… não é tão invencível quanto pensa — respondeu, firme, a voz um fio de desafio misturado à adrenalina. — Eu não vou implorar. Kael respirou fundo, recuando apenas alguns centímetros, mas ainda mantendo o corpo próximo. — Boa… menina — murmurou, como se fosse um prêmio e um aviso ao mesmo tempo. — Se continuar assim, verá até onde minha paciência pode ir. Ela apoiou as mãos na parede, respirando fundo, sentindo a força da presença dele, mas tentando não demonstrar fraqueza. O coração batia acelerado, mas a mente permanecia afiada. Cada movimento dele, cada respiração, cada gesto era um cálculo. — Eu… gostaria de falar com alguém — disse ela, baixando ligeiramente o tom, mas mantendo a firmeza. — Minha amiga… Nyra. Preciso saber se ela está bem. Kael recuou um pouco mais, apenas o suficiente para que a distância entre os dois aumentasse, mas ainda o suficiente para que a tensão no ar fosse palpável. — Se for uma boa menina, talvez permita que fale com sua amiga — disse ele, cada palavra carregada de controle e poder. — Mas se tentar se meter onde não deve, não haverá aviso. Elowen respirou fundo, entendendo que cada palavra dele era uma armadilha e um teste. — Eu só quero saber se ela está bem. Nada mais. Kael inclinou levemente a cabeça, os olhos negros avaliando cada nuance dela. — Então seja uma boa menina. Não quero surpresas. Ela assentiu lentamente, percebendo que, naquele instante, cada palavra era medida, cada gesto observado. Mas dentro dela, a determinação crescia. Kael podia controlar o espaço, os guardas, até as regras, mas não podia controlar a mente dela. Cada respiração, cada pensamento, cada plano de resistência ainda era dela. — Entendido — disse, firme, segurando o olhar dele. — Mas não pense que vai me quebrar facilmente. Ele sorriu, apenas um pouco, e se afastou alguns passos, mas o ar ainda estava carregado da presença dele. — Veremos — murmurou, a intensidade do olhar permanecendo. O silêncio se estendeu, pesado e tenso, quebrado apenas pelo som da respiração e pelos passos leves de Kael enquanto ele se dirigia à porta. — Alguém trará comida para você — disse sem olhar para trás, deixando no ar a sensação de controle absoluto. Elowen respirou fundo assim que a porta se fechou. A adrenalina ainda percorria seu corpo, mas não havia medo; havia determinação, fogo e um senso afiado de que precisaria usar cada habilidade para sobreviver e resistir. Ela se afastou da parede, caminhando lentamente até a poltrona. Cada detalhe daquela interação era gravado em sua mente: a força dele, a intensidade do olhar, o controle que exercia apenas com presença. Mas, acima de tudo, a certeza de que não poderia se curvar, não completamente. — Ele é intenso… — murmurou para si mesma, apertando os punhos sobre os joelhos. — Mas não me controla. Não enquanto eu respirar. O pensamento voltou para Nyra, a amiga que compartilhava cada vitória e cada desabafo no apartamento que dividiam. Elowen queria encontrar um momento, uma oportunidade de manter contato, de garantir que alguém no mundo exterior soubesse que ela ainda existia, que ainda resistia. O relógio avançava lentamente, e a mansão parecia ainda mais imponente à luz fraca da noite. Cada sombra, cada corredor, cada ângulo parecia ter vida própria, como se tudo estivesse vigilante, observando, aguardando. Ela precisava estudar, observar e se preparar. Cada detalhe poderia ser a diferença entre manter a mente livre ou ser completamente dominada. Ela se levantou, caminhando pelo quarto, cada movimento calculado. O frio da noite atravessava as janelas, mas não diminuía a intensidade que queimava dentro dela. Kael podia controlar o espaço físico, os guardas, até as regras, mas não podia tocar a mente de Elowen. Ainda havia liberdade ali, ainda havia resistência. Sentou-se novamente, respirando fundo, os olhos fixos na porta. Cada interação com Kael era um jogo de poder, cada palavra dele um desafio e uma provocação. Mas cada palavra dela também era uma arma, um lembrete de que não cederia sem lutar. — Cada passo, cada palavra, cada movimento — disse, os dentes cerrados. — Preciso estar pronta. Preciso aprender cada detalhe. Cada sombra, cada corredor… tudo será registrado. E quando houver uma chance… estarei preparada. O silêncio da noite preenchia o quarto, mas Elowen não se permitiu relaxar. Cada sensação, cada respiração, cada memória da intensidade daquele encontro era uma preparação para os próximos passos, para cada desafio que Kael ainda iria impor. Ela se deitou na cama, mas não fechou os olhos. Cada detalhe da presença dele, cada gesto, cada palavra, estava gravado em sua mente, como uma lição de sobrevivência. Kael era imponente, intenso, dominante, mas não invencível. E Elowen sabia que, por mais perigoso que fosse, ainda havia espaço para resistência, para estratégia, para sobrevivência.
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