Capítulo 16

1209 Palavras
A noite já havia tomado conta do céu quando Elowen passou pelos grandes portões da mansão. O carro avançou lentamente pela longa estrada iluminada apenas por algumas luzes de jardim, que criavam pontos dourados contra a escuridão. Havia silêncio em toda a propriedade, um silêncio quase pesado, como se a casa esperasse por ela. Quando finalmente entrou no hall principal, notou imediatamente que Kael não estava ali. A atmosfera parecia vazia sem a presença dele. Por um instante, sentiu uma estranha onda de alívio — era sempre desgastante lidar com a intensidade dele —, mas ao mesmo tempo, uma pontada de decepção inexplicável percorreu-lhe o peito. Subiu as escadas com passos lentos, o cansaço do dia pesando em cada músculo. A ONG exigira dela mais do que esperava, mas também a preenchera de propósito. Ajudar, escutar, tentar reorganizar a vida de tantas pessoas a fazia sentir-se útil novamente, mesmo que Kael não aprovasse. Ao abrir a porta de seu quarto, encontrou a cama arrumada com perfeição. Sobre os lençóis brancos, repousava um pijama confortável, de tecido macio, escolhido com cuidado por alguém da casa. O gesto simples a fez sorrir, e ela decidiu não pensar em quem havia preparado aquilo. Entrou no banheiro e deixou a água quente deslizar sobre sua pele, lavando o peso do dia. O vapor embaçava o espelho enquanto ela fechava os olhos e respirava fundo, deixando que o cansaço escorresse pelo ralo. Alguns minutos depois, vestiu o pijama que a esperava: uma calça leve e uma blusa larga que cheirava a sabão fresco. Já passava das dez da noite quando desceu as escadas em busca de algo para comer. O silêncio da mansão era quase absoluto; apenas o ranger suave da madeira sob seus pés denunciava sua presença. Ao chegar à cozinha, acendeu uma pequena luz lateral. O ambiente permaneceu em penumbra, o suficiente para enxergar, mas ainda envolto numa penumbra acolhedora. Abriu a geladeira, e o clarão repentino iluminou-lhe o rosto. Seus olhos encontraram um pedaço de bolo de chocolate cuidadosamente guardado em um prato coberto por filme plástico. Não resistiu. Pegou o doce e colocou sobre a bancada de mármore, servindo-se também de um copo de leite gelado. Sentou-se, apoiando o cotovelo sobre a mesa. Enquanto comia distraidamente, deixou que os pensamentos a carregassem. Pensou no dia, nas crianças que havia atendido, nos olhares esperançosos que lhe pediam respostas que ela ainda não tinha. Pensou também em Kael — na forma como ele a cercava com autoridade, no jeito possessivo de falar, e em como aquilo a irritava tanto quanto a confundia. Foi nesse instante que uma voz grave cortou o silêncio. — Está confortável? Elowen quase deixou o garfo cair do susto. O coração disparou e ela ergueu o olhar, encontrando Kael parado à porta da cozinha. Ele estava apoiado contra o batente, os braços cruzados, observando-a como se fosse a cena mais natural do mundo. — Meu Deus, você me assustou! — ela exclamou, levando a mão ao peito. — Desde quando está aí? Kael deu de ombros, com um meio sorriso que não chegava aos olhos. — Tempo suficiente. — Seus olhos se fixaram no bolo diante dela. — Parece que alguém decidiu aproveitar as sobras da casa. — É só um pedaço de bolo — murmurou Elowen, voltando a olhar para o prato, tentando disfarçar o nervosismo que crescia no ar. — Não pensei que precisasse de permissão para comer. Kael descruzou os braços e caminhou lentamente em direção a ela. Cada passo parecia ecoar pelo chão da cozinha, preenchendo o silêncio com algo denso, quase palpável. — Não precisa de permissão — disse, a voz baixa, mas carregada de autoridade. — Mas deveria saber que andar sozinha pela casa à noite pode ser... perigoso. Ela ergueu as sobrancelhas, encarando-o. — Perigoso? Você realmente acha que eu corro perigo dentro da sua mansão, Kael? — Não dentro da mansão — respondeu ele, inclinando-se contra a bancada ao lado dela. Seus olhos estavam fixos nos dela, intensos. — Mas ao ignorar minhas ordens, sim. Elowen largou o garfo e cruzou os braços, enfrentando-o. — Lá vem você de novo. Eu já disse que não vou parar de trabalhar na ONG. Se isso te incomoda, o problema é seu, não meu. A mandíbula de Kael se contraiu. Ele se aproximou mais um passo, até que a distância entre eles se tornou incômoda. — Você fala como se suas escolhas não tivessem consequências — murmurou, a voz grave ecoando contra a pele dela. Elowen respirou fundo, tentando controlar o coração acelerado. — E você fala como se pudesse controlar cada detalhe da minha vida. Não pode, Kael. Eu não sou uma prisioneira. Por um instante, o silêncio reinou. Os olhos dele percorreram o rosto dela, e Elowen percebeu a mudança sutil em sua expressão. Havia raiva ali, mas também algo mais profundo, algo que a fazia estremecer. De repente, Kael moveu-se. Segurou-a pelo braço e a puxou para perto, tão rápido que Elowen m*l teve tempo de reagir. O prato com bolo quase tombou, mas ela nem percebeu — a proximidade dele a dominava completamente. — Você não tem ideia do que está dizendo — murmurou ele entre dentes, o rosto a centímetros do dela. — Me solta, Kael! — Elowen gritou, debatendo-se, tentando puxar o braço de volta. Ele não cedeu. O corpo dele a mantinha contra a bancada, firme, intransponível. O olhar escuro a atravessava, prendendo-a no lugar. — Pare de lutar contra algo que você já sente — sussurrou, a voz rouca, quente contra sua pele. Elowen ofegou, o coração martelando no peito. Ela queria gritar mais, empurrá-lo, mas as palavras travaram na garganta quando percebeu o olhar dele deslizar involuntariamente para sua boca. Por uma fração de segundos, o tempo pareceu parar. Kael queria calar aquela boca teimosa, queria arrancar cada protesto dela com um beijo. E então, sem aviso, ele puxou-a ainda mais para perto e colou seus lábios nos dela. O beijo foi intenso, arrebatador, cheio de fúria e desejo contido. Elowen tentou resistir no início, as mãos empurrando o peito dele, mas a força de Kael era inabalável. Ele a dominava por completo, e o contato dos lábios era avassalador. — Kael... — ela tentou murmurar contra a boca dele, mas o som morreu no choque do beijo que se aprofundava, exigente. O gosto do chocolate misturava-se ao sabor dele, quente e proibido. A respiração de ambos se tornava pesada, entrecortada. Cada movimento dele parecia querer gravar naquele instante algo que ela não poderia apagar. Elowen, mesmo em meio à revolta, sentiu o corpo fraquejar. O coração, antes em protesto, agora batia em um ritmo descompassado, entregando a confusão que tomava conta dela. Quando Kael finalmente afastou o rosto, seus olhos a prenderam como grilhões. A respiração dele era forte, e a dela, trêmula. — Você é uma tentação que não sabe o quanto me desafia — disse, quase num rosnado. — E isso me tira do controle. Elowen piscou, ainda ofegante, sem saber se gritava de raiva ou se cedia ao turbilhão que aquele beijo havia despertado. O silêncio que se seguiu era denso, cortante, cheio de coisas não ditas. E, no fundo, ambos sabiam: nada seria o mesmo depois daquela noite.
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