Cecília
Hoje eu combinei de dar um pião com a Narinha no shopping, e a bonita está se arrumando aqui em casa.
Acabei de sair do banho e fui pegar minhas peças íntimas dentro do guarda-roupa. Tirei minha toalha e comecei a me vestir. A Nara, que até então estava se maquiando, parou e começou a encarar meu corpo.
— Que isso, Cecília? Quem te agrediu dessa maneira?
— Um bofe aí.
— Tomou uma surra de pau... literalmente.
— Eu estava precisando — falei e ela concordou.
— Ei, essa corrente aqui não é do Palhaço? — falou pegando uma correntinha de prata que estava jogada ao lado da minha cama.
— Acho que é — falei na maior inocência, e a garota deu um sorriso de orelha a orelha, ficou parecendo o Coringa.
— Você liberou pro Palhaço, por isso a corrente dele tá aqui jogada do lado da sua cama, sua safada — falou me encarando.
— Nem vem me julgar, ou acha que eu não percebi esse chupão no teu pescoço.
— A Céci, não é novidade que eu e o Moura sempre se pegamos quando temos oportunidade. Agora você e o Palhaço já é outra história.
— Bora largar de papo se não vamos se atrasar, né...
— Isso, sua vaca, foge mesmo do assunto — ela falou e eu ri da cara dela.
Acho até engraçado que há dois dias atrás eu conversava com o Guto sobre prioridades e encontrar a pessoa certa, uma pessoa que não te envolva em problemas, e ontem eu simplesmente fui pra cama com o problema em pessoa.
Assim que chegamos, fomos logo na Riachuelo ver as promoções. Queria estar indo na loja da Gucci? ... Sim, mas infelizmente ainda não sou uma mulher milionária.
Comprei um vestidinho soltinho da cor vermelha, muito lindinho, e depois fui nas lojas de calçados comprar alguma sandália no estilo rasteirinha.
Fui com a Nara no cinema assistir o novo filme Pantera n***a: Wakanda, e quando terminou o filme fomos comer um lanche no BK.
— Você vai comprar mais alguma coisa?
— Acho que não, só vim na intenção da sandália e do vestido mesmo. Não posso ficar gastando muito, final de ano já tá aí batendo na porta — falei e ela concordou.
O lanche chegou e começamos a comer tranquilamente. Senti meu celular vibrar, então desbloqueio a tela e vejo uma notificação de um número desconhecido.
Mensagem on
Tô de olho em você
foto
foto
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Mensagem off
Tinham fotos minhas e da Nara, entrando nas lojas, no cinema e a última era de agora enquanto nós comíamos. Olhei para trás tentando encontrar alguém suspeito, mas falhei miseravelmente.
— Nara, tem alguém observando a gente — falei encarando ela.
— Como assim?
— Olha — mostrei as fotos que o número desconhecido tinha me enviado.
— Isso só pode ser uma brincadeira de mau gosto.
Uma nova mensagem apareceu na tela:
Eu tô de olho em todos os seus passos, incluindo os da sua mãe e principalmente os da sua amiga.
Essa última mensagem me deixou sentida. Uma coisa é você estar na mira de alguém, outra coisa é a sua mãe.
Já começou a me b*******a ansiedade e eu já estava começando a mexer minha perna sem parar.
— Vou ligar pro Moura vim buscar a gente — Nara falou pegando o celular de dentro da bolsa.
Não demorou nem cinco minutos e a Nara falou que o Moura já estava vindo e mandou a gente ficar esperando na porta de entrada.
— Você contou o que aconteceu?
— Não, só falei que você não estava se sentindo bem.
Uma BMW preta parou na nossa frente e em seguida abaixou o vidro revelando os dois patetas juntos.
— Vão ficar paradas aí mesmo é? — Moura perguntou enquanto trocava a marcha do carro.
Entramos e o Palhaço me encarou pelo retrovisor.
— Iai, tá melhor?
— Melhor do quê?
— A Nara disse que você tava passando m*l.
— Aah.. sim, tô melhor. Acho que só foi o início de uma crise.
— Aconteceu o quê pra tu ter uma crise?
— É porque tá chegando o dia de pegar os resultados finais da faculdade, vi o pessoal comentando no grupo e fiquei com medo de não atingir a média — ele trincou o maxilar e depois concordou com a cabeça.
Sei que ele não engoliu essa história, mas também sei que ele deixaria quieto por enquanto pra não ocorrer nenhum risco de discussão na frente da Nara e do Moura.
— É impressão minha ou tem alguém seguindo a gente? — Moura perguntou quebrando o silêncio.
E realmente tinha: um carro da cor vinho vindo atrás de nós.
— Vamos cortar caminho — Moura falou e o Palhaço já sacou uma Glock que estava no porta-luvas.
Comecei a olhar pelo retrovisor e percebi o carro começar a desacelerar. Olhei mais para frente e vi a viatura da polícia encostada no acostamento da pista.
— Moura, entra nessa primeira estrada de terra que vai vim — falei sacudindo seus ombros.
— Por quê? O carro tá parando de seguir a gente — falou voltando a olhar o retrovisor.
— Mas tem uma viatura lá na frente prontinha pra parar a gente — falei e na mesma hora ele virou na esquina.
Demorou mais do que o imaginado pra chegar de volta no morro, mas pelo menos dessa vez chegamos todos vivos.