Guto
Tive que aprender a me virar desde novinho. A vida nunca foi legal comigo, e o tempo só me fez ficar cada vez mais forte e bem preparado para os baques que estavam por vir.
Perdi meus pais quando tinha dez anos, então passei a viver com o meu avô. Só que como nem tudo na vida são flores, o meu velho desenvolveu um problema no coração que exige um tratamento caro, e o dinheiro da aposentadoria não iria dar pra manter as despesas da casa e os medicamentos.
Eu pivete novo, tentei arranjar uns bico pelo morro mesmo. Trabalhei no lava-jato, trabalhei em barzinho e até cuidei de filho dos outros pra me render uma grana, mas não era o suficiente pra manter a casa já que o que eu ganhava fazendo esses corres não era muito.
Eu era um moleque inteligente, era até líder de sala, mas depois que os problemas começaram a surgir eu tive que faltar a escola para poder correr atrás de grana. Meu avô foi chamado na escola pois as professoras queriam saber o porquê de tantas faltas. Lembro que ele chegou em casa cheio de raiva falando que eu estava matando aula pra vagabundar, mas aí eu falei o real motivo e ele começou a chorar feito criança.
Me abraçou, me beijou e agradeceu pela minha intenção. Ele não negou a minha ajuda porque sabia que estávamos necessitados, porém o velho colocou regra: se eu quisesse ajudar, eu também teria que estudar. E assim foi indo, estudava de manhã e trabalhava a tarde até cair a noite.
Teve um dia que eu estava descendo da escola e um cara me parou e falou que se eu levasse uma encomenda pra ele lá embaixo no pé do morro eu iria ganhar um trocado. Aceitei na hora a proposta dele; naquele momento qualquer dinheiro era bem vindo, até mesmo o sujo.
O cara simplesmente soltou duzentos reais na minha mão e falou "é teu". Fiquei todo bobo quando vi as notas. Juntando o trampo do lava-jato e do barzinho não dava nem metade do que eu ganhei agora.
Depois disso o mesmo cara sempre me chamava pra fazer esses corres, até o Palhaço descobrir e quase matar o cara por tá mandando eu fazer o trabalho dele. Mas ali eu vi a oportunidade de pedir uma chance para o Palhaço. É claro que ele negou, disse que eu tinha que pensar em estudar e não entrar pro crime... realmente era verdade, mas não tinha outra saída.
Expliquei a minha situação e ele foi logo na minha casa comprovar pra ver se eu não estava mentindo. Ele me fez a proposta de pagar os remédios do meu avô e o dinheiro da aposentadoria dele ficar pras despesas da casa, mas eu neguei. Falei que ele não iria estar ali pra sempre para poder sustentar eu e o meu velho, falei que queria entrar no crime por pura escolha minha.
Lembro que no dia meu avô passou m*l e teve que ir pro postinho. O velho ficou três dias sem falar comigo, mas pra ser sincero acho que ele ficou mais chateado por eu ter largado a escola já que um dos sonhos dele era me ver formado na faculdade.
E meu coroa, infelizmente não vai ser nessa vida que nós vamos realizar esse sonho.
E foi assim que eu comecei nessa vida, nessa vida de pura ilusão.
— Mas fala aí Guto, tu mora pra qual lado do morro? — perguntou Cecília, tomando minha atenção.
— Uma rua atrás da tua. A frente da minha casa é de fundo pra sua.
— Eu nunca te vi por lá.
— É por causa dos seus horários da faculdade. Eu vou pra boca geralmente uns dez minutos depois que você desce o morro — falei tranquilamente e a garota ficou de boca aberta... eu em, não entendi.
— c*****o em Guto, sabe até o horário da Cecília sair de casa! Ai Cecilião, tu arrumou um fã n**a — falou o Moura rindo da cara dela.
— Não sei se acho fofo ou fico preocupada com a situação.
— Que fã que rapaz, é só que quando acordo eu sempre vou na janela pra ver o movimento e acabo vendo ela descendo o morro.
— Olha Guto, tu é um moleque muito gato, carinha de marrento e pá, me amarraria facinho em você, mas tu só tem dezesseis aí complica. Mas eu espero tu fazer dezoito — falou rindo pra mim e logo o Palhaço engasgou com a cerveja.
— Eu espero pô, fica suave — falei entrando na onda dela.
— Espera c*****o, p*******a isso em Cecília — encarou o Palhaço.
— p*******a seria se eu pegasse ele agora, mas é como eu acabei de dizer, vou esperar ele fazer dezoito.
— Não julgo o menino, é bonito mesmo — falou a Nara enchendo seu copo.
— Até tu cacheada desgraçada — falou o Moura dando um puxão no cabelo dela.
— Relaxem meninas, tem Guto pra comunidade inteira.
— Qual foi Guto, tu tem que ser meu fiel pô.
— Poxa, eu vou ficar dois anos na seca é? Aí você me complica.
— Sai daí projeto de traficante mirim, tu ainda deve ter fimose — falou o Palhaço me olhando.
— Iiiih tenho nada, eu sou operado já.
Sei nem pra que fui falar essa p***a, eles começaram a rir igual idiotas.