Capítulo 19

1666 Palavras
-De quem era esse carro? - A pergunta sai da minha garganta antes que eu impeça, e eu sussurro pra mim mesma. Sei que eu só estava pensando em voz alta, porque sinceramente, eu não tenho certeza de que quero saber a resposta. Eu estou uma bagunça, ele está uma bagunça. Tudo ao redor está um caos. Nenhum dos carros para de piscar enquanto eu vejo a silhueta dele colocando de volta a calça. E agora? O que eu faço? Minhas roupas estão destruídas e a realidade é pesada demais, não é como se eu pudesse sair correndo agora e fingir que nada disso aconteceu. Os pensamentos começam a me circular como abutres, fica tudo tão rápido e eu sinto que se não fizer nada a respeito vou começar a ter uma crise, uma daquelas terríveis que se tem tontura e falta de ar, e você não consegue pensar direito ou pensa de mais, e então fica parado no mesmo lugar como se fossem horas e horas quando na verdade só se passaram minutos e então...E então, De repente eu sou jogada por cima de um ombro, como um saco de batatas, interrompendo toda a minha linha de pensamento e afugentando os abutres como um espantalho sendo colocado em um milharal. -O que você pensa que está fazendo?? Já não me tirou o suficiente?? Me põe no chão agora mesmo seu brutamontes m*l carácter! Eu tenho pernas e posso usá-las pra sair daqui sozinha e ficar bem longe de você. -Você não vai a lugar algum. Eu dou socos nas suas costas e tento chutar com as minhas pernas, estou literalmente com a b***a pro alto e me sentindo mais humilhada do que nunca, então eu grito ainda mais alto, e de resposta eu levo um tapa bem na minha b***a descoberta. Estou vermelha, e envergonhada, completamente envergonhada e humilhada, mas de alguma forma sinto minha respiração e meus pensamentos se controlarem. Todo o meu ódio direcionado e a vergonha que estou sendo obrigada a passar me tirou daquele caminho escuro, do cantinho longe e tumultuado que eu estava começando a entrar antes de começar a surtar de verdade. Não é uma boa hora nem lugar pra surtar ou ter qualquer tipo de crise, agora tudo que eu preciso fazer é me concentrar em como eu vou escapar desse maluco me levando pra não sei onde. Se ele quisesse roubar meus órgãos acho que ele já teria feito, mas o que me impede de ir parar num cativeiro na Turquia? Eu não tenho ideia do que ele quer de mim ou do que ele é capaz, não caio nesse Papinho. Pelo amor dos céus! Eu não sei nem o nome desse sujeito. E eu transei com ele, mais de uma vez eu sei, mas ele também não me conhecia, e simplesmente decidiu vir pra cima das minhas pernas abertas e oferecidas.Agora eu tenho que pagar o preço Ele vai até um carro, um dos poucos que não estava com o alarme ligado e com os farois piscando. Consigo ver de ponta cabeça ele abrindo o porta malas desse carro, e já entro em mais desespero ainda quando penso que vou ser colocada lá dentro, mas ao invés disso, ele pega alguma coisa, fecha de novo e abre a porta do carona. Eu sou colocada lá dentro sem mais nem menos, dessa vez eu não me esperneio, nem me debato depois daquele tapa de aviso, algo me diz que não vai adiantar nada e eu com certeza não vou fazer escândalo por estar colhendo o que eu plantei. Talvez todo esse tempo eu estivesse mais segura se o Steven tivesse me alcançado naquele dia naquela maldita casa dos horrores. Parece que foi a tanto tempo atrás que pra mim, foi realmente parte de um sonho. Na minha cabeça eu estava tão em paz depois daquilo. m*l sabia eu o inferno que tinha me metido, e ainda sinto como se isso não fosse nem o começo. Ele pega ambas as minhas mãos e amarra com uma daquelas cordas e emergência de carro, que nunca entendi pra que eram usadas além de carregar coisas pesadas. Tenho certeza que amarrar pessoas no banco do passageiro não é um dos usos previstos para elas, mas é isso que está sendo feito com ela agora. Eu não digo nada, mas tenho meu olhar fulminante em direção ao homem das cavernas que me raptou.Ele continua com aquele olhar de vitória. Quando ele suspira fundo e senta no banco do motorista, colocando o cinto de segurança primeiro nele e depois em mim, como se fosse uma forma de deboche eu decido mudar a minha estratégia. Se meu olhar de ódio fulminante não foi o suficiente, então eu resolvo começar a apelar. Faço a minha melhor atuação de uma cara de choro e abaixo o máximo que consigo o timbre da minha voz, resgatando do fundo da minha consciência todos os três meses de aula de teatro que fiz no centro comunitário quando tinha 13 anos, torcendo pra que minha atriz interior não tenha morrido pra abraçar esse papel. -Por favor...Me deixa ir embora, eu juro que não conto nada pra ninguém. Não precisa me dizer seu nome, eu só quero ir pra casa... Ele faz um olhar tão sarcástico que eu quase entrego meus pontos ali na hora, só com uma das sobrancelhas arqueadas, ele liga o carro e se vira pra mim. -Jura? Essa é a sua jogada? - Ele dá partida, como se minha tentativa não tivesse valido de nada. - Eu já vi muitos choros de crocodilo mais convincentes na fila pra cadeira elétrica. Acho melhor praticar um pouco antes de tentar me jogar essa carta É claro que eu não vai cair em nenhum tipo de choro, afinal ele é claramente um doido varrido com tendências à psicopatia. Desde quando esse tipo de gente sente pena e remorso? Ele dirige o carro pelo estacionamento e eu engulo meu falso choro, mas um vestígio dele ainda continua no meu rosto, enquanto eu vejo pelo vidro a saída do estacionamento e logo depois a rua, com uma maldita cabine de polícia a poucos metros seguindo a estrada. Tão perto, eu estava tão perto, e agora me afasto cada vez mais da liberdade. Pra onde, só Deus sabe. -Pra onde estamos indo? Por que está fazendo isso? -Você vai descobrir pra onde estamos indo, agora do por que estamos fazendo isso você já deveria saber. Se não sabe ainda é por que talvez te falte prestar atenção ao que eu digo e aos detalhes das coisas que acontecem ao seu redor. -Eu não entendo. -Vai entender, vou fazer você entender. -Aquele dia, na casa dos horrores...eu não quis fazer aquilo, não estava pensando direito. Não significou nada. Tentar argumentar é minha próxima estratégia, mas algo me diz que talvez também não seja a melhor. Minhas opções estão acabando de toda forma, e estando amarrada, tenho que apelar pro verbal. Se ele for realmente uma espécie de doido varrido psicopata, a melhor coisa que eu poderia fazer é jogar com o ego dele, mas como diabos eu iria fazer isso?Não é como se eu já não tivesse me entregado de bandeja pra esse homem, com direito a chantilly e cereja por cima pra completar o serviço. O que diabos eu poderia fazer ou falar pra dar um jeito dele me soltar? Dizer que o p*u dele é pequeno? Tá bom. - Mentiras não vão te levar pra casa. Meu super poder é que eu vivo na sua cabeça e consigo ter acesso a todos os seus pensamentos. -É mesmo? Qual dos xingamentos e nomes feios que eu te apelidei você gostou mais? Ele continua olhando só pra estrada aquele sorrisinho sacana preenche seus lábios. - Eu adoro a maioria que dá pra você usar na cama comigo. O que acha? Tem um favorito também? Podemos começar com esse. -Eu acho que você precisa se f***r. -Desistiu de chorar? Vai voltar a mostrar as garras agora? -Eu vou mostrar muito mais se você não me deixar ir embora agora. - Mas você vai embora. Nós estamos quase chegando. O carro está entrando em um enorme prédio espelhado com cobertura, na verdade muito parecido com o que nós estávamos antes, tirando que esse provavelmente é mais residencial, sem espaço pra festinhas depois da meia noite, a não ser que você fosse o dono da cobertura, é claro. Nem gastando um mês do meu salário eu teria o suficiente pra passar o fim de semana dormindo no quarto mais simples de um prédio como esse. Ele entra pelo subsolo da garagem, e eu já começo a me agitar. Se vamos entrar em um prédio com segurança, a chance de eu encontrar alguém e pedir ajuda é grande. Nós devemos passar por alguém da administração antes de conseguir acesso, pelo menos é assim que os prédios funcionam. Vai ser a minha chance de fazer o que precisa ser feito: gritar gritar e gritar. Que estou sendo sequestrada, que esse cara é um maluco, e pedir ajuda a quem quer que possa aparecer. Vai aparecer, tem que aparecer. Eu quase não consigo conter o sorriso de canto de boca demonstrando meu puro alívio e satisfação. Esse mesmo sorriso vai morrendo cada vez mais, enquanto o carro sobre uma rampa atrás da outra, não passa por um segurança se quer ou nenhum posto de administração. Ao invés disso, eu começo a reparar em uma pequena luz próxima ao espelho retrovisor do carro, que pisca toda vez que passamos por algo com a semelhança de um radar. Essa maldita coisa é automatizada. Nós continuamos subindo, subindo e subindo diversos andares de rampas em um acesso quase completamente vazio de carros, menos ainda de pessoas. Meu coração bate desenfreado contra o peito e não ouso dizer uma palavra, mas aquele sorriso de antes com certeza já evaporou totalmente da minha cara a uma certa altura. Até que ele finalmente para o carro.
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