Capítulo 2: Contrato com o Perigo!

1299 Palavras
Martiniel e Zaroio estavam diante de Capitão, numa espécie de entrevista de RH para decidir o que seria feito com eles. - Qual é o teu nome? - pergunta Capitão para Martiniel. - Sou Martiniel, nasci aqui na comunidade e moro ali na Rua da Curva. - responde Martiniel, cauteloso. Capitão fita Martiniel por minutos, encabulando-o, e voltando-se em seguida para Zaroio. - E tu? - pergunta Capitão para Zaroio. - Sou Edmarcos, mas me chamam de Zaroio, sou vizinho de Martiniel. - responde Zaroio. - Cê sabe o que é fazer parte do movimento, Niel? Posso te chamar assim? - pergunta Capitão. Martiniel acena positivo com a cabeça, mas titubeia antes de responder. - Não sei tanto, me disseram que dá moral da comunidade...- responde o jovem, inseguro. Capitão estava cético. - Quem te disse isso, Niel? Foi esse teu amigo aqui? - pergunta Capitão, severamente, apontando para Zaroio, que se esforça em ficar calmo.. Martiniel começa a se sentir acuado. - Não, não foi o Zaroio! Geral diz isso por aí... - titubeia Martiniel. Capitão levanta-se lentamente. Vai até onde os jovens estavam. - Então, Niel. cê não sabe nem metade do que é ser do movimento! - rebate Capitão, inflexível. Martiniel e Zaroio permaneciam estáticos. Sabiam que Capitão também era famoso por ser imprevisível e passaram a temer muito. - Pé-de-c***a, que se deu com o pivete que entrou pro nosso movimento semana passada? - pergunta Capitão, andando devagar ao redor dos jovens. - Foi apagado pelo outro movimento no domingo, Capitão! - responde Pé-de-c***a, prontamente. - E aquele que estava com a gente a muito tempo, uns dois anos? - continua Capitão. - Apagamos! Era X9! - responde Pé-de-c***a, com uma ponta de animação na voz. Capitão para diante dos jovens e os fita. - Isso é fazer parte do movimento: se vacilar, já era, hoje cês tão aqui, amanhã podem não estar mais! - revela Capitão, que depois volta devagar para o sofá. Seguem-se minutos de silêncio, com Capitão olhando severo para os jovens, silêncio esse só quebrado pelo próprio Capitão. - Quer fazer parte do movimento mesmo assim? - pergunta Capitão, incisivo. - Eu não! Eu só quero ir pra casa! - interrompe Zaroio, irritando Capitão. - Não perguntei a você! - vocifera Capitão. Zaroio tenta não ser tomado pelo pânico. Depois de fitar Zaroio severamente, Capitão volta-se mais calmo para Martiniel. - Niel, é isso mesmo que cê quer? - pergunta pausadamente Capitão, ameaçador. Martiniel pensa em silêncio. Pesa todos os prós e contras de uma decisão afirmativa. - Sim! - responde Martiniel, secamente. Zaroio olha incrédulo para o amigo. - Por quê, Niel? - pergunta Capitão. Martiniel olha por instantes para Capitão. - Porque quero ajudar lá em casa! - responde Martiniel, conformado. Capitão gostou da resposta. - Então já é! - decide Capitão. Pé-de-c***a parece não ter gostado da decisão do chefe. - Capitão, tô vendo caô na conversa deles! - retorquiu Pé-de-c***a. Capitão volta-se para Pé-de-c***a, ameaçador. - Quem decide as coisas no movimento sou eu! Só eu é quem canta de g**o aqui na comunidade, entendeu, Pé-de-c***a? - vocifera Capitão. Pé-de-c***a recua. - Certo, patrão, foi mal... - resigna-se Pé-de-c***a. Em seguida, volta-se mais calmo para Martiniel. - Volte pra casa, bico fechado, esteja aqui amanhã antes do g**o cantar, certo, Niel? - ordena Capitão. - Certo, Capitão! - responde Martiniel. Capitão se dirige para Zaroio. - E tu? Não sei onde te encaixar, Zaroio.. - diz Capitão, olhando decepcionado para Zaroio. - Só quero voltar pra casa! - responde Zaroio, timidamente. Capitão pensa por instantes. - Volta com o teu amigo, vai ficar de bico fechado pra sempre, certo Zaroio? Se vacilar, tu se queima legal comigo! - ordena Capitão a Zaroio. - Certo, Capitão! - responde Zaroio. Capitão se afasta dos dois amigos e acena para dois de seus homens equipados. - Deixem eles na entrada da vila e só voltem depois que eles sumirem das vistas! - ordena Capitão. Os dois homens impelem Martiniel e Zaroio a saírem da casa. Depois Capitão volta a se sentar no sofá - Como tá o movimento, Canivete? - pergunta Capitão para um dos capangas que o aguardavam na casa. - Tá perigando a gente dançar na comunidade da Ladeira, Capitão! Pirata mandou os cara invadir por lá! - responde Canivete, que tem esse nome por andar sempre com um, com o qual fez muitas vítimas. - Pirata ta procurando... Vou ver o que Cavalo mandou pra gente - diz Capitão, impaciente, olhando o celular. - Quem procura acha, Capitão! Resta saber o quê... - filosofa Canivete. - Mandou mensagem falando que vem amanhã de tarde! - responde Capitão. - Que ele venha para ir com a gente para a guerra! - retruca Pé-de-c***a. - Capitão, Pirata tem mais gente! - interpela Canivete, preocupado. - E o que tu acha que Cavalo vem fazer aqui? Ele é aliado nosso, vai resolver a parada com a gente! - retruca Capitão, aborrecido. Enquanto isso, Martiniel e Zaroio são deixados na entrada da comunidade Vinte Léguas pelos capangas de Capitão. Vão embora sem olhar para trás. Quando se aproximam da rua onde moram, Zaroio, cansado, volta-se para Martiniel, assustado. - Vai contar para o teu pai, Martiniel? - pergunta Zaroio, temeroso. Martiniel m*l podia olhar para o amigo. - Agora não! - responde Martiniel, lacônico. - E para a tua mãe? - insiste Zaroio. Martiniel para, aborrecido. - Tu é doido, Zaroio? Se meu pai não pode saber disso, menos ainda minha mãe pode saber! - responde Martiniel, aflito. Algumas moças desciam a rua, o que chamou a atenção dos jovens. - Olha quem vem aí, Martiniel! - diz Zaroio. animando-se, afinal. Martiniel reconhece alguém em particular entre as moças. - Mirna! - exclama Martiniel, admirado. Mirna é uma mulata cobiçada por Martiniel, Ela mora na mesma rua, duas casas depois da de Martiniel, É muito conhecida da familia dele, tanto que já pensaram que eles namoravam, mas eram apenas amigos, por enquanto. - Tá vindo de onde, Martiniel? - pergunta Mirna com um sorriso. Martiniel também sorri. - Vim de jogar bola na quadra! - responde ele. Mirna ri, dando a perceber que a mentira não colou. - Não acredita em mim? Pergunte pro Zaroio! - desafia Martiniel. - É verdade Zaroio?- volta-se Mirna, irônica, ainda sorrindo. Martiniel faz sinal positivo com a cabeça para que Zaroio confirmasse o que ele havia dito. Zaroio titubeia. - É... Bom.. Sim... - gagueja Zaroio. - Zaroio tá vacilando demais! Vocês não jogaram bola! - conclui Mirna. - É que perdemos, aí ficamos sem graça... - emenda Zaroio. - E você vai pra onde? - pergunta Martiniel. - Vamos ver a Ritinha, que acabou de ter um filho! - responde Mirna. - Eita! Dona Filó vai ser avó! - exclama Zaroio. - Até que rimou! - responde Martiniel, Todos riem. - Bom, vou indo! A gente se vê! - despede-se Mirna. - Tá bom! - concorda Martiniel. Então as moças descem a ruela e os jovens continuam a subir. Ao se aproximarem da esquina de uma rua estreita param. Olham para os lados. Começava a escurecer. - Tô indo, Zaroio! A gente se vê no barracão do Capitão amanhã! - despede-se Martiniel. Zaroio não responde logo, aborrecido. Fita o amigo por minutos, contrariado. - Tu me ferrastes legal, Martiniel! Eu não fazer parte disso agora estou obrigado! - retruca Zaroio, irritado. Martiniel faz uma expressão de pesar. - Esquenta não! Vai dar certo! - emenda Martiniel, sentindo-se culpado por ter empurrado o amigo para aquela situação. - Já é! Vamo amanhã sem caô! - conforma-se Zaroio. Os jovens cumprimentam-se de punho. Zaroio segue e Martiniel sobe a rua estreita. Eram quase 6 da tarde. Martiniel conta ou não conta aos seus pais o sucedido?
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