CAPÍTULO 2 — GAROTA

904 Palavras
Alexandre Narrando Mais um dia acordando com o som das árvores balançando pelo vento, o cheiro da neve, junto com a sensação de paz. Levantei, tomei um banho bem quente, coloquei calça, botas e um sobretudo. Do jeito que as árvores estão balançando, já sei que tem geada chegando. Os dias mais frios do mês, quando as estradas ficam interditadas, as pessoas presas em casa e é o meu dia de ir à cidade comprar as coisas que vou precisar durante o mês. Não vivo no luxo como era no tempo da máfia. Minha cabana é simples: quarto, sala e cozinha, tudo na madeira. Preferi assim, para aplacar o frio. Eu nunca fui muito fã do frio, hoje vejo que ele é meu único refúgio. O lugar que tem mais luxo aqui é o banheiro, com água quente, que foi difícil de conseguir fazer chegar aqui em cima, mas nada que o dinheiro vivo não pague. Tem uma banheira também, não por luxo, mas por necessidade. Às vezes me machuco caçando, e a banheira ajuda na dor. Peguei uma mochila com algumas coisas e minha arma. Essa é minha fiel companheira. Ainda não usei, mas, caso precise, estará comigo. A parte r**m de viver escondido é ter sempre que ficar em alerta, esperando o momento em que eles vão me achar, mas uma coisa é certa: não irei sem lutar. Entrei no meu jipe e saí. As estradas estão horríveis. Demorei mais que o normal para chegar à cidade. Eu não costumo entrar e comprar. Todo mês que venho, deixo uma lista e só venho buscar na mesma data. — Como está a estrada hoje? — O Nicolai, dono da única venda que tem na cidade mais próxima, perguntou. — Normal. — Respondi seco. — Para você, que só sai da sua montanha nessa época. — Ele falou. — Trouxe tudo? — Perguntei. — Sim. — Ele falou, me entregando um copo de uísque. — Manda carregar. — Falei e me sentei no balcão. Quando eu ando pela cidade, as pessoas me olham como se eu fosse realmente um bicho. São poucos que ficam por perto, como o Nicolai, porque todos que estavam aqui quando eu entrei deram um jeito de sair ou se afastar. Vilarejo pequeno e pessoas burras que acreditam em lendas ridículas. Depois que ele carregou o jipe, paguei e segui o caminho de volta. Mas as estradas estavam piores ainda. Com a neve e as árvores que geralmente caem nesse tempo, tive que pegar o caminho mais longo. Cheguei à cabana. O dia já tinha ido embora, e a lua já estava clareando o alto da montanha. Parei o jipe na parte de trás e vim andando. Quando amanhecer, eu descarrego. Mas tinha algo estranho, diferente do que eu deixei. Tirei a arma da cinta e fui andando devagar. A porta estava aberta. Olhei em volta e não vi nada, nem carros ou marcas de pneus na neve. Deve ter sido algum animal tentando fugir do frio. Me aproximei e passei pela porta. Entrei mais um pouco e vi alguém caído no chão. Me aproximei mais. Era uma garota, desmaiada. Virei ela de frente para mim. Seu rosto machucado, um vestido velho rasgado, marcas de correntes nos braços e nas canelas. Segurei a mão dela, senti seu pulso, fraco, mas ainda tinha vida. Desci o olhar para suas pernas expostas e machucadas, os dedos dos pés roxos pelo frio. — De onde você veio, garota? — Sussurrei, olhando no seu rosto desacordado. Ninguém nunca chegou tão próximo da minha cabana, quem dirá entrar assim. Mas está na cara que ela fugiu de algum lugar, algum cativeiro. Mas isso não é problema meu. Ela precisa ir embora. — Ei, garota, acorda. — Falei, balançando ela, e nada. Me aproximei. Respiração fraca. Ela deve estar com hipotermia, andando assim nesse frio. Guardei a arma na cinta e peguei ela no colo. Levei ela para o quarto e coloquei na minha cama. Liguei o aquecedor, que me ajuda em noites como essa. Fui até o banheiro e enchi a banheira com água quente. Voltei para o quarto. Ela ainda estava do mesmo jeito, não se mexeu. Peguei ela no colo e levei para o banheiro. Coloquei ela de roupa e tudo. Tirei o vestido que ela usava embaixo da água. E constatei que não era uma garota, e sim uma mulher. Me afastei. Tem muito tempo, muito tempo mesmo, que eu não chego perto de uma mulher. Mas não posso deixar ela assim. Respirei fundo e me aproximei de novo. Passei a esponja nas suas pernas, braços e rosto. Deixei ela embaixo da água quente até melhorar a coloração dos seus pés e dos dedos das mãos. Ela não acorda de jeito nenhum. Tirei ela da banheira, enrolei ela na toalha e coloquei na cama. Ela está tão frágil, desidratada, machucada. Várias partes do seu corpo... Quem fez isso com ela não teve dó. Peguei uma calça de moletom e uma camiseta e coloquei nela. Passei uma pomada nos seus pés e coloquei uma meia. Ficou tudo enorme no seu corpo pequeno, mas é melhor isso do que passar frio. Cobri ela e saí do quarto. Agora é só esperar ela acordar. Não posso ficar com ela aqui. Se ela fugiu, estão atrás dela, e já basta um fugitivo nessa cabana. Ela precisa se recuperar logo e, assim que isso acontecer, vai embora.
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