10. Vicente

1260 Palavras
Benício entrou no carro reclamando que eu estava cedo demais. Pra mim, aquilo era uma boa notícia. Reclamação significava rotina. Rotina significava que, por algumas horas, eu conseguia esquecer que existia um laboratório analisando células tiradas do pescoço do meu filho. — Você falou que tava a duas ruas — ele disse, fechando a porta. — E tava. — Três minutos depois você apareceu. — Duas ruas não é outro estado. Ele jogou a mochila no banco de trás. — Tá me seguindo? — Não. — Tem certeza? — Benício. — Pergunta legítima. Olhei pra ele. — Como foi a escola? — Normal. A palavra me pegou. Normal. Eu queria guardar aquilo. — E o pescoço? Ele bufou. — Acabou o normal. — Só perguntei. — Tá menos dolorido. — Sangrou? — Não. — Inchou? — Não. — Sentiu alguma coisa diferente? Ele virou devagar pra mim. — Você decorou uma lista? — Talvez. — A Carolina te mandou? — A médica. — Pior. Liguei o carro. Antes de arrancar, percebi que ele estava olhando pela janela. — Aconteceu alguma coisa? — Não. — Benício. — Pai, nem tudo que eu fico quieto significa que aconteceu alguma coisa. — Ultimamente significa. Ele ficou alguns segundos sem responder. — Falei pros meus amigos. Minha mão apertou o volante. — O quê? — Que fiz a punção. — Você contou sobre… Parei antes de falar a palavra. Ele percebeu. Claro que percebeu. — Sobre a possibilidade de ser câncer? Olhei pra frente. — É. — Contei. — E? — E nada. Continuaram sendo meus amigos. A resposta tinha ironia, mas também alguma coisa por baixo. — Tava com medo de quê? — Sei lá. Ele mexeu na alça da mochila. — De começarem a me tratar diferente. Entendi mais do que queria. — Trataram? — Um pouco. Depois passou. — E a Clara? Ele virou o rosto rápido. — O que tem a Clara? Quase sorri. — Nada. — Então por que perguntou? — Curiosidade. — Você não tem curiosidade. Você investiga. — É meu trabalho. — Seu trabalho é outro. A frase veio leve, mas ficou dentro de mim. Meu trabalho. Eu não sabia mais exatamente qual era. O telefone vibrou no console. MT. Ignorei. Vibrou de novo. Depois outra vez. Benício olhou. — Pode atender. — Não precisa. — Se for importante? — Se for importante, liga de novo. O telefone tocou. Ele levantou as sobrancelhas. — Parece importante. Atendi pelo viva-voz. — Fala. A voz de MT veio séria. — Precisamos de você aqui. Olhei de relance para Benício. — O que aconteceu? — Kadu se desentendeu com o pessoal da Baixa. Ainda não virou nada, mas tá subindo o tom. Fechei os olhos por um segundo. Claro. — Segura. — Eu tô segurando. — Então continua. — Vicente, eles querem falar com você. — Depois. Silêncio. MT sabia que eu não costumava dizer depois. — Tá bom. Desliguei. Benício me olhava. — Você vai? — Não. — Por minha causa? — Porque eu tô te levando pra casa. — Depois vai? Não respondi na hora. — Talvez. Ele encostou a cabeça no banco. — Você pode ir. — Eu sei. — Eu não vou quebrar. Aquilo me irritou. — Eu não acho que você vai quebrar. — Parece. — Eu só… Parei. Porque nem eu sabia terminar a frase sem parecer exatamente o pai que ele vinha reclamando que eu era. Ele respirou fundo. — Eu sei que você tá com medo. Olhei pra ele. — Todo mundo resolveu falar isso na minha cara agora? — Deve estar muito óbvio. Carolina. Minha mãe. Agora meu filho. — Eu não tô… Ele me encarou. Desisti. — Tá. Eu tô. Benício assentiu como se tivesse vencido uma discussão. — Eu também. Foi simples. Sem drama. Mas alguma coisa em mim cedeu. — Quer que eu fique? Ele pensou. — Hoje? — É. — Quero. Então fiquei. ⸻ Minha mãe fez jantar cedo. Benício comeu quase normal. Quase. Duas vezes levou a mão discretamente ao pescoço antes de engolir. Duas vezes fingiu que não aconteceu. Duas vezes eu vi. Na terceira, abri a boca. Ele apontou o garfo pra mim. — Nem começa. Fechei. Minha mãe sorriu. — Tá aprendendo. — Vocês dois tão se divertindo muito com isso. — Bastante — Benício respondeu. Depois do jantar, ele subiu. Eu fiquei na cozinha. Minha mãe guardava os pratos. — Você devia ir resolver suas coisas. — Ele pediu pra eu ficar. Ela parou. — Pediu? — Pediu. Celina voltou a guardar os pratos, mas eu vi o sorriso. — Não começa. — Não falei nada. — Sua cara falou. — Aprendeu comigo? — Infelizmente. Meu telefone vibrou. Mensagem de Kadu. “Isso tá ficando ruim.” Logo abaixo, outra de MT. “Eu controlo. Fica aí.” Fiquei olhando. Dois mundos. Durante anos eu achei que eram o mesmo. Família, poder, morro, responsabilidade. Tudo misturado. Agora não. Agora existia uma linha. De um lado, gente esperando ordem. Do outro, meu filho esperando resultado. Guardei o telefone. — Você não vai? — minha mãe perguntou. — Não. Ela enxugou as mãos. — Vicente. — O quê? — Não transforma o Benício em motivo pra abandonar tudo de uma hora pra outra e depois jogar esse peso em cima dele. Franzi a testa. — Eu nunca faria isso. — Talvez não de propósito. Ela sentou na minha frente. — Ele precisa do pai. Não precisa acreditar que o pai deixou um mundo inteiro parar por causa dele. Fiquei quieto. Era complicado amar alguém sem fazer o amor parecer dívida. Eu nunca tinha pensado nisso. — E o que eu faço? Minha mãe deu de ombros. — Aprende. Eu ri sem humor. — Todo mundo tá mandando eu aprender alguma coisa. — Talvez porque você passou muitos anos achando que já sabia tudo. Antes que eu respondesse, meu celular tocou. Número desconhecido. Meu coração acelerou. Atendi imediatamente. — Alô? — Senhor Vicente Azevedo? — Sim. — Aqui é do laboratório responsável pela análise do material do Benício. Levantei. Minha mãe parou. — Aconteceu alguma coisa? — O laudo ainda não foi liberado. Estou entrando em contato porque o patologista solicitou complementação da análise e alguns estudos adicionais no material coletado. Meu peito apertou. — Por quê? — O médico responsável poderá explicar melhor quando o laudo estiver concluído. — Isso significa o quê? — Significa apenas que precisam caracterizar melhor as células antes de emitir o resultado definitivo. Apenas. Eu já odiava palavras como aquela. — Vai demorar mais? — Pode acrescentar alguns dias ao prazo. Olhei pra minha mãe. Ela entendeu pela minha cara. — Quanto? — Não consigo informar com precisão. Assim que estiver concluído, o resultado será disponibilizado. — Não. Eu quero saber por que pediram mais análise. — Senhor, eu realmente não posso interpretar isso clinicamente. Fechei os olhos. Mais uma porta que não abria porque eu queria. — Tá. Desliguei. Minha mãe se aproximou. — O que foi? Demorei a responder. — Pediram mais análise. O rosto dela perdeu a cor. — Isso é r**m? — Não sei. Aquela frase de novo. Não sei. Do andar de cima veio uma risada. Benício. Provavelmente no telefone com algum amigo. Minha mãe olhou pro teto. Depois pra mim. — Vai contar? Lembrei da promessa. Nada escondido. Mesmo se fosse r**m. — Vou. Subi a escada devagar. Não porque eu não soubesse o que dizer. Mas porque eu estava começando a entender que dizer a verdade nem sempre significava ter uma resposta.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR