Naquela noite, meu pai ficou no meu quarto até eu mandar ele ir dormir.
Não porque eu quisesse ficar sozinho.
Porque ele estava sentado na cadeira olhando pra mim como se eu pudesse desaparecer se piscasse por muito tempo.
— Pai.
— Hum?
— Vai dormir.
— Tô sem sono.
— Você tá aqui faz quase uma hora sem falar nada.
— Você também.
— O quarto é meu.
Ele me olhou.
— Argumento forte.
— Obrigado.
Vicente levantou, mas parou na porta.
— A Carolina protocolou o pedido da cirurgia no plano.
— Você já falou.
— E vai juntar no processo.
— Também falou.
— Tá.
— Pai.
— O quê?
— Eu não vou esquecer que tenho câncer se você parar de repetir as coisas.
A frase saiu mais dura do que eu pretendia.
Ele ficou quieto.
— Foi m*l.
— Não. Você tem razão.
Aquilo ainda era estranho.
Meu pai admitindo que alguém tinha razão.
— Boa noite.
— Boa noite.
Quando a porta fechou, olhei pro teto.
A cirurgia ainda não tinha data definitiva, mas já não parecia mais uma coisa distante.
A doutora Helena tinha explicado o que pretendia fazer.
A punção do linfonodo tinha confirmado comprometimento.
O pedido estava feito.
Agora faltava autorização, hospital e aquela parte que todo mundo chamava de organização.
Eu chamava de contagem regressiva.
⸻
Nos dois dias seguintes, meu pai passou mais tempo no telefone com Carolina do que comigo.
O que, pela primeira vez, me pareceu ótimo.
Sempre que começava a perguntar alguma coisa sobre o plano, eu apontava pro celular.
— Liga pra sua advogada.
— Ela é sua advogada.
— Então liga pra minha advogada.
Ele não gostava.
Eu gostava muito.
O plano não negou a cirurgia de cara.
O que conseguiu ser ainda mais irritante.
Pediu documento.
Depois outro.
Depois confirmação do hospital.
Depois análise da solicitação completa.
Meu pai começou a andar pela casa com o telefone na mão como se pudesse intimidar o aplicativo.
Carolina apareceu numa tarde e trouxe uma pasta.
— Antes que você pergunte — ela falou assim que entrou —, está em análise prioritária.
— Prioritária há quanto tempo? — meu pai respondeu.
— Vicente.
— Só perguntei.
— Desde ontem.
— Isso não é prioridade.
Eu estava no sofá.
— Vocês conseguem ficar cinco minutos sem discutir?
Os dois responderam juntos:
— Sim.
Minha avó começou a rir na cozinha.
— Impressionante — falei.
Carolina sentou ao meu lado.
— A boa notícia é que o pedido está completo. Helena mandou relatório, indicação cirúrgica, extensão prevista e justificativa.
— E a r**m?
— Ainda não tenho autorização final.
Meu estômago apertou.
Meu pai entrou imediatamente:
— Se não sair, eu pago.
— Eu sei — respondi.
Ele ficou quieto.
Carolina percebeu.
— E, se houver atraso que comprometa a programação médica, eu avalio o que precisa ser levado ao processo imediatamente.
— A cirurgia continua pra semana que vem? — perguntei.
— Helena reservou a data de forma provisória — meu pai respondeu. — Quarta.
Quarta-feira.
Faltavam cinco dias.
Eu olhei pro meu pescoço.
— Tá perto.
Ninguém tentou dizer que não.
⸻
Na segunda-feira, a autorização saiu.
Eu estava na escola.
Dessa vez quem me contou foi Carolina.
Mandou:
“Cirurgia e internação autorizadas conforme solicitação médica. Helena confirmou a programação.”
Li três vezes.
Clara estava sentada do meu lado.
— É o quê?
Entreguei o celular.
Ela leu.
— Quarta?
Assenti.
— Então é mesmo.
— É.
Eu não sabia por que aquilo parecia mais real naquele momento do que quando ouvi “você tem câncer”.
Talvez porque diagnóstico fosse uma palavra.
Cirurgia tinha horário.
Lugar.
Jejum.
Anestesia.
Uma porta por onde eu entraria acordado e sairia sem a tireoide.
Talvez com menos linfonodos.
Talvez com uma cicatriz.
Clara devolveu o telefone.
— Tá com medo?
— Pra c*****o.
— Quer que eu fale que vai dar tudo certo?
— Não.
— Ótimo, porque você já disse que odeia.
Sorri.
— Mas você vai me visitar?
— Se deixarem.
— Meu pai vai fazer interrogatório.
— Eu sobrevivo.
— Não promete.
Ela riu.
⸻
Na terça, fui à escola porque quis.
Meu pai achou absurdo.
Helena disse que eu podia.
Então fui.
Igor apareceu com um pacote de biscoito e colocou na minha mesa.
— Presente pré-operação.
— Você me trouxe biscoito?
— É o que eu consigo pagar.
Malu bateu nele.
— Eu fiz uma carta.
— Muito pior — falei.
— Cala a boca.
Nico me entregou uma foto impressa.
Era nós quatro na quadra, tirada meses antes.
Eu estava rindo.
Sem curativo.
Sem caroço visível.
Sem saber de nada.
Fiquei olhando.
— Pra você lembrar que continua feio depois da cirurgia — ele disse.
— Valeu.
Apertei a foto.
Clara esperou os outros se afastarem.
— Eu não trouxe nada.
— Ainda bem.
— Mas quero uma coisa.
— O quê?
— Me manda mensagem quando acordar.
A brincadeira sumiu.
— Tá.
— Promete?
— Prometo.
Ela respirou fundo.
Depois me abraçou.
Não beijo.
Não declaração.
Só abraço.
Mesmo assim meu coração fez uma coisa i****a.
Talvez câncer não cancelasse adolescência mesmo.
⸻
Na quarta-feira, às cinco e quarenta da manhã, meu pai já estava pronto.
Minha avó também.
Eu queria voltar pra cama.
— Jejum é uma tortura — reclamei.
— Depois você come — Celina respondeu.
— Se eu sobreviver à fome.
— Benício!
— Foi brincadeira, vó.
Meu pai não riu.
No carro, fiquei olhando a cidade acordar.
Eu já tinha passado por aquelas ruas outras vezes.
Mas naquele dia tudo parecia diferente porque eu sabia exatamente pra onde estava indo.
Hospital.
Cirurgia.
Câncer.
Carolina encontrou a gente na entrada.
— Você veio cedo demais — falei.
— Aprendi com seu pai.
— Não me envolve — Vicente respondeu.
Ela conferiu os documentos comigo, não por cima de mim.
Identidade.
Carteirinha.
Autorização.
Internação.
Depois a funcionária colocou uma pulseira no meu braço.
Meu nome.
Data de nascimento.
Eu fiquei olhando.
Paciente.
Era oficial até no pulso.
Subimos de elevador.
Minha avó rezava baixinho.
Meu pai estava calado.
Carolina tinha ficado no térreo resolvendo uma questão administrativa que eu nem quis entender.
Quando o elevador abriu, vi a placa.
7º ANDAR.
Seguimos pelo corredor.
Uma enfermeira apareceu.
— Benício Azevedo?
— Sou eu.
— Bom dia. Sua acomodação já está preparada.
Ela caminhou na frente.
Eu fui atrás.
Meu pai de um lado.
Minha avó do outro.
Até ela parar diante de uma porta.
Olhei o número.
702.
Por algum motivo, fiquei imóvel.
Meu pai percebeu.
— O que foi?
— Nada.
Passei os dedos pela placa.
Setecentos e dois.
Até aquele momento, era só um quarto.
Uma porta.
Um número.
Eu ainda não sabia quantas vezes meu pai dormiria numa cadeira ali.
Quantas notícias entrariam por aquela porta.
Quantas vezes eu odiaria aquelas paredes.
Nem quantas coisas da minha vida começariam a ser divididas entre antes e depois daquele lugar.
A enfermeira abriu.
— Pode entrar.
Respirei fundo.
E entrei no Quarto 702.