Eu nem sei como conheci ele ou como tudo começou. Não sei se foi quando eu só tinha apenas oito anos e ele quase foi preso na frente da minha casa pela polícia, ou se foi aos 13 anos, quando morei um ano com a minha mãe lá onde Judas perdeu as botas.
A verdade é que a memória é um terreno meio caprichoso. Às vezes acho que ele sempre esteve ali, feito uma sombra que eu não sabia se me protegia ou se me assombrava. Aquela cena das luzes da polícia piscando na rua ficou colada na minha mente, mas o isolamento daquele lugar distante onde morei com a minha mãe também nunca saiu de mim.
De um jeito ou de outro, o destino deu um nó nas nossas linhas. E agora, olhando para trás, percebo que cada desencontro daquela época era só o ensaio para o estrago — ou a salvação — que ele faria na minha vida anos mais tarde.
Foi só depois de muito tempo que as coisas começaram a fazer sentido. Entre o susto da infância e a solidão da adolescência, a nossa história foi escrita nos intervalos. Ele nunca foi o tipo de pessoa que pedia licença para entrar; simplesmente aparecia quando eu menos esperava, bagunçando tudo o que eu achava que sabia sobre o mundo e sobre mim mesma.
A gente tinha uma ligação estranha, daquelas que ninguém ao redor conseguia entender.
— e, para ser sincera, nem a gente tentava explicar.
Não sei se ele me via como mulher ou como criança, dependendo do fato de que ele era cinco anos mais velho. Enfim, eu não sei em que momento começou para ele, mas sei exatamente em qual momento começou para mim.
Foi em um dia comum, daqueles que não prometem nada. Ele me olhou de um jeito diferente, ou talvez eu tenha finalmente sustentado o olhar dele por tempo demais. De repente, os cinco anos de distância que sempre pareceram um abismo entre nós sumiram. Eu não era mais apenas a menina que brincava com a irmã dele, e ele não era mais só o playboy ostentador que parecia ser para todo mundo. Naquele segundo, o chão se moveu sob os meus pés, e eu entendi que, dali para frente, nenhum outro amor no mundo seria capaz de apagar o que ele tinha acabado de acender em mim.
Naquela época, a vida na casa da minha mãe era cheia de dificuldades. Para começar, não tínhamos poço de água próprio. Por causa disso, a gente sempre precisava ligar a bomba de água na casa da sogra dela, uma mulher que se chamava Alícia — uma cobra, por sinal. Enfim, lá ia eu ligar aquela bomba horrível, que era muito difícil de fazer funcionar. Como eu odiava aquilo!
Mas, pelo menos para a minha sorte, naquele dia não tinha ninguém lá. A casa não era murada, e a parte de trás, onde ficava a bomba, dava direto na varanda de serviço, o que facilitava o acesso. Lá estava eu, brigando com aquele troço para fazê-lo funcionar, quando a água explodiu na minha cara. O jato alagou toda a varanda e me molhou dos pés à cabeça.
Eu estava ali, encharcada, tentando desesperadamente escorrer toda aquela água para sumir dali antes que a cobra da Alícia aparecesse, quando ouvi a voz dele:
— Bele.
Eu me virei de sobressalto, e lá estava ele, parado, olhando para mim. Naquele instante, eu congelei. Com a roupa colada no corpo e o coração batendo na boca, eu não sabia muito o que fazer.
Ele deu um passo à frente, quebrando o silêncio da varanda, e perguntou:
— Tem alguém aqui?
Respondi rápido:
— Não.
Em um segundo, o mundo inteiro silenciou, e eu senti o gosto quente dos lábios dele nos meus.