Capítulo 8 — Linha Cruzada

1088 Palavras
Luca estava inquieto na cama. Não conseguia dormir. Só pensava em como aquela garota tinha feito aquilo com ele. Como era possível estar rendido em tão pouco tempo? Ele, que sempre teve controle absoluto sobre tudo, agora era dominado por pensamentos que não conseguia calar. A casa dela estava silenciosa. Beatrice já estava de pijama, pronta para dormir, quando ouviu um toque baixo no vidro da varanda. O coração disparou antes mesmo de confirmar quem era. Ela abriu a cortina. Era Luca. Sem terno. Sem postura controlada. Sem armadura. Só ele. Tenso. A mandíbula travada. Ela desceu em silêncio. — O que você está fazendo aqui? — sussurrou. — Preciso falar com você. — Meus pais podem chegar a qualquer momento. — Então me deixa entrar. — Os soldados podem te ver. — Já me resolvi com eles. Agora me deixa entrar. Ela hesitou. Mas deixou. Subiram em silêncio. Cada passo parecia proibido demais. Quando ela fechou a porta do quarto, virou-se para ele. — Então esse é o seu quarto… — ele disse, olhando ao redor, absorvendo cada detalhe como se quisesse entender o mundo dela. — Luca, você enlouqueceu? Ele a olhava diferente. Não era controle. Era algo mais bruto. Mais vulnerável. — Eu não consegui dormir. — E isso é meu problema? — É. O silêncio ficou pesado. Ela tentou manter a postura. — Você veio até aqui pra dizer isso? Poderia ter mandado uma mensagem. Ele deu um passo em direção a ela. — Eu sei que poderia. Mas eu precisava vir aqui. Ela abriu a boca para responder. Mas ele a segurou pela cintura e a puxou. Um das mão passou em volta da sua nuca, trazendo seu rosto para perto do dele. Não houve pedido. O beijo veio sem aviso. Forte. Urgente. Quase desesperado. Os lábios dele a devoravam como uma posse, um fome desesperada. Ela poderia ter empurrado. Não empurrou. Ela queria aquele beijo. O que antes era guerra virou incêndio. — O que você está fazendo comigo? — ele sussurrou contra os lábios dela. Ela não respondeu. Simplesmente não conseguia. A boca dele voltou à dela com ainda mais intensidade. O desejo contido havia desaparecido. As mãos dele subiram pelas costas dela, firmes, quentes, fazendo o corpo dela reagir antes mesmo que a razão acompanhasse. A respiração dela falhou. Ela gemeu contra a boca dele. Ela se perdeu por alguns segundos quando a boca dele encontrou seu pescoço. Quando ele deslizou a mão para frente e puxou o tecido fino do pijama, de imediato ela não percebeu, estava envolvida demais para perceber. Os dedos dele se enterraram nos cabelos longos e macios dela, o desejo já tinha o dominado. Então a outra mão segurou o seu seio pequeno, mas perfeito para ele, segurou com firmeza e um desejo nada contido. Ela congelou, e saiu do transe que estava. — Não. Ele ainda estava tomado pela urgência, não conseguia ouvi-la Ela segurou o pulso dele. — Luca, não. A voz dela mudou. Não era provocação. Era seu limite. Ele parou. O quarto ficou pesado. A respiração dos dois era alta demais para o silêncio que os cercava. — Eu só… — Ainda estava tentando manter o controle. — Você só o quê? — ela disse, agora irritada. — Acha que pode vir aqui e fazer o que quiser? Ele passou a mão pelo rosto. — Eu perdi o controle. — Eu não sou algo que você pega quando sente vontade. Aquilo o atingiu com força. — Você sabe como isso poderia ser um problema se alguém nos pegasse — ela completou, agora mais firme do que nunca. Ela abriu a porta. — Vai embora. Ele tentou dizer algo. Mas tudo o que vinha à mente parecia errado. Saiu. Pela primeira vez, saiu derrotado. ⸻ Beatrice não conseguiu dormir. Ficou encarando o teto, tentando entender até onde aquilo poderia ir. Ainda faltavam dois anos. Tudo estava acontecendo rápido demais para alguém que tinha acabado de surgir oficialmente na sua vida. Precisava colocar um limite nele. Na manhã seguinte, apenas um soldado a acompanhou na caminhada. Luca não apareceu. E ela era orgulhosa demais para perguntar, sabia que não estava errada. Ele estava. No dia seguinte, ele também não apareceu. Nem no outro. Os homens não falavam nada. E ela não perguntava. Beatrice fingiu não ligar. Mas, no fundo, começou a imaginar que talvez ele só quisesse algo fácil. Que talvez quisesse levá-la rápido demais para onde ela não estava pronta para ir. E como não conseguiu, simplesmente desistiu. Por um momento, pensou que tinha vencido aquela guerra. Mas, no fundo… Ela não queria ter vencido. Queria que ele tivesse insistido do jeito certo. Queria que ele tivesse aprendido a conquistá-la. Queria ter sido escolhida, não tomada. — Você está inquieta — Siena comentou no café da manhã. — Não estou. — Está, sim. Beatrice respirou fundo. — Acho que ele desistiu. Siena arqueou a sobrancelha. — Você queria isso. Beatrice ficou em silêncio. Queria? Ela já não sabia mais o que queria. Os pensamentos estavam consumindo cada minuto do seu dia. Ele tinha desistido? Estava com outra? Tinha percebido que ela era complicada demais? E por que isso incomodava tanto? As duas semanas passaram lentas. Pesadas. Ela tentou ignorar o vazio estranho que o sumiço dele deixou. Talvez tivesse vencido. Ou talvez tivesse perdido algo que ainda nem sabia nomear. Siena e Beatrice ainda estavam à mesa, o café já quase frio, quando o som da porta do escritório do pai ecoou pelo corredor. Beatrice não prestou atenção de imediato. Até que viu. Luca saiu do escritório. Impecável. Postura ereta. Rosto fechado. Frio como sempre fora antes de começar a invadir os pensamentos dela. Ele conversava algo breve com o pai. Um aceno discreto. Formal e Profissional. Como se nada tivesse acontecido. Como se não tivesse estado no quarto dela dias atrás. Como se não tivesse perdido o controle. Como se ela não tivesse mandado ele embora. O estômago dela apertou. Ele passou pela sala. Não a olhou. Nem por um segundo. Não diminuiu o passo. Não hesitou. Não procurou seus olhos. A indiferença foi pior do que qualquer discussão. Siena percebeu o silêncio repentino. — Ele estava com papai? Beatrice manteve os olhos fixos na xícara. — Estava. — E você não vai perguntar? Ela demorou a responder. — Não. Mas, por dentro, já tinha entendido. Ele não tinha desaparecido. Ele tinha voltado ao que era antes. Frio. Estratégico. Distante. E, naquele instante, ela teve certeza: Luca tinha desistido do casamento.
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