Capítulo 10 — Destino

1307 Palavras
A porta do quarto ainda vibrava levemente pelo impacto quando Beatrice encostou as costas nela. O som seco da madeira batendo ecoou mais alto do que deveria, como se denunciasse o que ela tentava esconder. O silêncio do corredor contrastava com o caos dentro dela. O ar parecia pesado. Difícil de respirar. Difícil de engolir. Ela não sabia se estava mais furiosa com Luca, com o pai… ou consigo mesma. Não sabia se chorava pela antecipação do casamento ou pelo fato de que, em algum lugar muito profundo, o que mais a machucava era não ter sido consultada. Ela não era uma decisão. Não era um prazo. Não era um acordo. A batida veio suave. — Bea… sou eu. Siena. Beatrice abriu a porta sem responder. Bastou um olhar para que Siena entendesse que não precisava de explicações. Ela entrou e fechou a porta atrás de si. Por alguns segundos, nenhuma das duas falou. O quarto parecia pequeno demais para conter tudo o que estava implícito ali. Então Beatrice desabou. Não foi um choro delicado. Foi um choro preso por tempo demais. Raiva misturada com frustração, orgulho ferido, a sensação de estar sendo movida como peça em um tabuleiro que nunca escolheu jogar. Siena a abraçou forte. — Ele antecipou, não foi? Mamãe me contou por cima. Beatrice assentiu, os olhos vermelhos. — Um mês. Siena se afastou, incrédula. — Ele está louco. — Não. — A voz de Beatrice saiu amarga, controlada à força. — Ele só está acostumado a conseguir tudo o que quer. E ela estava começando a odiar o fato de que, dessa vez, o “tudo” era ela. Siena hesitou por alguns segundos antes de dizer o que sempre parecia a solução mais simples e mais impossível ao mesmo tempo. — Ainda podemos fugir. A palavra pairou no ar. Fugir. Era tentador. Desaparecer. Quebrar o acordo. Romper com tudo. Por um segundo, Beatrice se permitiu imaginar: as duas atravessando fronteiras, trocando nomes, vivendo uma vida que não tivesse sido desenhada antes mesmo de nascerem. Mas, no fundo, sabia que era impossível fugir da máfia. Eles as encontrariam antes mesmo de cruzarem a Itália. Não era uma organização qualquer, e ela sabia Luca era capaz de qualquer coisa para ter o que quer. Beatrice secou as lágrimas com firmeza. — Não. Siena a encarou. — Não vou fugir do meu destino. — A voz dela ficou mais estável. Mais fria. — Eles nos caçariam como presas fáceis. Isso é uma fantasia, Siena. Ela respirou fundo, buscando o que restava do seu orgulho. — Eu vou casar. — Então por que está chorando? Beatrice ergueu o queixo. — Porque ele vai se arrepender. Havia algo diferente no olhar dela agora. Não era mais só dor. Era a raiva tomando conta dela. — Se ele quer me antecipar… eu vou fazer ele perceber que não é tão simples assim. E que eu não sou quem ele pensa. Siena quase sorriu. — Isso parece mais perigoso do que fugir. — Exatamente. ⸻ Na manhã seguinte, o ronco do motor foi impossível de ignorar. Não era o carro habitual. Era maior. Mais chamativo. Mais imponente. Um símbolo silencioso de poder estacionado diante da casa. Beatrice já estava pronta para a caminhada quando o viu encostado ali, reluzente sob a luz da manhã. Luca desceu como se nada tivesse acontecido. Como se a noite anterior não tivesse sido uma guerra. Como se não tivesse colocado uma aliança sobre uma mesa e mudado o rumo da vida dela em poucos segundos. — Bom dia. Ela não respondeu. Como ele conseguia fingir tão bem? Começou a caminhar. Ele a acompanhou. Por alguns metros, só o som dos passos no chão e o vento leve da manhã. — Trouxe o carro porque depois vamos resolver algumas coisas do casamento. Ela parou abruptamente. — Algumas coisas? — Convites. Joias. Comida. Você precisa começar a escolher seu vestido. Ajustes. Ela cruzou os braços. — Você pode decidir tudo sozinho. Faz isso muito bem. Não precisa de mim. Ele a encarou por um segundo, sério. — Não temos tempo para esse tipo de briga. E eu não sei escolher essas coisas. Ela riu, incrédula. — Engraçado. Porque quem decidiu que não temos tempo foi você. Ele ignorou a provocação. — Amanhã você vai conhecer nossa casa também. Ela parou de novo. — Sua casa. — Nossa. — Ele corrigiu, firme. — Onde vamos morar. A palavra “nossa” soou como posse, não como parceria. — Onde é? — Longe daqui. Ela estreitou os olhos. — Quanto é “longe”? Ele sustentou o olhar. — O suficiente. O suficiente para afastá-la. O suficiente para isolá-la. O suficiente para que ela não tivesse para onde correr. — Você vai me tirar da minha família. — Você vai começar a sua. — Não distorce as coisas, Luca! Ele respirou fundo. — É mais seguro. — Para quem? — Para você. — Ou para o seu controle? A tensão voltou a crescer entre eles. A caminhada já não era exercício. Era confronto. — Você acha que eu estou fazendo isso para te punir? — ele perguntou, firme. — Eu não sei mais por qual outro motivo seria. Aquilo atingiu. Mas ele não demonstrou. Porque, se demonstrasse, talvez precisasse admitir que estava antecipando o casamento por motivos que não eram estratégicos. Eram pessoais demais. Possessivos demais. Intensos demais. — Este fim de semana você vai conhecer a casa. — Eu não disse que vou. Ele deu um meio sorriso contido. — Vai. Ela quis discutir mais. Mas sabia que, se continuasse, pisaria em algo mais profundo do que estava preparada para enfrentar. Quando ele a deixou em casa, o clima estava ainda pior. — Você não pode me afastar de tudo o que eu conheço — ela disse antes de entrar em casa. — Eu não estou afastando. Estou protegendo. — Eu não preciso da sua p******o! — Precisa, sim. Ela abriu a porta com força. — Você não manda na minha vida ainda! — Ainda. Ele segurou o olhar dela por um segundo a mais. — Não precisamos discutir toda vez. Mais tarde volto para te buscar. Ela bateu a porta. ⸻ Na sala, encontrou a mãe cercada por tecidos, catálogos e anotações. A mesa estava tomada por amostras de flores, papéis com listas e nomes sublinhados. — Precisamos decidir as flores até amanhã — a mãe disse, como se nada estivesse acontecendo. — E a lista de convidados precisa ser reduzida. A cúpula exige discrição. Beatrice ficou parada. A realidade estava se materializando em detalhes. Flores. Convites. Casa nova. Distância. Um mês. Ela sentiu o peso cair de vez Não era mais uma ameaça distante Era um cronograma. Ela tocou um dos tecidos sobre a mesa. Branco. Delicado. Quase irônico. — Você está feliz? — perguntou à mãe, de repente. A mãe hesitou. — Estou tranquila. É um bom casamento, seu pai me garantiu. Um bom casamento. Beatrice engoliu a resposta que queria dar. O medo que surgiu não foi de casar. Foi de desaparecer dentro da vida de alguém que não sabia ter algo sem dominar. De virar extensão. De virar sobrenome. De virar silêncio. Lá fora, o carro de Luca ainda permaneceu parado por alguns segundos antes de partir. Ele sabia que estava forçando. Sabia que estava apressando. Sabia que ela o odiava um pouco mais naquele momento. Mas também sabia que, se desse espaço demais, poderia perdê-la. E ele não perderia. Não para o tempo. Não para a dúvida. Não para outro homem. Mesmo que isso significasse transformar o casamento no maior campo de batalha que ambos já enfrentaram Mesmo que isso significasse que ela o enfrentaria todos os dias. Ele a teria. Luca não sabia se estava conquistando uma esposa… Ou começando uma guerra que talvez não soubesse vencer.
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