Capítulo 25

1056 Palavras
Terminaram o jantar num silêncio que já não era tão pesado havia naturalidade nas pequenas coisas, nas palavras ditas e nas que ficaram por dizer. Dom empurrou a cadeira para trás, limpou os lábios com um guardanapo e falou com uma voz que tentava soar leve: — Sobe lá e leva suas coisas pro meu quarto. Se prepara pra dormir. Eu arrumo a cozinha aqui. — Estou de castigo, vou ficar alguns dias fazendo tudo sozinho. Marvila levantou-se, e aproximou-se para ajudar a retirar a mesa. Enquanto juntavam os pratos, ela riu baixo, num riso que escondia cansaço e mágoa: — Castigo? Eu não posso te castigar só por isso. Acredite, de bêbado eu entendo — disse, com um ar de quem conta verdades duras. — E o que você fez… não é nada. Ela fez uma pausa, com a voz ficando mais dura, lembrando algo antigo: — Você acredita que, quando o time do meu ex perdia, ele me batia? Eu odeio jogo de futebol. Se vejo uma camisa de futebol, tenho vontade de picar e queimar. Dom parou de guardar os talheres por um instante, olhando para ela com atenção, com uma expressão de surpresa e de respeito por cicatrizes que não se vêem. Ela, retomou o que dizia, mais séria: — Não precisa ficar de castigo por minha causa. Ela limpou a mesa, com o rosto fechado, e perguntou, com uma curiosidade contida: — E a sua irmã, como é? Ele encostou-se ao balcão, pensando por um segundo, e respondeu direto: — Ela é séria. Observadora. Por isso preciso que você se esforce um pouco e aja naturalmente comigo. Pra ela não suspeitar da gente. Marvila suspirou, perguntando já meio brincando, meio aflita: — Hum… naturalmente? Como? O que eu tenho que fazer? Dom sorriu, foi se soltando da tensão, e começou a enumerar, um tanto desajeitado, sorrindo: — Ah, coisas de casal… andar de mãos dadas, abraçar. Faz assim, toda vez que você passar por mim, você me toca, no braço, nas costas, no cabelo. Não precisa ser nada demais. E quando se sentar ao meu lado, a gente segura as mãos, entrelaçadas. Só isso já deve bastar. Marvila ficou séria por um segundo, olhando-o com aquela mistura de cautela e diversão, depois uma risada escapou. — E beijo? — ela provocou. Ele corou, riu meio constrangido, balançando a cabeça: — Ah… acho que não precisa. Não sei o que você quer. Você quer? Ela riu mais alto, sacudindo a cabeça: — Não… acho que não, né? Isso vai ser bem estranho. Saiu rindo envergonhada: — Então eu vou lá arrumar as coisas. Você não precisa ficar de castigo, amanhã eu lavo tudo. Deixa aí, por favor. Ele assentiu, aliviado, notando que não a deixou triste. Havia ali um acordo simples, meio improvisado, mas que servia de mapa para o que vinha pela frente, gestos combinados, meias verdades, e a tentativa de criar um pouco de normalidade dentro daquele caos. Marvila subiu as escadas, pensando no que tinha dito, com receio de ser aceita. Dom ficou na cozinha, encerrando a louça, com os olhos voltados para a porta por onde ela havia saído, se sentia menos só do que havia pensado ficar naquela casa. Marvila subiu à frente, com o coração acelerado só de pensar em dividir a mesma cama com Dom, de novo. Enquanto arrumava suas coisas, tentava se convencer de que estava ficando louca, ou talvez apenas carente demais. Mas, em meio às roupas surradas e lembranças de um passado duro, veio um pensamento inesperado, como seria beijar aquele homem com a barba áspera, algo que ela nunca tinha experimentado. A ideia a deixou nervosa, quase com calor. Reuniu as bolsas e foi até o quarto dele. Começou a guardar as roupas no guarda-roupa, dobrando as dela junto das dele, sentindo o cheiro discreto do perfume que ainda impregnava algumas camisas. Separou roupas sujas dele, arrumou a cama com cuidado, como se estivesse entrando em uma vida que não lhe pertencia. Dom logo apareceu, pronto para dormir. Passou por ela, foi para o banheiro e, surpreso, falou enquanto escovava os dentes: — Nossa, você já colocou suas coisas no banheiro? Gostei de ver, muito bem. Acredite, minha irmã vai reparar em tudo. — Ah, e sobre como nos conhecemos… precisamos decidir isso. Marvila, que ainda guardava algumas peças no armário, foi até a porta do banheiro, apoiando-se no batente. — É, sim, precisamos. Eu vou pensar… me dê alguns minutos. Ela entrou no banheiro e começou a escovar os dentes ao lado dele. Por um instante, trocaram olhares e risadas com as bocas sujas de espuma. Era bobo, mas íntimo. Um jeito tímido de a i********e florescer, quase sem perceberem que já começavam a parecer um casal de verdade. Dom terminou primeiro e foi deitar. Pegou o frasco de óleo corporal que ela usava e o segurou na mão. Quando Marvila saiu do banheiro, ele ergueu o frasco, perguntando com um sorriso leve: — Posso passar? Ela sorriu de volta, apagou a luz principal e deixou apenas o abajur aceso, iluminando o quarto com suavidade. — Claro, pode sim. Eu agradeço, na verdade… porque estou tão cansada. Quando chega essa hora, eu só quero deitar. Mas aí, deito, e a barriga me sufoca, me falta ar. É assim. Dom riu, balançando a cabeça, lembrando-se de detalhes do final da gestação de Ana Carolina, sua falecida esposa. — Eu entendo. Dá pra imaginar. Mas… você tem que tirar essa roupa. Marvila hesitou, com o olhar desconcertado. — Ah… sim, é. A barriga. Espera. Puxou um travesseiro e cobriu da cintura para baixo, foi levantando o vestido devagar até tirá-lo. Ficou apenas de top, com a barriga exposta, grande, reluzente sob a luz do abajur. Mesmo sem óleo, já chamava atenção pelo brilho e pelos movimentos constantes em ondas que a bebê estava fazendo. Dom se aproximou e, assim que começou a espalhar o óleo com movimentos circulares, a bebê deu um chute forte, fazendo a barriga se levantar em um calombo nítido. Ele soltou uma risada, acariciando com cuidado. — Bebê, é hora de dormir. A cena tinha algo de terno, quase sagrado. Dois adultos marcados pela dor, unidos por uma vida que ainda nem tinha nascido, mas já os ligava de um jeito que nenhum dos dois podia mais negar.
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