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1176 Palavras
DAPHNE BRANDÃO Acordei sentindo dor na perna. Tenho uma breve lembrança do que rolou comigo. Depois de tanto fugir, eu cheguei a lugar nenhum, mas também ninguém chegou atrás de mim. Digo, aquele homem lá não conseguiu me acompanhar. Será que eu matei o cara? Eu nunca matei ninguém. Eu só dei uma malada na cara dele, ele se desequilibrou e caiu. Mas também, se ele não tivesse desmaiado, teria vindo atrás de mim. Foi melhor assim. Credo. Mas eu sou de sorte mesmo! Como fui pegar carona logo com o cara perigoso que passou no jornal e eu não vi? Preciso me informar mais sobre esta cidade, sem dúvidas preciso. Então eu cheguei a lugar nenhum e parei para descansar, mas aí eu ouvi disparos vindo em outra direção e me escondi atrás de um arbusto. Deixei até uma mala para trás, do susto que tomei. Depois tudo ficou silêncio na mata. Eu estava tentando ver se tinha alguém por perto. Alguém com quem selar a paz, porque eu já estava fodida dos pés à cabeça neste dia. Eu meio que me desequilibrei ali de cócoras e apoiei a minha mão nas folhas, depois disso teve um disparo e quando eu olhei para minha perna, era ela quem tinha sido acertada! Tudo bem que eu sou da Saúde e sou uma mulher, o que já familiariza com sangue. Mas mesmo assim, ver sangue saindo de um buraco que nem deveria estar ali me apavorou de um jeito que eu logo imaginei que iria sair mais sangue de buracos que também não existiam. Eu fiquei tão aflita com medo de morrer que apaguei. Negócio louco. Eu nunca apaguei por nada. Nunca tinha desmaiado na minha vida. Como a pessoa nunca desmaia e acaba desmaiando bem onde não tem quem me socorra? É ter muita sorte. Mas parece que depois que eu desmaiei, aconteceu alguma coisa. O caçador deve ter visto que eu era a bela donzela machucada e me trouxe para uma casinha. Eu estava numa cama que quando eu me mexia fazia muito barulho. Um casebre simples, não muito diferente da casa que eu morava com minha família. Minhas malas estavam ali do lado. Já me deu uma esperança de não ser roubada. Tentei me levantar, mas a minha perna doía muito. Tirei o cobertor de cima e vi que a minha calça tinha sido rasgada. Agora eu tenho uma calça/short. Fora da moda não estou, mas eu queria saber quem fez isso. O tiro foi na perna mesmo e atravessou de um lado a outro. Tinha um pano embaixo dela sujo de sangue. Não era tanto sangue para eu me preocupar de ter perfurado a artéria, mas ainda sim, estava inflamando. Quando me mexi doeu muito e fui tentar levantar mas não aguentei a dor. Alguém abriu a porta da casa e logo em seguida passou por ela. Um homem com uma sacola branca. Ele aparentava ter uns 40 anos e pela tensão na testa estava preocupado comigo. - A senhora acordou. Eu nem casei ainda e já virei senhora? - Isso mesmo, adivinho! Foi você que me acertou um tiro? - meu lado rude se manifestou. - Não senhora. - E cadê o desgraçado que fez isso? Porque uma mulher reconheceria outra até atrás de um arbusto. Homem que é lerdo mesmo. - O meu senhor tá na casa grande. - E você, quem é na fila do pão? - Eu sou um dos empregados. - ele fechou a porta e colocou a bolsa encima de uma cadeira. - O patrão mandou cuidar de você. - Ah, sério? Foi ele quem me trouxe pra cá? Talvez ele tenha se assustado como eu também fiquei. - Não sei. - ele tirou gase e cremes. Até luvas. Botei fé quando vi as luvas. - Eu vou fazer um curativo na senhora. Passar uma pomada pra miorar esse tiro. - Nunca pensei na minha vida que levaria um tiro. - Tiro de chumbinho não mata... dependendo de onde acertou, é claro. Eu dei um sorriso infeliz e sentei na cama, arrastando a minha perna que estava baleada como um peso morto. Ele até que tinha jeito pra isso. Fazia igual as enfermeiras mesmo. - Você é enfermeiro? - Sou técnico. Fiquei admirada. - O patrão disse que eu tinha jeito pra isso e me botou num curso. Pra o caso de precisar, sabe. E sempre precisa. - Então ele anda atirando em todo mundo que vê? - eu sugeri. - Não senhora. - ele riu. - Tem muito peão na fazenda e vez ou outra um deles se machuca. A fazenda é longe da cidade. O que a senhora faz aqui? - Tô perdida. - apertei meus olhos por causa da dor forte causada pelo produto que ele passava. - O que é isso? - É pra desinfectar. - Dói pra c****e! - continuei com a careta e ele continuou fazendo. Para ver se me distraia eu olhei os cantos da casa. - Que casa é essa? - É a casa do patrão. - Seu patrão? Mas ele mora aqui? - Não. Ele morava quando criança. - ele contou com um sorriso animado. - Ata. - olhei de novo para minha perna. Este homem fazia o curativo com uma felicidade. E foi de repente que ele ficou assim. Medo. Fiquei com medo. Vai que é outro tarado? Belo Monte é o lugar de tarado, será a minha conclusão se este também for. - Sabe, dona. Essas terras não vêem uma mulher há muitos anos. - Sério? - Sim. Uns 5 anos ou mais. - Por que não? - O patrão não gosta de mulher. Cheiro de misógino... - Ah, então tá explicado porque ele atirou em mim! Ele riu. Ele deve ter me visto e aproveitou pra atirar. "Menos uma p**a no mundo" ele deve ter pensado. - Então só homem trabalha na fazenda do seu patrão? - concluí, juntando as sobrancelhas. - Isso mesmo. Meu pai do céu... Não que seja uma coisa errada e impossível. Mas o machismo que deve ser nesse lugar... se o patrão não gosta de mulher, já começa por aí. Ou será que ele não gosta de mulher no sentido s****l? Também pode ser os dois. Eu nem quero perguntar mais nada. Ele continuou fazendo o curativo e quando terminou, tirou todas as coisas e também a luva e colocou numa sacolinha. Bem profissional ele. O curativo ficou bom. - O nosso cozinheiro fez essa marmita pra senhora. - ele tirou de dentro da bolsa. Tinha os talheres num saquinho, encima da marmita e eu peguei tudo. - Nossa! Obrigada. - fiquei bem contente. - Aí a senhora fica aí que amanhã eu venho pra fazer o curativo de novo. Amanhã eu não estarei mais aqui, moço. Assim que o dia clarear eu sairei a procura da fazenda Molina e da minha sobrinha. Só preciso encher o bucho e dormir, já que tem uma cama. Ele deu "boa noite" e foi embora trancando a porta. Onde eu vim parar hein?
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