Passamos mais um ano naquela casa, um tempo que parecia suspenso entre a dor e a sobrevivência. No meio do caos e das acusações que sofremos, a mãe do meu pai foi o nosso porto seguro. Diferente de outros familiares, ela nunca apontou o dedo para ninguém; ela apenas entregou tudo nas mãos de Deus e continuou nos amando profundamente. Eu ia à igreja com ela, buscando ali um pouco de paz, mas o meu mundo interior ainda era agitado.
Eu continuava vendo coisas que não pertencem a este mundo. Eram visões, vultos e presenças que pareciam me seguir, lembrando-me constantemente de que o véu entre a vida e a morte era muito fino para mim. Mesmo assim, aos poucos, eu e meu irmão estávamos tentando aprender a viver novamente, a encontrar alegria no meio das cicatrizes que o abandono e a morte haviam deixado.
Quando completei cinco anos, o destino resolveu mudar o cenário. Novos vizinhos se mudaram para perto da casa do meu avô materno, e eles trouxeram um carinho que a gente não esperava. Eles nos tratavam muito bem: levavam a gente para a igreja, cuidavam de nós com paciência e eu me lembro com doçura de como penteavam meus cabelos cacheados. Era um cuidado que nos fazia sentir vistos e protegidos.
Foi através dessa nova amizade que a vida da minha mãe também começou a mudar. Ela acabou se apaixonando pelo filho dessa família. Parecia que, finalmente, uma porta estava se abrindo para que pudéssemos sair daquele ambiente pesado e começar uma nova história. m*l sabíamos nós que esse novo amor traria capítulos inteiros de superação para a nossa jornada, que ainda estava apenas no começo