Takino Narrando
Eu tinha 19 anos e era um rapaz muito introspectivo, fechado em meu mundo. Segundo ano da faculdade, era criado e treinado para assumir o lugar dos meus pais nas empresas.
Faziam 15 anos que estávamos no Brasil, mas fui criado na cultura japonesa. Meus pais saíram de Tokio comigo pequeno, mas a educação no Japão é rigorosa. Montaram uma empresa de produtos alimentícios aqui e 15 anos depois, era uma potência! Eu já falava japonês, inglês, coreano, arabe, francês e português, claro!
Sempre gostei da cultura brasileira, queria que meus pais entendessem que estávamos no Brasil e que as ações aqui eram muito diferentes. Mas não! Eu não tinha permissão para ir a festas, happy hour depois da faculdade, beber com amigos…
Aliás, não tinha permissão para ter amigos brasileiros. O intuito era me passar a direção da empresa quando eu terminasse a faculdade, e tudo estava milimetricamente planejado pra eu estar preparado para esse momento.
A tradição dos Mamioto no Japão é simples: cria uma empresa gigantesca, trabalha duro para ela crescer cada vez mais e cria seu filho no rigor, para quando ele se formar, assumir seu lugar na direção e te sustentar em sua velhice.
— Entenda Takino: brasileiro não tem visão de futuro. Eles gastam tudo o que ganham com festas, bebidas e mulheres, depois pedem dinheiro emprestado aos bancos e pagam juros abusivos, para terem mais para gastar com festas e bebidas! Esse povo tem o pensamento pequeno e não são companhia para você!
— Papa, se você despreza tanto o brasileiro, porque resolveu vir montar sua empresa aqui?
— Porque só tem uma coisa que brasileiro gosta mais do que promiscuidade e bebida alcoólica, Takino. Comida! Esse povo barulhento tem como sinônimo de diversão, reunir os cinco filhos que cada família costuma ter, com suas esposas e maridos e a renca de netos em volta da mesa! Preparam vários pratos diferentes, comida para um batalhão, sempre um não gosta disso, o outro não gosta daquilo, acabam consumindo álcool, discutindo, as vezes saí até pancadaria, até a Mama da família colocar a sobremesa na mesa e a paz reina! E quanto mais pobre, mais qualidade exige nos produtos que vai usar. Com o investimento certo e o uso dos incentivos fiscais, tudo que você produzir neste país que é de comer, vende!
Assim foi minha criação, aprendi que eu era superior aos brasileiros, que não tinham visão de futuro. Nossa empresa tinha incentivos fiscais por conta da geração de empregos no país, tínhamos fábricas em todas as regiões, várias distribuidoras. Em cada cidade desse imenso país, a gente tinha nossos produtos. De cada dez famílias, pelo menos oito consumiam nossos produtos e pela qualidade, estávamos exportando como empresa brasileira. E mesmo assim, meus pais consideravam o brasileiro a ralé!
Alguns colegas da faculdade começaram a me desafiar, me provocar. Me chamavam de nerd filhinho de papai! Tinha um outro rapaz filho de j*******s, que um dia me disse uma coisa interessante:
— Quando a gente era menor de idade e estudava no colégio, nossos pais conseguiam nos controlar totalmente! Eu sentia que até meus pensamentos eram controlados por eles! Mas agora estamos na faculdade, somos considerados adultos. Se você desmanchar a cara amarrada, sorrir, flertar com umas gatas, dar uns beijos no intervalo, ninguém vai correndo contar para seus pais. Você não vai para a diretoria, aguardar seu pai vir te buscar!
Depois disso, nos tornamos amigos e eu comecei a ver a vida de uma forma mais leve. Fui sentindo, me enturmando, ficando mais bem humorado. Até o dia que recebemos o aviso de que o prédio não poderia prestar atendimento, então não haveria aulas. O pessoal combinou de irem em um clube privê.
Me lembrei do meu amigo me dizendo que ninguém iria mandar uma notificação para o meu pai de que não haveria aulas! Então me juntei a eles e perdi minha virgindade naquele dia, com uma morena do cabelo liso até a bundä. Lindíssima! Peguei o contato dela, comecei a contratar os serviços dela por fora, sempre que tinha oportunidade.
Menino bobo, cabação, acabei me apaixonando pela menina e foi a primeira vez que que desafiei meu pai, e apanhei na cara! Ele deu sumiço na moça, começou a controlar meus gastos e dar muito mais serviço no escritório.
Eu não conseguia nem respirar com tudo o que eu tinha que fazer, não tinha permissão de gastar absolutamente nada que ele não autorizasse com antecedência, nem de falar com ele levantando a cabeça:
— Você vai virar um homem, Takino! vai conhecer uma boa moça para se casar e eu vou ter que aprovar! Quando você tiver casado, formado, consolidado na vida, vou saber que cumpri minha obrigação! Volto para minha casa e deixou você fazer o que quiser, e vou saber que vai tomar as melhores decisões, porque não estou permitindo tomar decisões vazias agora, sem pensar no futuro!
Assim eu passei todos os anos finais da faculdade. Quando me formei, queria começar a procurar minha esposa logo. Assim, eu despachava meu pai pro Japão e poderia respirar, viver, deixar de ser o robô que ele me fazia!
Mas isso não foi possível, ele também não permitiu. Foram 3 anos viajando, assinando contratos.
Quando voltei, que me fixei no escritório, percebi um problema estrutural que nossa empresa tinha:
— Pai, a lei no Brasil agora, é que cada contratação ou demissão de funcionários, tenha um exame físico.
— Eu sei, pra garantir que o funcionário tenha capacidade laboral ou que, ao ser demitido, não tenha adquirido doenças laborais. Estamos cumprindo essa exigência, não sei porque você está falando disso.
— Estou falando, papai, porque não é inteligente nem econômico a gente pagar uma clínica pra fazer esses exames pra gente! Temos um grande fluxo de funcionários em nossas empresas. Então, eu sugiro termos nossa própria clínica.
— Você acha que vale a pena?
— Muito, papai. Isso é gerir bem nossos recursos.
— Manter uma clínica só pra fazer exames admissionais e demissionais? Isso não seria dispendioso?
— Não se usarmos esse recurso para reduzir o absenteísmo também!
— Não entendi isso!
— Pai, eu estudei e vi modelos por todo o mundo. E sei que funciona. Nós montamos nossa clínica, só nas capitais, onde tem maior fluxo de colaboradores e também de absenteísmo. Por ter nossa própria clínica, não precisamos fornecer planos de saúde para os funcionários, mas entra como benefício, que podemos descontar uma pequena parcela mensal deles. O montante desses descontos é que vai pagar a manutenção da clínica e os profissionais.
— E os que não quiserem aderir?
— Não tem problema, não é obrigatório. Mas não aceitamos atestados e declarações de horas que não forem emergências.
— Entendi. Assim, os funcionários que vão atrás de atestados na segunda feira por conta de ressaca ou preguiça, vão deixar de faltar!
— E os que acordam atrasados e vão para os postos de saúde atrás de declaração de horas também.
— Isso é legal? Não vamos ter problemas com a justiça trabalhista?
— De forma nenhuma! Vamos ter até mais alguns incentivos. Assistência médica para todos os funcionários, desde o chão da fábrica até os executivos, é uma ação pioneira e humanitária. Vai desafogar os postos de saúde e hospitais para atendimento da população que realmente precisa. E nossos funcionários que tiverem realmente necessidade de atendimento, nossa clínica vai encaminhar. Esses atestados não podemos evitar. Mas sabemos que pagamos o justo!
— Então mete bala.
Levei oito meses pra fazer a estrutura , planejar todos os gastos, ter uma noção de pessoal. Agora iria começar a contratar pessoal. Já tinha dois médicos clínicos gerais para a equipe de São Paulo, nossa primeira clínica. Iríamos trabalhar essa clínica e dependendo dos resultados, começaria nas outras capitais. Os dois médicos estavam comigo para as entrevistas de enfermeiros e auxiliares e eu estava totalmente entediado. Até que aquela loira linda e sorridente entrou, visivelmente nervosa, para a entrevista...