Isso foi um flerte?

1080 Palavras
Comecei a preparar tudo, trêmula, e nem olhava pra ele. Tentei me lembrar da sequência do material que iria precisar, mas tudo me fugiu. Meu Deus, eu fiz planos! Eu me matriculei no técnico ali perto, já tinha pago a matrícula e o material! Mas depois de ser demitida, não conseguiria pagar condução e o curso em uma escola ali. Eu morava longe pra caramba e quando ia a pé pro outro curso, eu trabalhava só seis horas por dia! E claro que ele iria me demitir depois de ver o tanto que eu era atrapalhada. Mas de novo, achei que ele estava se divertindo: — Qual seu nome? — Catarina Pereira, senhor. — E porque você está tão nervosa, Catarina? O que eu iria responder? Que eu achava ele o único j**a bonito na vida? Que a boca carnuda dele me excitava e me fazia querer ser beijada em lugares que eu nunca nem imaginei que a boca de um homem pudesse chegar? Que os dedos finos e longos dele me faziam imaginar ele enfiando em lugares do meu corpo que nem eu me atrevia a tocar? Tentei responder e minha voz falhou. Porque estava rouca daquele jeito? Pigarreei, tentei novamente: — Não é sempre que a gente atende nosso chefe no primeiro dia de serviço. — Então estou te intimidando! Tente esquecer quem eu sou. — Como se isso fosse possível! Soube que o senhor viria aqui pra checar pessoalmente o andamento da clínica. Mas não imaginei que viria para um atendimento, e se me passasse pela cabeça isso, teria a certeza que iria preferir ser atendido pela Marielle, a enfermeira chefe. Não por uma auxiliar. — Conheço a Marielle desde criança, Catarina. Eu sei o potencial profissional dela. Mas não vim aqui para fazer um check-up. — Claro que não. O senhor deve ser atendido do Sírio Libanês pra isso! — Você fala isso com desprezo! Você me despreza, Catarina? — Não, senhor. Nem te conheço! Estava ficando ainda mais nervosa! Claro que ele estava puxando assunto pra ver que eu iria ficar de papo com os pacientes, não iria fazer meu serviço e demandar tempo demais em um atendimento. Eu seria demitida, com certeza, ao final daquela consulta! E saber disso me trouxe uma calma surpreendente. Se eu fosse demitida, não seria por não saber fazer meu trabalho! Organizei tudo em minha cabeça e consegui então organizar o material. Enquanto ele falava, coloquei o termômetro, o medidor de batimentos. Me desliguei de quem estava ali. Era só um paciente e eu tinha um check list pra cumprir. Auferi a pressão dele e comecei a fazer as perguntas de praxe para a ficha. Descobri que ele tinha 29 anos, era solteiro sem filhos. Ainda com sorriso na voz, ele ia respondendo e aquilo foi me deixando mais calma. Consegui fazer todo o atendimento e só fiquei nervosa de novo na hora de auferir a pressão, que percebi que os braços dele eram bastante musculosos. Eu precisava mesmo terminar aquilo. Pra aquele homem sair da minha sala e eu parar de ter pensamentos libidinosos com ele! Quando pedi pra assinar a ficha, ele disse: — No Sírio Libanês nunca fui tão bem avaliado, vendo uma profissional deixar de ser emocionada e me tratar como uma pessoa comum, um paciente como outro qualquer! Meus parabéns. Vejo que fiz uma escolha excelente! — O senhor me escolheu? — Sim. Nem deixei os médicos pensarem e decidi que você estaria na equipe. — E porque? — Pelo mesmo motivo que vim aqui hoje! Se eu não te contratasse, como poderia continuar te vendo sempre que quisesse? Boquiaberta, fiquei pensando se teria entendido direito: ele disse mesmo que queria me ver? Que me contratou pela minha pessoa? Ele estava flertando comigo? — O senhor está insinuando que me contratou com intenções de envolvimento pessoal? — perguntei, realmente ofendida! Não gostei disso. Estudei e estava estudando pra ser reconhecida como uma profissional de saúde, não um pedaço de carne! — De forma alguma! Isso seria assédio s****l e eu jamais faria algo desse tipo! Se essa fosse a intenção, eu não te contrataria. — Isso é muito bom. Porque onde se ganha o pão não se come a carne. O senhor está liberado. Sua saúde está perfeita e o senhor está apto a realizar suas funções. Se me der licença, tenho outros pacientes para atender. — Se desarma, Catarina. Eu realmente gostei muito de você e sua companhia. Gostaria de conhecer você melhor, fora do nosso ambiente de trabalho. Por isso, gostaria de saber se você não quer tomar alguma coisa depois do expediente. E antes que você me acuse de estar te assediando, é apenas uma conversa pra gente se conhecer. — Obrigada. É gentil de sua parte, mas não posso. Hoje minha irmã vai passar aqui pra voltarmos juntas pra casa, tenho assuntos de família para resolver! — Me passa seu número, e combinamos pra amanhã, então. — O senhor quer meu número? — Sim, foi o que pedi! — Vou te passar, senhor Mamioto: 9, 3, 200, 50, 18, 0. — Tem dez números, esse número não faz sentido, Catarina! — Ah, faz sim, senhor Mamioto. Vou te explicar: 9 é o número de pessoas que moram na minha casa. Eram dez, mas meu irmão vive no quartel agora. Ele é do serviço militar. 3 é o número de quartos que tem nessa casa pra agregar essa família numerosa. 200 é o número de minutos que levo pra chegar em minha casa de condução depois que saio daqui. 50 é a porcentagem do meu salário que dou para meus pais pra ajudar a sustentar a casa. 18 é o número de meses que faltam pra eu concluir o curso de técnico em enfermagem e dar mais um passo em minha formação e 0 é o valor que tenho em minha conta bancária! Então, senhor Mamioto, quando o senhor junta todos esses números, percebe que não tem um número de telefone lógico, mas tem um passe para cair fora, porque ele mostra os quilômetros de distância que tem entre a minha realidade e a sua. Agora, como essa sala e toda a clínica pertence ao senhor, como não quer sair, saio eu. Boa tarde. Eu saí da sala, trêmula, tentando entender onde achei coragem pra falar com meu chefe daquela maneira! Mas ele mereceu. Esses riquinhos tem que entender que não é qualquer moça de família que cai na lábia deles!
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