— Por que está tão feliz, Gargia?
Jeremiah levantou as sobrancelhas diante da indagação de seu parceiro. Desde que pegaram a primeira pista do motivo do crime, Richard havia saído da delegacia apenas para comer. Faltava apenas duas horas para o fim do dia quando o detetive voltou da casa de seus pais, após uma longa conversa com sua filha de dez anos. Ainda não sentia sono e, embora possuísse o cansaço notório, Gargia não conseguia segurar a felicidade que trocar palavras com sua filha lhe fornecia.
— Por que a pergunta? — rebateu Jeremiah enquanto lia rapidamente as anotações organizadas por Lawrence.
— São dez horas da noite e você está sorrindo como um i****a. — disse Richard irritado.
— Não sabia que havia se tornado fiscal do sorriso, Lawrence. Quanto você ganha para realizar essa tão importante missão?
Richard bufou com a forma sarcástica que seu parceiro de trabalho agiu.
— Fiz uma lista com os funcionários mais propensos a criar uma conspiração, mas parece que os únicos que poderiam ganhar alguma coisa com a morte dos Levitans são os próprios Levitans — explicou Lawrence mostrando uma lista de suspeitos para depor.
Jeremiah franziu as sobrancelhas assim que o nome da Levitan mais nova apareceu no papel.
— Acha que Marie pode estar por trás disso?
— Eu acho — respondeu Lawrence com cuidado — que qualquer um pode ser o autor do crime.
— E eu acho que devemos esperar o depoimento dela. Eu a vi quando foi liberta, Richard. Ela estava à beira da loucura. Marie é uma das vítimas, não o contrário. — justificou Gargia.
O detetive Lawrence encarou o seu parceiro como se o mesmo fosse um inseto desagradável. Jeremiah, no entanto, não deixou-se abalar com tal comportamento.
— Bem, você me chamou por um motivo, não é? — mudou de assunto Gargia, o qual não tinha pretensão de continuar aquele jogo de gato e rato.
— Encontramos a arma do crime a três quilômetros da casa — disse Daniel entrando de súbito no escritório de Jeremiah. — Em pouco tempo teremos resultado da análise do sangue da arma, mas o corte nas vítimas é típico do modelo do facão encontrado.
Stifler andou até o seu amigo com seus passos de gato, como se estivesse desfilando em uma passarela de moda, até entregar-lhe a imagem da peça.
— A faca tinha 45 centímetros e é nova, afiadíssima. Certeza que comprada apenas para esse ato. — acrescentou o perito.
— Era militar ou artesanal? — indagou Gargia enquanto encarava a imagem em suas mãos.
— Militar. — respondeu Stifler — Ah, já sabemos o modelo do sapato das pegadas: tênis Nike, provavelmente o modelo Wmns, tamanho trinta e cinco.
— Então, nosso assassino é uma mulher? — sugeriu Gargia ao escrever o nome “mulher?” na parte do quadro em que organizava o perfil do assassino.
— Só porque tem pé pequeno você acha isso? — indagou Stifler com um sorriso zombeteiro.
— Como ninguém conseguiu vencê-la? Digo, ela estava com um facão contra quatro pessoas. Ninguém tentou fugir? — sugeriu Jeremiah, ignorando a insinuação do perito.
— Esse tipo de crime não se comete sozinho, detetive. Muito menos um bem planejado como tal. — explicou Richard.
Os três homens ficaram em silêncio, cada um entrando em um mar de ideais diferentes e inclinando-se para um ou outro detalhe que mais lhe intrigava. Daniel foi o primeiro a desistir e se despediu, dizendo que não era pago para resolver mistérios, “o único mistério que eu gosto de desvendar são os de Stephen King. O resto eu dispenso”, acrescentou Stifler antes de ir.
— Eu também estou indo. Só começaremos a ir a algum lugar quando formos pegar os depoimentos. Até lá é melhor descansar. — falou Richard antes de desaparecer da delegacia e voltar para sua casa.
Depois de minutos encarando a imagem que tirou da internet da família Levitan, Jeremiah saiu andando pelo prédio do departamento de polícia que estava tão vazio quanto naquela manhã. Apenas poucos detetives cumpriam o turno da noite e a maioria dos policiais faziam ronda pelos bairros da cidade de Lee’s Summit. Após dar boa noite a um policial que sempre via durante a noite, mas não fazia ideia o nome, Jeremiah Gargia voltou para casa com a certeza que seria uma daquelas noites difíceis demais para dormir.