Era um dia ensolarado em Pilgrim, os pássaros cantavam e as crianças brincavam. O céu estava limpo e azulado, contagiando alegria a todos que o olhavam.
Peter Hood, James Pendleton e Ethan Miles estavam sentados num parquinho, jogando cartas em cima de um banco.
- GAMES! - gritou James.
- Ah, isso não vale! Você roubou. - reclamou Ethan.
- Eu nunca roubo, sempre joguei limpo. - disse James, todo metido.
- Não ganhou não, essa carta aqui é um número 6, e não um número 9. - protestou Peter, mostrando que a carta de James estava invertida.
- d***a! - exclamou o jovem Pendleton.
- Eu te salvei da derrota Ethan, me deve uma. - disse Peter, com o peito estufado de orgulho.
- Até eu ganhar de vocês! - disse Ethan, animado.
- Todo mundo sabe que você é péssimo nesse jogo. - disseram James e Peter ao mesmo tempo.
Ethan emburrou a cara.
De repente ele leva um banho de lama, ficando sujo dos pés à cabeça.
Ethan fica estático enquanto tira a terra de seus olhos, e quando se vira para ver, uns valentões mais velhos do que eles estavam rindo e caçoando de Ethan.
- Ei! Seu o****o, viemos trazer boas notícias. - um deles o insultou.
Ethan se levantou tentando tirar a terra molhada de seu cabelo.
- Você disse que queria entrar pro Striker né? O irmão mais velho do Thomas falou que você podia entrar quando fosse mais velho... mas como garoto da água!
Eles caiam na gargalhada, e um deles empurra Ethan, que cai por cima do banquinho, derrubando todas as cartas no chão.
- Bem vindo ao clube, seu mané! - gritou outro deles, fazendo todos eles rirem.
- Ei, o****o! - gritou James.
O rapaz virou e o banco voou na cara dele.
- Com quem você pensa que tá se metendo, pivete? - outro falou.
Mas uma pedra voou na cabeça dele, e ele se virou pra direita, e viu Peter com várias outras na mão, pronto para jogar.
- Vai encarar, bonzão? - Peter o desafiou.
Os valentões se sentiram intimidados com os olhares ameaçadores que Peter e James lançaram a eles.
- V-Vocês vão ver só! - disse um deles, e foram embora.
- É isso aí! É melhor correr, bando de m*****s! - gritou James.
Peter jogou outra pedra neles, os botando pra correr.
- Melhor voltarem com reforço da próxima vez! - James ainda gritou, vendo eles desaparecerem após dobrarem a esquina.
Peter foi acudir Ethan:
- Você está bem cara? Se machucou?
Ethan sentou no chão, com uma cara de dor, olhando seu joelho ralado.
- Pressione pelas bordas, assim, vai diminuir a dor. - disse Peter, ensinando a Ethan, pondo as mãos do amigo sobre o machucado.
James se juntou a eles.
- Tá me devendo outra agora, Ethan.
Ethan resmungou.
- Enquanto nós estivermos aqui, ninguém vai caçoar de você na nossa frente, cara. - disse James.
- É por isso que eles mexem comigo? Por que sou mais fraco que vocês dois?
- Não fala assim. - disse James.
- É, vem, vamos te ajudar a levantar.
James e Peter seguraram Ethan, cada um por um braço, e o levantaram.
- Melhor limpar isso aí logo, do jeito que sua saúde é frágil, você pode acabar ficando doente. - advertiu Peter.
- Minha mãe vai me m***r. - disse Ethan, preocupado.
- Vamos com você até lá. - disse James.
E os três amigos foram juntos pelo caminho, James e Peter foram andando devagar para acompanhar o passo de Ethan, que estava mancando. Eles conversavam alegremente.
- Mas é claro que o Jordan é o melhor! Já viu as enterradas dele?! - disse James.
- O LeBron ainda é mais ágil, você n******e contestar isso! - rebateu Peter.
Os dois discutiam sobre basquete, e Ethan, apesar de não gostar de nenhum esporte, gostava de ouvir os dois amigos.
- Tá, tá. Aí Peter, tá afim de dormir lá em casa hoje? Meu pai trouxe uma caixa cheia de filmes antigos de ação pra nós. Você também está convidado, Ethan.
Peter ficou um pouco constrangido.
- Eu já dormi na sua casa semana passada, James, será que sua mãe não vai ficar incomodada?
- Pff, quem você acha que te convidou?
Peter sempre se sentiu muito bem acolhido pelos Pendletons.
- Está bem, eu vou.
- E você, perna de p*u? - perguntou James a Ethan.
- Hm? Eu? Se minha mãe não me m***r por ter machucado a perna, eu apareço por lá.
- Demorou. - disse James, satisfeito.
Eles deixaram Ethan na porta de casa, e se despediram acenando para ele.
Em seguida James e Peter Hood seguiram direto para a Rua da Colina.
- Ahn... James, eu tenho que passar no orfanato para pegar meu travesseiro e...
- Não esquenta, já temos um pra você lá em casa.
- Não precisavam se incomodar...
- Relaxa, você é da família, você é meu irmão! - James abraçou Peter de ombros.
Não demorou muito, e eles chegaram. Peter se lembrava do endereço da casa:
"Rua da Colina, casa A, n° 173"
Ele achava difícil não saber, já que tinha uma placa enorme e verde na calçada.
Ao entrar, ele sentiu o cheiro de comida gostosa no ar, cheiro que a casa dos Pendletons sempre teve.
- Chegamos mãe! - anunciou James.
Megan Mason, a mãe de James, gritou alguma coisa impossível de ser compreendida pelos garotos, mas ainda assim entenderam como uma resposta, e imediatamente James subiu a escada.
- Você não vem? - James chamou ele.
- Não devíamos ir falar com sua mãe primeiro?
- Nahh... vou te mostrar o sótão primeiro, eu e meu pai instalamos uma TV com DVD hoje mais cedo. Ele deixou a caixa cheia dos filmes que eu falei.
Peter então o acompanhou, e eles passaram pela escada até o segundo andar, onde o pequeno Peter avistou uma máscara de gás pendurada em uma parede acima de uma cômoda. Mas logo ele se esqueceu disso quando James desceu a escada que levava até o sótão.
- Que tal?
- Você primeiro. - insistiu Peter.
James subiu animado, Peter veio logo depois, e ficou estonteante com a visão que teve, um sótão enorme com um tapete e três camas uma do lado da outra.
Logo à frente tinha uma TV grande com um DVD e uma caixa enorme cheia de filmes para eles assistirem.
Um tempo depois, James mostrava para Peter cada um dos filmes daquela caixa, até que eles ouvem uma conversa no andar de baixo:
- Seus doces são os melhores, tia Megan!
Era Ethan, que instantes depois, com a ajuda de Megan, conseguiu subir, e ele surge com um pote grande, cheio de doces e salgadinhos.
Peter e James repararam que sua perna estava enfaixada e ele estava de banho tomado.
- Você demorou, achei que a tia Sherry tinha matado você. - brincou James, sorridente.
Ethan foi até eles, ainda mancando um pouco, e pôs o pote no chão, no meio deles.
- Esses são os filmes? - perguntou ele.
- Sim, estávamos esperando você chegar pra decidir. - disse James.
Depois de um tempo analisando as opções, Ethan sugeriu um:
- Que tal bad boys?
- Com Will Smith? - perguntou Peter.
- O segundo filme estreou esse ano, então por que não? - concordou James.
E eles ficaram assistindo e rindo bastante, eles se divertiam pra valer enquanto estavam juntos, eram momentos inesquecíveis para Peter Hood.
Ethan, apesar de ser normalmente desvalorizado pelos outros, estava sempre sorrindo.
- James, e quanto ao seu pai? Não vi ele por aqui. - disse Ethan.
- Ele foi viajar, tem que resolver algumas coisas amanhã cedo em outro lugar.
James por outro lado, era totalmente o inverso de Ethan, metia medo em todo mundo que ousava mexer com ele e com seus amigos, fora que ele também é extremamente leal e extrovertido.
Peter sempre tentava se inspirar nos dois, sendo um pouco de cada um.
Eles assistiram filmes a madrugada toda, rindo e felizes, enquanto a luz da lua batia na janela do sótão, iluminando uma pequena parte do chão.
Peter Hood recordava esse momento sentado na cozinha da mansão de Tarik, quando de repente ele retorna à realidade, com Tarik o chamando e o tocando no ombro.
- Peter?
- T-Tarik? Eai, desculpa, eu não vi você aí.
- Você parece distante.
- É, pra lá de distante. Uns dezoito anos pelo menos.
- Por que voltar pra tão longe, garoto?
Ele respirou fundo, e respondeu:
- A moça que me criou no orfanato, ela sempre disse que devemos relembrar momentos felizes em momentos de tristeza.
- Entendo. Então você está triste?
Peter pensou muito bem no que responder.
- Eu não te julgo, também me sinto m*l pelo o'que aconteceu com a Sofi. - disse Tarik.
Peter apoia o cotovelo na mesa e passa a palma da mão pela testa, coçando o cabelo com a ponta dos dedos.
- No fundo eu acho que ela era uma boa pessoa, só escolheu um m*l caminho. - disse Peter.
- Infelizmente. Adotei aquela menina e a amei como minha filha. Já faz uma semana desde que ela morreu, e parece que eu vou sentir essa dor pra sempre. O destino é algo curioso...
- Ah, o destino...
Tarik reparou que Peter parecia extremamente incomodado com alguma coisa.
- Peter, você veio até aqui me visitar exatamente uma semana depois da morte de Sofia, e sinto que não foi só pra lamentar. Desembucha, o que está te incomodando?
- Hmph, muito observador.
Peter abre a outra mão e põe em cima da mesa a bala dourada com o nome dele gravado.
- Sofia me devolveu isso, um pouco antes de morrer, ela deve ter pego do meu quarto na primeira vez que nos vimos.
Tarik ficou olhando pra ele.
- Você acreditou em mim quando disse que não matei a Sofia, certo?
- Sim. Você chegou até as docas carregando o corpo de Sofia nos braços, extremamente abalado, era visível que não foi você.
- Pois é, e eu disse que vi o atirador...
- Exato.
- ...mas eu não contei a aparência dele.
Tarik se ajeitou na cadeira.
- Então você entende, né? Parece que todo mundo já sabe quem é, mas todo mundo tem medo de admitir.
- Conte como ele era. - Tarik tomou muita coragem pra dizer essas palavras.
Peter teve que igualmente fazer um esforço enorme pra isso, mas falou:
- Ele era... grande, bem forte, vestia um colete tático n***o, que parecia sujo de sangue e... o cabelo dele era branco, assim como a barba, cego de um olho. Ele devia ser um coroa já por...
- Ele não é. - disse Tarik, tremendo muito.
Peter entendeu tudo na hora.
- Era ele, não é? O verdadeiro Sicário Sombrio.
- O verdadeiro eu não sei, mas no mínimo, o mais c***l sim.
Peter ficou assustado em como um brutamontes como Tarik ficou abalado e fazia força pra não chorar só de tocar naquele assunto.
- Ele voltou. - lamentou Tarik - achei que depois de m***r minha neta, ele já estivesse satisfeito de crueldades, mas pelo visto, tudo foi só um tira gosto. Ele manipulou e matou Sofia, jogou ela contra nós.
Peter ficou pensativo.
- Você sabe quem ele é?
- Se eu soubesse, eu acho que não teria batizado ele de Sicário Sombrio.
Tarik respirou fundo, quase tendo uma crise de ansiedade.
- Desculpe Peter, eu fico muito nervoso com esse assunto.
- Tudo bem, não tem problema.
Tarik se recompõe bebendo um copo de gin de uma vez só.
- O'Que você pretende fazer agora? - perguntou ele.
- Eu vim até Istambul pra descobrir por que você queria me m***r, e já que você não quer e eu já resolvi os problemas que tinha aqui... acho que a diversão acabou. Vou investigar mais sobre esse Sicário m*****o, acabar com ele antes que faça mais atrocidades como fez com sua neta e com a Sofia.
Tarik pegou mais um copo e encheu até a boca com gin e um cubo de gelo.
- Um brinde a isso.
E Tarik encheu seu copo, depois ele e Peter brindaram.
- Saúde. - os dois disseram.
E eles beberam num gole só, depois colocaram os copos virados de cabeça pra baixo na mesa.
Peter sentiu seu braço arder, por conta dos arranhões da espada de Sofia.
- Ah, eu sei como dói. - disse Tarik, também mostrando seu arranhão no braço.
- Eu tenho três desses, um deles é na cara e o outro na perna.
Tarik deu uma risada.
- Obrigado por tudo, Peter Hood.
Peter acena com a cabeça, e eles se despedem com um aperto de mãos.
Depois de sair da mansão de Tarik, Peter foi até a casa de Mevlit, ele tocou a campainha e quase na mesma hora foi atendido.
Mevlit abre um sorriso grande e os dois se abraçam.
- Achei que tinha esquecido meu endereço.
- Desculpe a demora, Mevlit.
Quando Peter entrou na casa, viu Erman sentado no sofá, tomando um gole d'água.
- Erman?
- Por que demorou tanto? - disse Erman, cordialmente.
Eles se cumprimentam com um aperto de mãos, e logo depois os três se sentam e começam a conversar:
- O que vocês dois tinham a me dizer?
Erman e Mevlit se entreolham.
- Sabemos quem manipulou Sofia. - disse Mevlit.
- Estão falando do Sicário m*****o?
- Oh, então você já sabe. - disse Erman.
- Eu sou um detetive. Além de que, eu o vi, quando matou Sofia.
- Ele está aqui em Istambul?
- Estava. Passei a semana tentando encontrar aquele cara, mas o rastro esfriou, vai demorar um tempo até ele dar as caras de novo. Isso é bom, não é? - disse ele, olhando de Mevlit para Erman.
Mevlit abaixou a cabeça, e Erman começou a rir, ele deu uma gargalhada infeliz, como se estivesse chorando.
- A aparição desse cara nunca é um bom presságio, mas pior que isso, é só o desaparecimento dele. Se ele matou Sofia, isso significa que ele não precisa mais dela, já deve ter sondado tudo o que precisava saber.
- Você parece temer bastante esse homem, Erman. Sabe de mais alguma coisa que queira contar?
- Tsk, com o tempo você vai aprender que o medo é o seu maior aliado na luta contra esse homem. - disse Erman, mostrando uma cicatriz enorme em formato de foice no seu ombro direito.
- O que foi isso?!
- Erman foi um dos combatentes de Tarik que se dispôs a vingar a neta dele na época. Mesmo com Tarik avisando que isso era uma péssima ideia, ele e mais cinquenta homens se dispuseram a caçar o Sicário naquele dia... bom... só Erman retornou, e com uma marca pra toda a vida. - explicou Mevlit.
Peter voltou o olhar para Erman, impressionado.
- Eu era combatente e artesão, depois desse dia, eu sou só artesão. - confirmou Erman.
- Quem é esse cara? O que ele quer? Por que faz essas coisas?
- Quem ele é não importa. - disse Mevlit.
- Como não?!
- Ele não precisa de um nome, os feitos amedrontadores desse cara são sua identidade. - contou Erman.
- Certo, mas oque ele quer afinal?
- Ser único. - disse Mevlit.
- Ele não quer concorrência em nada. - confirmou Erman.
Peter parecia ficar mais confuso a cada tentativa de explicar deles, e ficou olhando de um para o outro, esperando receber mais alguma informação.
- E é só isso que sabemos. - terminou Mevlit.
- Se você está mesmo disposto a encarar esse cara, Peter, você vai precisar de muito mais do que só uma mira impecável e sorte.
Peter fica aturdido, mas levanta a cabeça, e determinado, ele diz:
- Eu vou descobrir quem é esse cara, e vou dar um fim a essas histórias de horror.
Erman sorri, e segurando um cachimbo na boca, ele diz:
- Você pode tentar, afinal, você é o homem que luta contra alienígenas e vence. Se fosse qualquer outro pateta, eu imediatamente providenciaria o caixão dele.
Erman pegou uma maleta ao lado da poltrona em que estava sentado, e entregou para Peter.
- Um presente?
- O equipamento que fiz pra você é muito bom, um dos melhores do mercado. Porém, seu objetivo requer reforço, e pra isso, eu te igualei ao nível da perfeição.
Peter abre a maleta, e sua visão fica ofuscada com o brilho que veio de dentro.
- O que é isso?
- É só uma luz que coloquei na caixa.
- Hã?
- Isso não importa agora.
Erman acendeu o cachimbo.
- Você deve ter percebido que a armadura de Sofia era completamente diferente de tudo oque você jamais viu ou sonhou. Isso porque aquela armadura pertence a classe Maia, uma classe proibida da metalurgia, já que existem vários riscos ao usar essa tecnologia de armadura, mas eu acredito que sendo você, não teremos com o que nos preocupar.
Peter fechou a maleta.
- Muito obrigado, Erman.
- Não há de que. Tenho certeza que até mesmo a Nikita ficaria impressionada com meu trabalho, dessa vez eu me superei.
Peter franziu a testa.
- Ah... aquela mulher é um verdadeiro perigo... - Erman disse bem baixo, depois de uma tragada.
- Quem é Nikita?
Ele olha pra Peter, impaciente e diz:
- Você ainda tem muito o que aprender, garoto...
- Não liga pra ele. - disse Mevlit.
- Bom senhores, já vou indo. Você ficará conosco por mais algum tempo, Peter? - perguntou Erman.
- Amanhã vou voltar para casa.
- É uma pena, mas foi um prazer.
Eles apertam as mãos.
- Muito obrigado pelo equipamento... e por tudo.
- Apenas faça um favor pra humanidade, e acabe com aquele rato de uma vez por todas.
- É oque pretendo.
Erman deu um aceno de cabeça pra ele, depois apertou a mão de Mevlit, e eles disseram alguma coisa em turco, então Erman foi embora.
Agora ficaram só Mevlit e Peter.
- Está convidado para ficar conosco na sua última noite em Istambul.
- Eu tenho alguma escolha?
- Não. - disse Mevlit, brincando.
Então depois de pedir as contas do hotel, Peter levou suas coisas já organizadas para a casa e Mevlit. Ele jantou com o anfitrião e sua família, eles conversaram bastante, Peter até fez um arco improvisado com galho e um barbante para o filho mais novo de Mevlit depois do jantar, e o ensinou a atirar flechas de madeira no quintal deles, mas a diversão logo acabou quando Gönül chamou os meninos para irem dormir.
Perto da hora de deitar, Peter e Mevlit ficaram conversando na varanda da casa, observando o movimento das ruas de Istambul, a cidade parecia ter se recuperado bem desde os acontecimentos da última semana.
- E quanto ao Sultão? Já que Sofia e o antigo sultão estão mortos, quem vai assumir? - perguntou Peter.
- Isso não chega a ser um problema, a corporação Turca costuma se manter muito bem sem um Sultão. Mas mesmo assim o filho do Sultão vai assumir, ele esteve fora do país nesses últimos dias.
- Seria uma briga f**a entre ele e Sofia pelo comando.
- Talvez não, Sofia teria matado ele antes disso.
Eles riram, e Peter não aguentou, e pôs pra fora uma dúvida:
- Desculpe quebrar o clima descontraído, Mevlit, mas tem uma coisa martelando na minha cabeça faz dias.
- Por que não disse logo? Qual o problema?
- Foi uma coisa que Sofia disse antes de morrer.
Mevlit prestou bem a atenção nele.
- Ela... ela disse que existia outros dois como eu... sabe?
- Outros super agentes?
- Isso. Você morou na Austrália, acha que isso é minimamente possível?
Mevlit pensou bem na resposta.
- Você sabe que isso era informação confidencial, e que jamais o público poderia saber disso, né?
- Hmph, você não me parece esse tipo de cara.
- Tsk, você está certo.
Mevlit então começou a contar:
- Vamos ser claros, se isso for realmente verdade, então estamos diante de uma grande possibilidade de caos geral.
- Então admitir isso seria basicamente afirmar que o risco existe?
- Até poderia, porém ninguém pode confirmar isso, Peter.
- Mas eu aposto que você tem um palpite.
Mevlit olhou pra ele, com um sorriso de canto de boca.
- Você conhecia o paciente 1, não é?
- Sim... era meu amigo de infância, James Pendleton. Ele está morto.
- Por ter tido contato com ele é que você foi recrutado para o programa, não é?
- Sim, recrutado involuntariamente.
- Ainda sim, no dia em que nós escapamos da Austrália, você deixou alguém vivo?
- Não, tive que m***r todos, senão eles iriam continuar sofrendo.
- Então as probabilidades de existirem outros como você descem a zero, e o único local capaz de criar super agentes como você, era na Austrália, especificamente naquele... lugar.
- Exatamente.
Mevlit respirou fundo.
- Meu palpite é o mais louco possível, seu amigo foi sim o paciente 1, porém você pode não ter sido o paciente... 2? Eu não sei dessas marcações.
- Então é possível que realmente existam mais dois?
Mevlit abriu os braços, demonstrando tudo em volta.
- Vivemos num mundo tão esquisito, uma coisa desse tipo seria até a mais normal de todas.
- Hmph, tem razão.
Mevlit então se virou de costas e tocou Peter no ombro, dizendo:
- Vá dormir um pouco, Hood. Amanhã sua viagem vai ser longa.
- Certo, eu já vou.
- Boa noite, cara.
- Boa noite.
Mevlit saiu, deixando Peter ali sozinho.
Peter Hood ficou observando a cidade dali, apoiando os cotovelos na sacada, então ele começou a refletir sobre quem poderia ser os outros dois super agentes:
- Eu matei todas as outras cobaias do teste... como seria possível haver mais se todas estavam ali?
Peter relembrou quando matou todas as cobaias do programa de super agente no dia em que escapou da Austrália.
Eles gritavam e se debatiam de dor, com Peter assistindo tudo por um monitor.
- Não é possível... isso já faz dois anos, simplesmente não é possível. Será que Sofia estava enganada? E se for só mais uma das mentiras que o Sicário m*****o contou a ela?
Peter sente sua cabeça doer de tanto pensar.
- Tem que haver uma explicação razoável para tudo isso. Pra começar, por que o Sicário não me matou ao invés de Sofia? Ele poderia muito bem ter me matado naquela noite.
Ele relembra quando Sofia levou o tiro na garganta e quando ela caiu no chão.
- Mas oque ele ganharia enganando Sofia? Tarik acha que ele estava sondando a gente, adquirindo informações, mas pra que? Se ele quisesse m***r cada um de nós, ele já poderia ter feito naquele dia mesmo.
Ele bufa, e levanta o olhar pra lua.
- Não faz sentido... nada faz sentido nenhum!
Enquanto Peter estava imerso em seus pensamentos, um flecha passou bem na frente do rosto dele, e ele pegou a flecha no ar com seu reflexo rápido, porém sua mão machucou um pouco, e um pouco de sangue escorreu.
Ele olhou pra direção de onde o tiro veio, porém não tinha ninguém.
- Esse cara tá brincando comigo?!
Peter pensou em pular da varanda e ir averiguar o perímetro de perto, porém ele reparou que na flecha tinha alguma coisa enrolada, parecia ser um papel.
Peter tirou o papel dali, e quando desenrolou, ele leu a mensagem que estava escrita:
"TE VEJO NA PRÓXIMA, PETER HOOD."
A mensagem estava escrita de um jeito totalmente perturbador, como se alguém tivesse escrito às pressas e com o próprio sangue. Peter pensou em examinar aquele sangue no papel, mas ele teve a sensação de que já viu aquele tipo de sangue antes, muito pelo cheiro doce que aquilo tinha, o'que deixava evidente para ele.
- Seja lá quem for esse cara, ele sabe meu nome, e sabe que eu iria identificar que isso é sangue falso.
Ele ainda olhava em volta, procurando o Sicário Sombrio do m*l, mas ele não via nada, nem sombra.
Com a cabeça um pouco mais fresca, Peter passou a prestar a atenção na direção em que aquela flecha ia ser disparada, e depois começou a examinar a flecha.
- Essa flecha é feita de... osso de elefante?
A flecha era um osso talhado e pintado de preto, é duro e resistente como um metal.
Peter olhou a direção em que a flecha foi atirada, e se caso ela tivesse continuado, dada a força com que foi disparada, ela poderia ter atravessado a janela ao lado e ter atingido um dos filhos de Mevlit, que estava sentado em sua cama brincando com o arco e flechas que Peter fez pra ele.
Peter fica horrorizado com o'que poderia ter acontecido caso ele não tivesse parado aquela flecha, e então, ele chega até a varanda novamente e grita bem alto:
- EU VOU DESCOBRIR QUEM VOCÊ É, SEU DESGRAÇADO! SEU MAIOR ERRO FOI TER ENTRADO NO MEU CAMINHO, VOCÊ NÃO TEM ESCAPATÓRIA AGORA!
Porém ninguém respondeu.
Peter respira ofegante, possesso de raiva.
Naquele momento ele soube que não havia mais ninguém, se o Sicário Sombrio m*****o realmente passou por ali, já tinha ido embora.
Peter passou a noite em claro, pensando no assunto e de vigia, e quando chegou a manhã seguinte, ele se vestiu, pondo uma blusa branca e uma jaqueta de couro, acompanhado de uma calça jeans e tênis branco.
Peter se despediu da família Yalman, e Mevlit o acompanhou até o aeroporto, o levando de carro e o ajudando a despachar as malas.
- Acho que é aqui que nossa aventura acaba. - disse Mevlit.
- Por enquanto, sim.
Eles se abraçam.
- Que a próxima não demore tanto, então.
- Obrigado por tudo, Mevlit.
- Eu é que agradeço por ter salvo nossas vidas naquele dia na Austrália.
Peter Hood deu um sorriso, ele pensou seriamente se deveria contar a Mevlit sobre a flecha, mas ele decidiu que já era hora da família Yalman viver tempos de paz. De qualquer forma, Peter sabia que a briga do Sicário Sombrio m*****o era com ele, e não com os outros.
- Até a próxima, quem sabe. - Peter se despediu.
- Vamos torcer por isso. - disse Mevlit, se afastando e acenando para ele.
Peter vê o amigo sumir conforme vai avançando na fila de check-in.
Depois de fazer o check-in, ele vai andando até o portão de embarque. Até que ele sente seu celular vibrar no bolso, ao ver de quem era a ligação, ele atende imediatamente:
- Senhor presidente?
- Como foi a colônia de férias, Peter?
- Bem agitadas, do jeito que a gente gosta.
- Nem me fale. Sicário Sombrio? Não tinha um nome mais brega?
- Pergunta pro seu sobrinho.
- Ok, você leva essa. Temos uma missão, em quanto tempo você chega aqui?
Peter respira fundo, e diz com determinação:
- Já estou a caminho, Austin.