Landon acordou sentindo uma sensação de estar sendo tocado em vários lugares, e apesar de ainda um pouco sonolento e com os olhos fechados, ele tentou dar um chute em quem quer que o tivesse tocando, e pelo gritinho de susto que a pessoa soltou, o chute havia sido certeiro.
— Ei! — Exclamou a pessoa, e assim que Landon abriu os olhos, deu de cara com um homem curiosamente azul. Não um homem, mas sim um demônio, ele constatou depois de alguns segundos, enquanto as memórias voltavam com tudo. O rapaz lembrou de que havia ido até o porto. Lembrou que foi cercado e atacado. Lembrou da pancada na cabeça e de Mamon aparecendo para salva-lo.
Não precisava ser a pessoa mais inteligente do universo para saber que agora estava na terceira dimensão, pois o gigantesco e chique quatro ao seu redor entregava muito bem isso, além do cara azul à poucos metros. O demônio também era assustadoramente lindo e peculiar, com traços delicados e um rosto bastante anguloso. Ele era alto, mas esguio. Seus olhos eram duas bolotas tão escuras quanto breu, e ao contrário dos olhos de víbora de Mamon, esses transmitiam gentileza. O cabelo do demônio também era escuro e sedoso, levemente ondulado nas pontas, que chegavam até os seus ombros.
Landon olhou para o próprio corpo e percebeu que estava perfeitamente limpo, sem suor ou grãos de areia espalhados pela sua pele. O seu tornozelo estava completamente curado, como se nunca tivesse sido torcido num ângulo absurdo. O rapaz flexionou os pés para testar se ainda dóia, mas não sentiu absolutamente nada. Landon estava vestindo apenas uma calça branca, fina e confortável, que contrastava contra a sua pele dourada. Suas bochechas coraram ao perceber que o demônio azul ao seu lado estava vestindo-o, e que com certeza o viu completamente pelado.
— D-desculpa pelo chute. —Ele diz, não querendo ser estraçalhado por nenhum demônio (apesar daquele em específico parecer ser gente boa), enquanto encarava o quarto grande. Landon estava deitado em uma cama que de deveria ter uns três metros quadrados, além de ter vários travesseiros de seda em cima dela, que variavam entre branco, dourado, vermelho e um marrom bem clarinho. Estar deitado naquela cama era melhor do que estar nas nuvens, e se não estivesse tão receoso por estar em um lugar desconhecido, Landon simplesmente iria deitar novamente naquele colchão confortável e dormir por dias.
— Tudo bem. Vou chamar o chefe. — disse o outro, antes de começar a andar em direção a porta do quarto. Landon imaginava muito bem quem era o "chefe", enquanto seguia o outro com o olhar.
Assim que a porta foi aberta, Mamon se materializou logo alí, vestindo um habitual conjunto de branco e dourado. A calça feita sob medida era dourada e a camisa de mangas compridas era branca, e estava com os três primeiros botões da parte de cima abertos, revelando boa parte do peitoral pálido, o que fez Landon engolir em seco enquanto o observava entrar no quarto.
— Obrigado, Basilton. — Ele agradeceu, acenando para o outro homem, que confirmou levemente com a cabeça, lançou um pequeno sorriso para Landon, antes de desaparecer no corredor. O ar parecia se esvair de dentro do quatro à medida que Mamon andava em passos elegantes e silenciosos pelo seu interior, com seus pés descalços não fazendo absolutamente nenhum som contra o piso. Landon observou enquanto ele sentava na cama, com as coxas musculosas dentro daquela calça dourada quase tocando nas suas, fazendo um calor irradiar do corpo do demônio.
— Então... Vejo que já está recuperado, Landon. — Mamon abriu um pequeno sorriso de canto de lábios, mostrando os dentes brancos e as presas levemente maiores. O rapaz ruivo respirou fundo e sentiu o coração martelar, pois aquele sorriso era incrivelmente aparecido com o daquele dia nas ruínas, provocante e s****l.
— P-porque me trouxe até aqui? — Landon queria desviar o olhar, mas simplesmente não conseguia fazer isso. Ele se sentiu um pouco vulnerável por estar sem camisa, mostrando todo o seu dorso nu para o demônio, apesar dele cuidadosamente continuar encarando apenas os seus olhos. O rapaz notou que uma luz solar forte atravessava as janelas de vidro das paredes, o que significava que já era dia e ele havia dormido a noite toda, isso se as horas passassem igualmente nas duas dimensões, o que ele não tinha certeza.
— Acho que o que você quer dizer é: obrigado por ter me salvado de ser morto e abusado, além de ter curado o meu pé quebrado e a pancada na minha cabeça. — Mamon riu, erguendo a mão e à colocando na coxa de Landon, que arfou baixinho ao sentir o peso da mão dele, além do calor que emanava da sua pele. A sensação era gostosa, mas deixava o rapaz um pouco envergonhado.
— Obrigado pela ajuda. — Agradeceu ele, fazendo o demônio confirmar levemente com a cabeça. Landon não era arrogante o suficiente para não conseguir reconhecer que estaria morto à uma hora dessas se não fosse a ajuda de Mamon. A simples lembrança da noite anterior fez um calafrio percorrer o seu corpo.
Mamon ergueu a mão e agarrou gentilmente o queixo do rapaz, esfregando o polegar na pele macia e com algumas sardas dali. Os dois se encaram por longos segundos com uma intensidade sobrenatural. Landon engoliu em seco, sentindo o cheiro másculo e amadeirado do outro entrar pelas suas narinas, ao mesmo tempo que encarava aquelas bolotas verdes absurdamente brilhante.
— Você deve estar com fome e com sede. Vou te mostrar a casa, depois podemos comer alguma coisa. — Mamon disse, por fim, levantando da cama e pegando a mão do ruivo de forma delicada, ajudando-o a levantar também. O demônio observou o corpo lindo do rapaz, vestindo apenas aquela calça simples, fina e de cintura baixa. Landon tinha sardas em todo o seu corpo, principalmente no rosto e nos ombros, o que lhe dava um charme à mais. Ele tinha uma cintura fina e elegante, realçada pelas pernas torneadas que Mamon estava rangendo os dentes de tanta vontade de tocar.
O demônio soltou a mão do rapaz assim que começaram a andar para fora do quarto (que era o quarto do próprio Mamon), pois não queria deixa-lo desconfortável. Ele começou a andar pelo corredor, sendo seguido por Landon logo um passo atrás, que observava tudo ao seu redor com surpresa e admiração. Mamon não consegui evitar o sorriso de satisfação. Ele iria dar tudo que aquele ruivinho desejava, seja riquezas ou leva-lo ao limite do próprio prazer.
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A cozinha ficava no primeiro andar, e depois de mostrar os principais corredores e pontos importantes da mansão, foi justamente para lá que Mamon levou o rapaz, conversando alegremente e respondendo com prazer cada uma das perguntas que o outro fazia relacionadas àquela dimensão.
Haviam vários empregados na casa, a maioria eram demônios inferiores que moravam do domínio de Mamon. Eles não precisavam de dinheiro (porquê afinal, você poderia encontrar pedras de ouro simplesmente buscando na areia das dunas), mas mesmo assim serviam Mamon devido à gratidão. A vida era brutal para demônios que não faziam parte de um reino infernal. Renegados eram facilmente abatidos em brigas nas regiões que não faziam parte do domínio de nenhum príncipe infernal.
Lily era a cozinheira da mansão (o nome era uma homenagem à Lilith, à demônio fêmea mais antiga de todos os tempos. Para os demônios, ela era representava praticamente a mesma coisa que "Maria" para os cristãos), e apesar de Lily ser um demônio inferior também, ela era incrivelmente bonita, assim como todos os outros.
O cheiro de comida fez a barriga de Landon roncar assim que ele entrou na enorme cozinha. Os diversos aromas eram tão bons que o rapaz inspirava profundamente, como se quisesse estocar aquele cheiro dentro dos próprios pulmões. A cozinheira era um pouco gordinha e tinha a pele levemente esverdeada. Não um esverdeado doentio, mas sim um esverdeado perolado e bonito, que apesar de ser peculiar, à tornava completamente única.
— Sente-se, Landon. — Mamon puxou uma das cadeiras acolchoadas da gigantesca mesa e indicou para que o rapaz se sentasse. A mesa tinha uma variedade tão grande de comidas salgadas e doces que Landon se perguntou pra onde diabos iria aquilo tudo. As travessas com bolos e doces iam de uma ponta à outra, além de ter bebidas de todas as cores e pequenas jarros com flores decorando a mesa aqui e alí.
— Pode se servir, baby. — Disse Mamon, sentando em uma cadeira do outro lado da mesa, de frente para o rapaz. Landon não sabia dizer se ficava feliz ou triste por ele ter sentado naquele lugar e não ao seu lado.
O ruivo estava com fome o suficiente para definitivamente deixar a vergonha para depois, antes de começar a colocar coisas aleatórias no prato que estava logo à sua frente. Haviam comidas que ele sequer havia visto antes, e por estar literalmente no inferno e não confiar 100% no que poderia terem colocado ali dentro, Landon resolveu optar por comidas que conhecia (bolos e frutas).
Mamon não colocou absolutamente nada no seu próprio prato e apenas observava o outro atentamente, ainda com um pequeno sorriso no rosto, fazendo os cantos dos seus lábios ficarem levemente puxados para cima.
— Vocês não comem? — Perguntou o rapaz, levantando uma das sobrancelhas em meio às colheradas que dava em um pedaço de bolo, que por sinal, era a comida mais deliciosa que ele já havia provado em toda sua vida.
— Claro que como, só não estou com fome agora. — Mamon pegou um mirtilo de uma pequena travessa de vidro e o levou até os próprios lábios, ainda sem desgrudar os olhos dos do outro. E antes que Landon conseguisse responder, Mamon prosseguiu, com seus sorriso se alargando ainda mais: — Pelo menos não de comida.
— A-ah... — O ruivo gaguejou, captando a insinuação implícita que havia na frase, sentindo suas bochechas arderem e um leve tremor cruzar o seu corpo. Não era um tremor de medo ou desconforto, mas sim de... Excitação, surpresa. Ele ainda não conseguia acreditar que aquele ser... Sobrenaturalmente lindo estava flertando com ele de vez em quando, ele...
Landon prendeu a respiração quando sentiu os pés descalços do demônio tocarem levemente os seus, e apesar da surpresa do toque, ele encarou a mesa, que era absurdamente grande e não tinha como os pés de Mamon chegarem até os dele. O rapaz estava prestes à olhar debaixo da mesa para saber se realmente eram os pés de Mamon, mas assim que ele piscou uma única vez, a mesa encolheu num passe de mágica, levando consigo metade de toda aquele monte de comida. Agora a mesa estava estreita o suficiente para que os pés de Mamon realmente alcançassem os seus. Landon sentiu os dedos do outro brincarem com os dele, enquanto o demônio continuava com aquele sorriso provocante e inocente, como se não soubesse exatamente o que estava fazendo, e o quão desconcertado o rapaz estava.
Landon resolveu que não iria dar aquele gostinho para o demônio safado, então continuou comendo, fingindo que não estava sentindo os pés quentes do outro, embora estivesse sentindo borboletas no estômago.
— que desperdício de comida. Você fez tudo desaparecer. — Disse Landon, tentando puxar assunto e continuar ignorando as provocações.
— não estão mais aqui, mas também não simplesmente desapareceram. — Negou Mamon, inclinando a cabeça para o lado e indicando silenciosamente para que o ruivo olhasse para o resto da cozinha, onde agora havia uma segunda mesa menor, com todas as travessas de comida que faltavam na mesa em que estavam sentados.
— C-como...? — Começou ele, sem entender nada. Era como se a mesa tivesse se dividido em duas menores com um simples piscar se olhos.
— Nada pode simplesmente desaparecer, baby. A única coisa podemos fazer é teletransportar determinada coisa para outros lugares. — Explicou Mamon, dando de ombros e estalando os dedos, fazendo a outra mesa se dividir em outras duas menores, antes de junta-las novamente e fazer a maior surgir de novo, deixando o rapaz completamente boquiaberto.
Mamon riu e continuou observando o ruivo comer, fazendo pequenas demonstrações de magia vez ou outra apenas para impressiona-lo, além de continuar o provocando com os pés, subindo os dedos pelos seus tornozelos até chegar aos joelhos. Landon continuava fingindo que não estava sentindo nada, mas Mamon sentia cada um tremores que reverberavam pelo corpo do rapaz, fazendo seu sorriso se alargar ainda mais.