(POV Louise Paradis Belmont)
A dor era um incêndio devastador no meu lado esquerdo.
Cada respiração parecia vidro moído rasgando meus pulmões já debilitados, transformando o simples ato de viver em um suplício ruidoso e agonizante.
Demorei a focar. Minha cabeça latejava em um ritmo doentio, acompanhando as batidas descompassadas e fracas do meu coração.
— Ela está acordando. — Ouvi a voz fria de Cassian.
O tom dele não carregava alívio, nem preocupação.
Era o som clínico de alguém conferindo se um objeto quebrado ainda tinha alguma utilidade antes de descartá-lo de vez.
Algo dentro de mim mudou drasticamente naquele instante.
O desejo desesperado de ser amada por ele, de ser vista e desejada, evaporou completamente, deixando apenas cinzas em seu lugar.
A imagem dele na mansão, saltando para salvar Zoe com aquela ferocidade possessiva, enquanto eu era estraçalhada por Rogues, congelou o que restava do meu calor interno.
Abri os olhos com dificuldade. O teto branco e estéril do hospital da alcateia era impessoal e gélido.
A enfermaria estava silenciosa, um contraste doloroso com o abatedouro que o funeral de Amélie havia se tornado.
Olhei para o lado. Eu estava na enfermaria, o que significava que meus ferimentos não eram fatais, infelizmente.
Ao meu lado estava ele. Cassian estava de pé, a postura rígida, vestindo roupas limpas, parecendo um Alfa perfeito que estava ali apenas cumprindo um protocolo chato.
— Louise, consegue me ouvir?
A voz não era de Cassian. Era do doutor Rafael Blackwolf.
O rosto clínico, idêntico ao do meu sogro Gabriel, pairava sobre mim como uma sentença final.
Fiz que sim com a cabeça. O movimento mínimo enviou agulhas de dor paralisantes pelo meu pescoço e tórax.
— Por que ela não está se regenerando? — Cassian questionou o tio, a voz carregada de uma irritação m*l contida e impaciente.
Rafael franziu a testa, os olhos fixos nos resultados dos exames que segurava em um tablet.
— Bem... nos testes que fizemos, não encontramos nenhuma loba dentro dela.
O silêncio que se seguiu foi absoluto. Pesado e frio como uma lápide de granito sobre o meu peito ferido.
Cassian travou. O azul elétrico de seus olhos perdeu o brilho habitual, sendo substituído por um choque puro e paralisante.
— O quê? Como assim não havia loba? Ela tem uma loba! Ela é minha companheira marcada! — ele rugiu pro tio, o som fazendo as janelas da enfermaria vibrarem e o monitor cardíaco apitar freneticamente.
— Bom, pelo que consta nos exames... não tem — Rafael repetiu, a voz desprovida de qualquer emoção.
O médico se aproximou da cama, o rosto clínico de análise parecia me escanear, buscando uma falha biológica que explicasse o inexplicável.
— Ela é humana, Cassian. Ou pelo menos, agora ela é.
Cassian recuou um passo lento.
O olhar que ele lançou para mim naquele momento não era de tristeza, luto ou preocupação com o meu estado.
Era o brilho de pura euforia de quem acabara de encontrar a chave da própria cela.
Ele olhou para a porta da enfermaria, onde Zoe estava parada com Connor ao lado, observando tudo, esperando por ele com os olhos cheios de uma falsa compaixão.
Depois, ele voltou a me encarar, e um sorriso c***l, sombrio e vitorioso começou a desenhar-se em seus lábios.
— Se não há loba... — ele sussurrou, a voz transbordando uma liberdade que ele desejava há cinco anos. — Então o vínculo sagrado não existe mais.
A dor no meu tórax, provocada pelas presas do Rogue, não era nada comparada ao vazio abissal que se abriu dentro de mim com aquelas palavras.
Cada palavra que eu precisava proferir agora era um esforço hercúleo.
O ar entrava rasgando minha garganta, como se meus pulmões fossem feitos de papel crepom e fogo.
— Louise, você consegue explicar isso? — a voz fria do tio do meu marido me questionou, exigindo respostas de um corpo quebrado.
Eu respirava com extrema dificuldade. Tudo em mim doía.
Eu não queria falar. Eu queria fechar os olhos e deixar a escuridão me levar de volta.
Mas eu sabia que eles não iam parar de me importunar até conseguirem o que queriam.
Então achei melhor falar a verdade. Deixá-los saborear a vitória da minha ruína.
— Sim... você está certo. — Minha voz saiu como o estalar de folhas secas sob um pé pesado.
Engoli o gosto metálico do sangue que insistia em subir pela minha garganta.
A dor era minha única companhia fiel agora.
— Eu não tenho mais loba. Ela morreu.
O silêncio que se seguiu foi pior que o rugido dos Rogues na mansão.
Vi o momento exato em que a postura de Cassian mudou.
Ele não se inclinou para me consolar ou segurar minha mão.
Ele se empertigou. O peito subindo em triunfo, os olhos azuis elétricos brilhando com uma euforia c***l e sádica que ele m*l tentava esconder sob a máscara de Alfa.
— Se a loba morreu... o laço não existe mais — ele sussurrou para si mesmo, e o som era de pura vitória caindo do céu.
Ele se virou para a porta.
Zoe estava lá, as mãos entrelaçadas na frente do corpo, observando o desenrolar da minha destruição total.
O olhar que eles trocaram sobre o meu corpo ferido foi o prego final no caixão da minha dignidade.
O ar pareceu ser sugado para fora dos pulmões de Cassian, deixando um vácuo gélido na enfermaria.
Ele processou a informação e, de repente, vacilou.
— Como assim sua loba morreu? — ele perguntou, a voz oscilando perigosamente entre a incredulidade e um pavor repentino.
Eu estava exausta.
O peso de cinco anos de humilhação silenciosa, de submissão e de proteção inútil desabou sobre mim com a força de uma avalanche.
Eu aturei o ódio de todos. Suportei tudo para proteger Amélie.
E para quê? Para que no final ela morresse por um demônio que eu não pude deter.
Eu mesma, tomada por uma dor que transcendia o físico, olhei para aquele homem com um ódio que eu nunca soube que era capaz de sentir por ele.
Meu peito subia e descia em espasmos ruidosos, a dor das costelas quebradas sendo engolida pela fúria Belmont.
— Sim, Cassian. Minha loba está morta. Drenada pela sua traição.
Minha voz saiu quebrada pela dor e pelo cansaço, mas afiada como a prata.
— Toda vez que você trepava com sua amante Sienna, ela morria um pouco. Eu senti toda a dor da traição. Cada pedaço dela despedaçar dentro de mim até ela desaparecer completamente...
Os olhos azuis dele se arregalaram. Ele parecia ter levado um soco físico.
Cassian olhou para o canto da sala, percebendo apenas agora que não estávamos sós na enfermaria.
Seus pais, Zoe e Connor observavam a nossa ruína pública.
Cassian voltou-se para mim, o rosto transfigurado pela negação.
— E por que caralhos você não tomou a poção de bloqueio que eu comprei para você?
— Eu tomei, Cassian! — Eu cuspi as palavras junto com o coágulo de sangue que inundava minha boca.
— Mas ela acabou. Aparentemente, você trepa com ela igual a um coelho e eu não tenho como comprar bloqueadores a cada segundo! Eu cuspo na sua falsa preocupação.
Ele recuou um passo, parecendo transtornado, mas não por mim ou pela morte da minha loba. Por ele.
— Você faz ideia da sua irresponsabilidade? Eu poderia ter sucumbido à maldição da minha família...
— É mesmo? Nossa... que pena de você. — Ri, um som seco, oco e doloroso que machucou minhas costelas quebradas.
— Mas olha só... você continua totalmente inteirinho. Que milagre, não é?
Eu sinceramente não sabia de onde estava tirando forças para discutir com ele naquele estado.
O ódio puro estava agindo como um anestésico potente, me mantendo ereta na cama de hospital.
— Você é uma mulher egoísta e...
— Já chega, Cassian! — A voz de Gabriel vibrou pela enfermaria, silenciando o ar instantaneamente.
O ar vibrou na enfermaria se tornando esmagador.