Capítulo 1 - O Gosto do Ferro

1794 Palavras
O sangue era quente. Mais quente do que eu jamais imaginei que a vida pudesse ser. Eu não fazia ideia de que uma pessoa tão pequena e franzina guardava tanto dentro de si. Até ser banhada pelo jato que jorrava da garganta da minha irmã. Mas não foi assim que meu dia começou. Começou comigo em uma cama fria e vazia. O linho sob meu corpo parecia feito de gelo, um lembrete áspero da minha solidão. Meu marido não dormia comigo. O lado esquerdo do colchão era um deserto intocado, sem o cheiro dele, sem o peso dele. Ele só ocupou aquele espaço uma única vez. Uma noite de dever e silêncio que gerou Levi e Luther. Meus filhos eram o único rastro de que Cassian Blackwolf um dia me tocou. Levantei antes que o sol pudesse iluminar minha humilhação. Era o aniversário de dezoito anos da minha irmã mais nova, Amélie. Por ela, eu suportava o desprezo da alcateia. Por ela, eu fingia que as correntes do meu casamento não cortavam minha carne. Cheguei à mansão Blackwolf quando a neblina ainda abraçava as árvores. O casarão cheirava a café fresco e poder, uma combinação que sempre me embrulhava o estômago. Organizei cada detalhe. As flores, a prataria, o bolo que eu mesma preparei. Eu queria o dia perfeito para Amélie. Minha mãe, Genevieve, vagava pelos corredores como uma sombra m*l desenhada. Ela era um fantasma. Uma casca humana que vivia entorpecida, fugindo de uma realidade que eu era obrigada a encarar de frente. — Ela está acordada? — perguntei, sem olhar para minha mãe. Genevieve não respondeu. Apenas balançou a cabeça, o olhar perdido em algum lugar que a luz não alcançava. Eu não sabia que aquele seria o último dia de paz. No meio daquele dia, meu filho Levi pintava um desenho para a tia Amélie. Ele estava sentado ao meu lado quando derramou um pouco de suco de uva na roupa. O roxo se espalhou pelo tecido como uma ferida aberta. Aquele maldito estalo que me dava me fez agir antes de pensar. O som do meu próprio coração disparando era a única coisa que eu ouvia. — Não se mova, querido. Mamãe vai limpar você! — eu falo com urgência. Minhas mãos tremiam enquanto eu abria a bolsa. Eu pego um lenço umedecido; nenhuma sujeira passava despercebida por mim. Enquanto eu o limpava, ele fez a pior coisa que um menino de cinco anos poderia fazer para mim. Levi afastou minhas mãos, o rosto vermelho de irritação. — Mãe, chega! A senhora está me machucando! — ele cuspiu, indignado. — Eu vou tirar a roupa, eu quero ir pra piscina. Ele sentenciou. O mundo parou. Ele então começou a tirar a camisa suja de suco, expondo a pele pequena e vulnerável. O pânico me atingiu como um soco no estômago, tirando todo o meu ar. — NÃO! — O grito rasgou minha garganta, agudo e violento. Avancei sobre ele, meus dedos se fechando nos seus ombros com uma força que eu não pretendia usar. — Eu já lhe disse! — Eu o sacudi, a voz falhando em um desespero que queimava. — Nunca, nunca fique nu na frente de ninguém! Está me entendendo?! Eu o segurava pelos braços, sacudindo seu corpo pequeno. Meus olhos estavam dilatados, fixos nos dele, vendo perigos que ninguém mais naquela sala admitia. — Responda! Você nunca vai se despir na frente de ninguém! — Louise, solte o menino. Agora. A voz de Cassian veio do topo da mesa. Não era um pedido; era uma ordem de Alfa que fez o ar vibrar. Eu não o soltei de imediato. Meus olhos estavam fixos nos de Levi, implorando para que ele entendesse o perigo que ninguém mais naquela sala admitia existir. — Você está machucando ele — Cassian continuou. O som da cadeira dele arrastando no chão foi como um trovão. Ele se inclinou para frente, o azul elétrico dos seus olhos brilhando com uma irritação profunda. — Deixe o menino em paz, sua lunática. Ele só ia nadar. Soltei Levi. O calor da vergonha subiu pelo meu pescoço mais rápido que qualquer veneno. O pequeno se encolheu, correndo para o colo da avó, Júlia, que o abraçou com um olhar de puro nojo direcionado a mim. — Por que você não pode ser normal? — Cassian destilou o veneno, a voz baixa para que apenas os mais próximos ouvissem. — Olhe para a Zoe. As crianças dela correm livres, são felizes. As suas vivem em uma prisão porque a mãe é uma maníaca. As risadas abafadas dos convidados eram como agulhas perfurando minha pele. Eu era a piada da alcateia. Engoli o choro. Engoli a vontade de gritar que os monstros não estavam nas sombras, mas sentados àquela mesa, bebendo vinho caro e sorrindo. — Faça algo de útil e vá pegar o bolo — Cassian ordenou. Ele se voltou para os outros, me descartando como se eu não passasse de um erro que ele era obrigado a tolerar. — Traga o bolo da Amélie e tente não estragá-lo também, como você faz com tudo! Eu tremia de pé. O chão parecia instável sob meus sapatos. Apenas consenti, as unhas cravadas nas palmas das mãos, e me virei indo para a cozinha. "Por favor, Deusa... me acalma." Enquanto eu caminhava, as vozes me perseguiam. Eles não se preocupavam se eu ouvia ou não. Queriam que eu ouvisse. — Coitado do Cassian... — É, coitado do nosso Alfa, preso a essa mulher louca... — Ele merecia alguém melhor... O ar da sala estava carregado, denso de julgamento. — É, mas ela o prendeu e ele é obrigado a estar com ela... — Ela deveria ser presa depois do que fez... A cozinha parecia distante demais para mim naquele momento. Cada passo era uma luta contra o peso do mundo nos meus ombros. Cerrei os punhos até os nós dos dedos ficarem brancos. Abaixei a cabeça, fixando o olhar no piso polido, e fui buscar o bolo. Na cozinha. Fui até a pia. O suor frio escorria pelas minhas costas, colando o tecido barato do vestido amarelo à pele. Olhei para o reflexo no espelho acima da bancada. Eu estava magra. Doentiamente magra. As maçãs do rosto saltadas, os olhos encovados por noites que nunca terminavam. Mal dava para dizer que eu era um ser humano. Eu parecia um cadáver que se esquecera de deitar. Não me dei ao trabalho de me arrumar. O cabelo estava preso em um coque apressado. O vestido era simples, básico, sem vida. Eu não usava maquiagem. No espelho, vi minha mãe refletida em mim. Só me faltavam os remédios para terminar de sumir da realidade. Joguei água gelada no rosto. Respirei fundo, engolindo a bile e a humilhação. Peguei o bolo na bancada. Suas camadas brancas pesavam como chumbo nos meus braços. Voltei para o salão. Cassian não estava mais lá. Eu não o procurei. Eu não me importava. Amélie estava sentada, cercada por amigos da sua idade. Coloquei o bolo na frente dela. Coloquei a faca ao lado, o metal brilhando sob a luz. Espetei a vela. Minha irmã merecia o mundo, e eu quase tinha arruinado o pouco que ela tinha. Forcei um sorriso. Um gesto mecânico que doeu nos músculos da minha face. Enquanto eu acendia a chama, senti os olhares. Eu já tive amigos um dia que estavam todos ali, e agora me olhavam com desprezo. Eu era o monstro da história deles. Todos começaram a cantar. As vozes subiam, alegres, rítmicas. Um coro de vida em uma sala que me sufocava. Sentei-me quase à frente dela. Amélie se virou para mim. Foi então que eu vi. Não era alegria. Não era a luz dos dezoito anos. Era dor. Uma dor antiga, funda, que espelhava a minha. — Eu sinto muito, Lou — ela sussurrou. A voz saiu fraca, mas o som cortou o barulho do parabéns como uma navalha. Franzi a testa. O mundo pareceu desacelerar. Antes que eu pudesse perguntar, ela ergueu a faca. O movimento foi brusco. Violento. Ela passou a lâmina de prata com toda a força na própria garganta. O primeiro espasmo de sangue atingiu o glacê branco do bolo. O segundo jato atingiu meu peito, manchando o tecido amarelo. O calor metálico grudou na minha pele. Levantei num solavanco. O terceiro esguicho me banhou por inteiro. Minhas mãos tremiam, escorregadias, enquanto eu pressionava a carne rasgada da sua garganta, tentando desesperadamente fechar a ferida. Não adiantou. O som úmido do engasgo cessou. Ela soltou um último e oco suspiro. Meus joelhos cederam. Desabei de volta na cadeira, os pulmões queimando enquanto gritos e o caos explodiam ao meu redor. Tudo parecia distante e abafado. Não sei quanto tempo fiquei ali, paralisada, com o cheiro espesso de cobre invadindo minhas narinas. Até que alguém parou na minha frente. Uma tentativa inútil de bloquear a minha visão. Eu ainda a via. O corpo da minha irmã caído. Sua garganta escancarada. E aquele olhar vitrificado, morto, cravado diretamente em mim. — Vamos, querida. Você precisa se limpar. A voz de Júlia vinha de uma distância infinita. Ela me ergueu pelos ombros, mas eu não sentia o chão. Eu estava longe. Seria assim que minha mãe se sentia todos os dias? Perdida no nevoeiro, onde a realidade não pode te alcançar? Atrás de mim, o caos era um ruído abafado. Os homens da alcateia se amontoavam sobre o corpo de Amélie. Tentavam o impossível. Primeiros socorros. Massagem cardíaca. Eu sabia que era inútil. Eu senti a vida dela acabar entre meus dedos. Meus olhos foram a última coisa que ela viu. E tinham sido a primeira. Lembrei do cheiro de temperos e do calor da nossa minúscula cozinha em um apartamento na França. Minha mãe, agachada no piso frio, parindo Amélie entre gritos de dor. Eu a recebi no mundo. Eu a vi partir dele. Minha sogra me encaminhou pelo caminho de pedra até a minha casa. Era logo ao lado, um trajeto curto demais para quem carregava o peso de um cadáver na alma. Júlia abriu a porta da frente com força, buscando o refúgio do nosso lar. Mas o ar lá dentro não estava limpo. O cheiro de suor e luxúria me atingiu antes que meus olhos processassem a cena na penumbra da sala. Foi um impacto físico. Uma bofetada de realidade. Minhas entranhas se reviraram em um espasmo violento. O bile subiu pela garganta, queimando como ácido. Eu vomitei ali mesmo, sobre meus próprios pés sujos de sangue. Ao meu lado, o grito de Júlia rasgou o silêncio da casa. Um som de puro horror. Um som de quem acabara de descobrir a verdade sobre o filho perfeito que ela achava que tinha.
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