❝ Às vezes, as melhores — e piores — coisas da vida começam assim...
Por acaso.
Por ironia do destino.
Ou, quem sabe... porque estavam destinadas a acontecer. ❞
A verdade é que eu tinha decidido.
Eu ia ignorar.
Ignorar a existência daquele ser humano.
Fingir que ele não fazia parte da minha vida, nem do campus, nem de nada.
Simples.
Fácil.
Certeza que ia dar certo.
Spoiler: não deu.
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Na manhã seguinte, levantei, dobrei meus joelhos, respirei fundo e fiz minha oração.
— Senhor... eu não sei o que o Senhor tá fazendo, mas... seja lá o que for... me ajuda a sobreviver, tá? E se puder... me livra do Caleb. Amém.
Me levantei, pronta pra começar o dia.
Pronta, pelo menos, no que dizia respeito a roupa, maquiagem e cabelo.
Porque emocionalmente... bom, isso a gente finge que tá tudo certo.
Saí do dormitório, segui o mapa do campus no celular, olhando pro céu, pro chão, pra qualquer lugar...
Menos pra frente.
E adivinha quem surgiu exatamente no meu caminho, do nada, como se o universo tivesse programado esse glitch na minha vida?
— Olha só... quem diria... a pirralha sabe andar sozinha — disse Caleb, surgindo na minha frente, cruzando os braços, aquele sorriso cínico no rosto.
Revirei os olhos, respirei fundo e fingi não ouvir.
— Fingindo que não me viu? Sério? — ele provocou, andando ao meu lado como se a gente fosse... sei lá, conhecidos.
— Não tô fingindo — respondi, apertando a alça da bolsa no ombro. — Tô praticando um exercício espiritual.
— Ah é? — arqueou a sobrancelha. — E qual seria?
— Ignorar a presença do maligno.
Ele segurou a risada.
De verdade.
Pela primeira vez, percebi que ele tava rindo de verdade.
— Uau... você é melhor do que eu imaginei.
— Obrigada, eu sei.
— Mas... só pra constar... você não é nada boa em ignorar. — Ele olhou de canto. — Tá vermelha até a raiz do cabelo.
— Isso se chama raiva, Caleb. Raiva.
— É... — ele deu de ombros, aquele sorriso ainda preso no rosto. — Sei.
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O problema...
O problema é que...
No meio daquele bate-boca disfarçado de guerra santa...
Tinha algo.
Algo no jeito como ele mordia o lábio pra não rir.
Algo no jeito como ele fingia ser só arrogante... mas o olhar traía.
Porque, às vezes... só às vezes... eu via.
O olhar dele ficava menos afiado.
Menos sarcástico.
E, por uns segundos, parecia...
Parecia vazio.
Parecia pedir socorro.
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— Olha... — ele respirou fundo, passando a mão na nuca. — Eu sei que você me odeia, e, pra ser sincero, você também não é minha pessoa favorita nesse campus...
— Nossa. Juro que tô devastada com essa informação — falei, cruzando os braços.
Ele ignorou.
— Mas... a gente vai se cruzar muito. Muito mais do que você imagina. E, querendo ou não... a gente vai ter que conviver.
Ficamos em silêncio.
Se encarando.
Se desafiando.
Se medindo.
— Então... — ele estendeu a mão, meio relutante. — Trégua?
Pisquei, surpresa.
Trégua?
O Caleb oferecendo uma trégua?
Olhei pra mão dele.
Olhei pra ele.
E, contra qualquer lógica... qualquer instinto... qualquer parte racional do meu cérebro...
Apertei.
— Trégua — respondi.
O aperto foi firme. Forte.
Talvez... forte demais pra ser só uma trégua.
Ele sorriu. Aquele sorriso meio torto, meio irônico, meio... perigoso.
— Mas só até você pisar no meu calo, Campbell.
— O mesmo vale pra você, Wood.
E, naquele exato momento...
Sem que nem eu nem ele soubéssemos...
O destino sorriu.
Porque, às vezes...
Quando menos se espera...
Acontece.