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2012 Palavras
Ema Saio para almoçar logo depois que tio Dênis e o filho deixaram o escritório. Entro na sala dos funcionários e Celina, uma colega de trabalho já está com nossas marmitas, no entanto ela não parece muito amigável hoje. — Obrigada amiga, não sei o que seria de mim sem você. — Agradeço. — Não sei por que agradece se é você quem paga a sua marmita — Celina rebate irritada. “Pelo jeito, acertei sobre a questão do humor”, penso. — Eu pago, mas é você quem compra. — Essa é a vantagem de ter uma colega de trabalho que providencia seu almoço quando você está super atarefada. Como de costume sento de frente pra ela. Na sala dos funcionários, temos dois grandes sofás e muitas almofadas espalhadas pelo grande tapete felpudo que ocupa parte do espaço onde podemos nos deitar para tirar um cochilo sem problemas. Aqui tem um microondas, cafeteira, uma geladeira e a mesa que estamos agora, tudo bem aconchegante. — Você não parece bem? — Pergunto voltando a atenção para ela. Celina não responde, permanece de cara emburrada. — Hum, quer falar sobre o que te aflige? — Insisto. — Brigou com o Ed? — Arrisco. — Não. — Ela responde secamente. — Sabe o que eu faço quando não estou bem? — Pergunto em uma tentativa frustrada de animá-la. Ela largou os talheres na mesa e faz uma cara de cão raivoso. — O que você faz? Espera! Deixa eu adivinhar... come tudo que vê pela frente? — Pergunta elevando a voz muito furiosa, como se eu tivesse culpa de seus problemas. — Quer saber, perdi a fome. — fala ao levantar-se, deixando sua comida intocada na mesa. — Pode jogar essa gororoba no lixo que é essa barriga enorme. — Celina me deixa sozinha na sala. "Nossa! Quanta agressividade" — penso ao me levantar ainda surpresa com o chilique da minha colega. Pego a marmita da Celina e a minha, coloco com cuidado em um saco. Sigo até o elevador, descendo no térreo, atravessando o saguão até a saída. Cumprimento o senhor Mauro, o porteiro e Assis o faxineiro. Saio do prédio que acomoda a advocacia Silva e atravesso a rua. Vou a uma praça que fica em frente ao escritório. Dou a volta na pelo espaço até até encontrar quem procuro. — Boa tarde, seu João! — Cumprimento e sento ao lado dele. — Oi menina! Você estava sumida. — Ele comenta sem jeito. — O trabalho tem tomado boa parte do meu tempo, desculpa por isso. — peço com sentimento de culpa por passar tanto tempo sem ver meu amigo. — Por que se desculpa? Eu não sou ninguém para te cobrar atenção. — O velho lamenta. Não gosto de vê-lo se reduzir a nada, pois o senhor João é um ser humano e merece ser tratado como tal. — O senhor é meu amigo e tem todo o direito de me cobrar um pouco de atenção. — Não posso deixá-lo se menosprezar. — Amigo? — Ele me olha emocionado. — Você é a única pessoa no mundo que me trata como gente. — Sinto um aperto no peito ao ouvi-lo dizer isso. — Sabe seu João, uma colega do trabalho nem tocou na marmita, então eu decidi trazer para o senhor e assim, almoçarmos juntos. Tiro a refeição do saco, entrego em suas mãos. Seus olhos brilham e um sorriso banguela surge em seu rosto sujo e cansado, dou uma colher pra ele. — Obrigado — O homem agradece sem jeito. — O senhor quer beber alguma coisa? Um suco ou refrigerante? — Pergunto. — Não, mas, aceito uma Redonda. — Ele sabe o que penso sobre bebida alcoólica mas ainda assim tenta me enrolar com seu sorriso banguela. — Seu João! — Repreendo-o — Aceito um refrigerante. — O danado desconversa. Deixo minha marmita sobre a vigilância dele e vou em direção ao vendedor mais próximo e peço duas latinhas de guaraná. — Senhora, por que está falando com aquele mendigo? — O vendedor ambulante pergunta olhando para o meu amigo como se fosse um animal de rua. Também direciono meu olhar para João que está sentado com sua marmita na mão me esperando para comer mesmo que esteja faminto. Ele sempre me aguarda para comermos juntos. Volto a olhar para o homem à minha frente e sorrio. — Que mendigo? — pergunto sem deixar meu sorriso vacilar — Não estou falando com nenhum mendigo e sim, com um grande amigo. — falo sem perder a compostura. — Se a senhora diz — O homem fala cheio de desdém ao me entregar o troco. — Muito obrigada senhor e … — penso um minuto em algo que posso dizer aquele homem —, não menospreze ninguém, pois não sabemos o dia de amanhã e aquele senhor — aponto para o João — ele pode ser o único a lhe estender a mão. — o deixo antes que retruque. — Toma. — entrego o refrigerante ao meu amigo assim que sento novamente ao seu lado. Ele aceita com os olhos brilhando. —Vamos comer. — falo animada. — Opa! Não precisa mandar de novo — ele começa a comer vorazmente seu almoço. “Nossa, ele está faminto” — penso ao vê-lo comer como se temesse que roubassem sua comida. — João, por que não está indo fazer suas refeições no bar do seu José? — pergunto. Não gosto de saber que ele está passando fome por causa de orgulho. Ele engole o que estava mastigando, toma um pouco de refrigerante e responde. — Por que você não tem nenhuma obrigação com esse velho mendigo. Me sinto triste com essa resposta. — É claro que tenho. Somos amigos e é meu dever como sua amiga te ajudar nesse momento de necessidade, ao menos com a refeição de cada dia. — falo indignada com sua resposta. — Vai comer? — pergunta apontando para minha marmita e ignorando por completo o meu discurso. — Fique à vontade. — ele pega a comida e detona em questão de minutos. — Você tem um coração puro e eu não mereço que seja boa comigo. — João fala melancólico. No entanto, não sinto que tenho um coração puro; só gosto de ajudar quem precisa assim como fui ajudada no passado. As pessoas deveriam ter mais empatia umas para com as outras, ter amor ao próximo estendo a mão a quem precisa pois como disse ao vendedor de refrigerante, não sabemos o dia de amanhã. Ele levanta, pega o cobertor que dei no natal passado e sorri. — Obrigado menina e até breve. — João diz isso e me deixa sozinha. — De nada. Deixa esse orgulho de lado e mais tarde vai pegar sua janta no bar do zé. Todas as vezes que o vejo, me sinto frustrada por ele não aceitar minha ajuda. Já o convidei para morar comigo mas recusou dizendo que sou muito pura para receber na minha vida alguém tão sujo. Tentei argumentar mas não teve jeito, João recusou. Olho para o relógio e já são quase duas. Levanto-me e saio apressada. Devo estar em minha mesa antes do senhor Silva voltar. *** Estou em minha mesa com os contratos da Ki Moto em mãos à espera do tio Dênis que ainda não retornou do almoço com o Danilo. Mas ele não demora muito. Ouço a barulho do elevador e vejo-o sair com o semblante transparecendo preocupação. — Na minha sala agora. — Ordena ao passar por mim. Levanto-me e o sigo com os papéis em mãos, os entrego assim que ele senta. — São os contratos da Ki Moto. — explico quando ele me olha de forma indagadora. Ele deixa os papéis de lado, passa as mãos no rosto e sorri calidamente. — Sente-se Ema. — Pede com carinho e obedeço. — Você gosta de trabalhar pra mim? — pergunta sério. — Claro que sim senhor Dênis. — respondo sorrindo. Vejo-o transparecer um leve sorriso no canto dos lábios. — Fico feliz em ouvir isso. Sabe o quanto te amo e que é duro pra mim te manter como minha secretária sendo que você tem um futuro brilhante que a espera. Você decidiu adiar esse futuro depois da morte de sua madrinha e eu, por mais que seja contrário a esta decisão a apoiei e por isso peço que faça o mesmo comigo, que apoie a minha decisão. Que que saiba minha filha que nunca faria algo para magoar você. — fala firme. Tio Dênis espera que eu fale algo mas prefiro esperar para ouvir o que ele têm a dizer. — Ema, eu vou me aposentar. — despeja a bomba em cima de mim. Apesar da surpresa, tudo que consigo fazer é sorrir, ele finalmente vai poder descansar. — Fico feliz senhor! Assim o senhor pode pescar, jogar pôquer com mais frequência e viajar. — falo animada mesmo sabendo o que isso significa. Ele parece desconfortável. Tio Dênis sabe que a aposentadoria dele vai ser um problema pra mim. — Quando vou entrar de aviso prévio? — pergunto. Ele faz uma cara que me apavora. — Por favor… diga que vai me demitir? — praticamente suplico. Posso perder esse emprego mas por meu chefe ser um homem influente, rápido consigo outro com uma boa carta de recomendação. O senhor Silva me olha espantado. — Não, jamais faria isso com você que é uma profissional exemplar. Eu só ainda não decidi se mantenho você aqui ou transfiro para a filial de São Paulo, o problema é que prezo muito o meu casamento. — fala como se tivesse um grande pepino nas mãos. — Clarice pediu para você ser assessora dela. — ele explica, e claro que compreendo. — Tia Daniela não quer que eu vá por que não consegue viver sem mim. — deduzo, ele ri. — Sem mencionar que você é a única que tem certo controle sobre o Danilo, devido a paixonite que ele têm por você. — O Danilo é um fofo, isso é palhaçada dele. — sinto minha face enrubescer. Ele cerra os olhos. — Duvido muito. — fala todo faceiro. — Se for só isso eu posso voltar para minha mesa? — Pergunto lembrando que tenho que concluir uma planilha com os dados dos novos clientes. — Você não perguntou quem vai ser o meu sucessor. — ele lembra olhando-me sério, como se isso fosse irrelevante. — Não é difícil de imaginar. O senhor tem dois filhos e um deles é um excelente advogado. — “Além de ser o ser mais c***l que existe na face da terra” — penso em seguida. — Será o Daniel. — ele confirma o esperado. Pra mim é impossível dizer uma palavra positiva e muito menos forçar um sorriso. — Tudo bem? — pergunta preocupado. — Quando será minha transferência para São Paulo? — pergunto o mais calma possível. Daniel Silva é o pior ser humano do mundo. Ele é arrogante, e******o, trata todos como se fossem lixo e a mim, bom, sou o bode expiatório de tudo. Na última vez que esteve no Brasil foi um inferno. Daniel passou um semana aqui, há três anos quando o senhor Silva teve que viajar para Nova Iorque. Quase pedi demissão e tenho quase certeza que essa era a intenção dele, eu só queria entender o motivo do filho mais velho do casal D me odiar tanto. — Está falando sério? — O chefinho pergunta um tanto chateado, acredito que tinha esperança de que eu fosse tentar continuar trabalhando no escritório como secretária daquele ser do m*l. — Dona Clarice é uma mulher que tem muito a me ensinar. — respondo em minha defesa. — Ema, não permita que meu filho intimide você e a faça se afastar do seu sonho. — ele pede. — Posso fazer a prova da OAB em São Paulo. — O lembro. — Ema... — acredito que ele esteja procurando um argumento. — Volte ao trabalho. — ordena, dando o assunto por encerrado.
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