Prometi em casamento

2387 Palavras
Capítulo 2 Marjorie Jones Uma ordem de execução pra mim. Na data de amanhã, um pouco depois que eu saísse do internato. Mas porque esse assassino me buscou hoje? Eu era um alvo do meu pai. A assinatura era dele. O mesmo homem que me deu uma boneca feita à mão quando completei sete anos. O mesmo que me ensinou a nadar, mesmo que aos gritos. Talvez só fosse exigente. O mesmo que dizia que eu entenderia seus motivos de me deixar naquele internato a infância toda. Mas eu não entendia nada. Ele havia me condenado. Meu corpo congelou. O sangue pulsava nos meus ouvidos, e por um instante achei que fosse desmaiar. Tudo começou a fazer sentido: o estranho me buscando, o silêncio no carro, os tiros. Mas por quê? Por que ele quis me matar? E por que esse homem, esse executor, não cumpriu a ordem? Veio um dia antes? Guardei a arma no cós da calça, cobrindo com a blusa. Dobrei o papel e enfiei no bolso com os dedos ainda tremendo. Respirei fundo. Era doloroso demais ser fria. Então voltei até a porta, onde o homem me esperava, encostado no carro como se tivesse todo o tempo do mundo. Olhou pra mim, impassível. Eu o encarei de volta com um olhar que ele ainda não tinha visto. Eu queria respostas. Queria vingança. — Vamos — murmurei, entrando no carro sem desviar os olhos do assassino. Se ele não ia me matar… então talvez fosse ele quem me mostraria a verdade. E ficaria bem mais fácil comigo apontando a pistola na nuca dele dentro do carro. As lágrimas escorriam pelas minhas bochechas, mas meu rosto estava impassível. Meus olhos mantive fixos nele. O homem dirigia como se eu nem estivesse ali, como se a morte dos meus pais, o sangue nas minhas roupas, a dor latejando no peito… tudo fosse apenas mais um dia do seu trabalho sujo. Mas ele sabia que eu o encarava, vi diversas vezes ele me olhando. Meu coração martelava no peito. Uma parte de mim pedia calma, estratégia. A outra gritava por justiça. A arma pesava na cintura. Minhas mãos se moveram antes que a razão impedisse. Peguei a arma e, num gesto rápido, encostei o cano na lateral da cabeça dele. — Olhe pra mim! — gritei. — Olhe pra mim e me diga a verdade! Quero saber por quê! Ele não se virou de leve e continuou dirigindo. Nem piscou. Só manteve os olhos na estrada como se nada tivesse acontecido. — Me diga! Por que matou meus pais? E porque ele assinou minha execução?! Quem é você? Por que eles morreram? — exigi. Minhas palavras saíram desesperadas. Ele ficou em completo silêncio. Foi então que falou com a voz baixa, controlada: — Se quiser morrer, pode atirar. Antes, eu jogo esse carro do penhasco e nenhum de nós verá a luz novamente. Ou — ele continuou, sem pressa — pode guardar essa arma, esperar até chegarmos na sua casa e decidir se quer viver ou morrer. — Casa? Que casa? Você destruiu tudo o que planejei! Destruiu minha vida! Furiosa, tirei a arma da cabeça dele e bati com força no apoio do banco, perdendo o controle. — Covarde! Desgraçado! Então eu vi um carro cinza escuro atrás de nós, tinha janelas escuras, não pertencia à nossa comitiva. Não era da minha família. Não era do internato, mas eu o reconheci. O mesmo carro que ficava parado no outro lado da rua nas tardes em que eu caminhava pelos jardins. Eu achava que era paranoia, mas agora ele estava ali, nos seguindo. — Aquele carro tá seguindo a gente… — falei baixo, quase pra mim mesma. — Eu sei — ele respondeu sem hesitar. E naquele instante, tudo fez sentido. Eles não queriam apenas me tirar do internato, queriam mesmo me apagar. Talvez usar meu corpo antes. Se aquele carro nos alcançasse, talvez não houvesse outra chance. Talvez nem esse homem estranho fosse capaz de impedi-los. Olhei o velocímetro. O carro diminuía a velocidade para entrar em uma curva. Era agora. Puxei a maçaneta, abri a porta e me joguei. O impacto me arrancou o ar. Rolei no chão de terra, sentindo o ombro rasgar com o impacto, os joelhos queimarem, a visão escurecer, mas não parei. Me arrastei até a vegetação densa à beira da estrada. Precisava sumir da vista deles. Mas ele era mais rápido. Muito mais. Antes que eu pudesse levantar, ele girou o carro de maneira extremamente louca, fazendo um barulho imenso dos pneus. Então desceu, me agarrou pelo braço e me empurrou contra o tronco de uma árvore, forte o suficiente pra me imobilizar sem me machucar. Seu corpo era uma parede. Seu cheiro, fumaça, metal e madeira. Sua voz, muito alta. — Você é burra ou só quer morrer mais cedo? — ele rosnou, com os olhos faiscando a centímetros dos meus. — Eles querem me matar! Você devia estar do meu lado! Mas também quer me matar! Todos querem, afinal!? — gritei com o pouco de ar que ainda me restava. Ele não respondeu de imediato. Apenas respirou fundo, os olhos percorrendo meu rosto com raiva… e algo mais. Alguma coisa brilhou ali por um segundo. Um lampejo de surpresa. Como se ele não esperasse alguma coisa. — Aquele carro tá ali porque eu quis — ele disse, com os dentes cerrados. — Precisávamos confirmar quem estava nos seguindo. Se havia mais deles. Você estragou tudo, princesa. Agora eles vão sumir na próxima curva e a gente perde a chance de descobrir o esconderijo. Eu pisquei, confusa. — Você queria ser seguido? É mesmo um louco! — O chefe quer todos mortos — ele disse, como quem comenta o tempo. — Mas não adianta matar um rato e deixar o ninho. Meu estômago virou. — Eu sou a isca? É isso? Ele se afastou um passo, como se minha indignação fosse uma piada. — Você é a herdeira de Jones. A última peça viva da mesa. Eles vão te caçar até o fim. E eu vou matá-los antes disso. Mas pra isso eu preciso saber onde estão. E preciso que descanse a p***a da b***a no banco do carro e me deixe trabalhar. Ele passou a mão pelos cabelos, irritado. — Era só mais uma curva… mais uma maldita curva, c*****o! E os teríamos alcançado. Mas não — ele cuspiu a palavra — Você tinha que bancar a heroína. Senti o calor subir no rosto. — Eu tentei sobreviver! Eu vi aquele carro e achei que você estava me levando direto pra eles! — Eu podia ter matado você dez vezes desde o portão do internato — ele rebateu, se aproximando de novo, o rosto perto demais. — Mas não matei. Sabe por quê? — Porque precisava de mim viva? — retruquei, tentando manter a voz firme. Ele me olhou. Longo. Como se estivesse avaliando até onde eu conseguia ir com aquilo. Depois sorriu com um canto só da boca. Frio, perigoso. — Porque não fui contratado pra isso. Seu olhar desceu para a minha boca por um segundo. Rápido, mas eu vi. E meu coração traiu meu ódio com um tropeço. — Como não foi contratado? Claro que foi. Ele estendeu a mão, a mesma que antes me empurrou contra a árvore. Dessa vez, com calma. — Vamos. Antes que alguém volte pra checar se conseguiu te matar e eu resolva dar um empurrão — Senti meu braço ser puxado pelo assassino. "Grosso!" — pensei. Eu hesitei por um instante. Então deixei que ele me empurrasse de volta ao carro. E eu ainda queria respostas. Respostas que só ele parecia ter. Então voltei. Cada solavanco do carro era como um soco nas minhas costelas, lembrando a queda, a pancada no ombro, o arranhado nos joelhos. Mas nada disso doía tanto quanto o fato de estar sentada novamente, perto do homem que matou meus pais. Quando o carro finalmente parou, eu me levantei num sobressalto, como se o próprio movimento pudesse me dizer onde estávamos. E foi aí que percebi. Os portões diante de nós se abriram automaticamente, como se já soubessem quem vinha. Era um condomínio, mas não desses comuns. Era o tipo de lugar que a maioria das pessoas nunca pisa na vida. Cercado de árvores altas, uma guarita discreta e impecável, seguranças vestidos como banqueiros. A rua era tão limpa que refletia as luzes dos postes. Cada casa que passávamos parecia saída de uma revista de arquitetura. Era surreal. — Onde…? — comecei, mas ele não respondeu. Apenas continuou dirigindo com a mesma cara sem expressão que parece querer matar a todo segundo. O carro estacionou diante de uma mansão de três andares, com portas de madeira esculpida e janelas imensas de vidro. Ele desceu e abriu a porta pra mim. Permaneci sentada por um instante, confusa, cansada… desconfiada. — Vai descer ou quer que eu te carregue? — ele perguntou, com aquela voz que parecia sempre prestes a explodir. Desci. Foi então que a porta da casa abriu. Um homem apareceu. Alto, grisalho, vestindo um blazer casual por cima de uma camisa de linho. Parecia calmo, limpo demais pra estar envolvido em algo sujo. Tinha os olhos claros, mas não frios. E quando me viu, sorriu. — Eu não acredito… — ele disse, andando até mim, rápido. — Não acredito que alguém conseguiu te encontrar e trazer pra cá com vida. E então ele me abraçou e eu congelei. Aquele homem me abraçava como se eu fosse… dele. — Filha! — ele disse, com a voz embargada. — Minha filha… finalmente! Filha? Minha mente parou. Tudo ao redor sumiu. O jardim, o carro, o outro homem, o céu, o som dos pássaros. Tudo se dissolveu. Que merda era essa? Fiquei ali, imóvel, sendo envolvida por braços de um estranho que me chamava de filha. Uma parte de mim queria empurrá-lo. A outra… não sabia o que pensar. — O que tá acontecendo? — consegui perguntar baixinho — O que vocês querem de mim? Quem é você? — tremi. O homem me soltou, mas manteve as mãos nos meus ombros, me olhando de maneira esquisita. — Marjorie… meu nome é Hector Jones. E eu sou seu pai. Você é a herdeira de Albert Jones, seu avô. Estive te procurando por anos. Meu coração parou por um segundo. Ou talvez tenha sido minha cabeça, tentando entender se aquilo era alguma alucinação provocada pela queda, pela dor, ou pela insanidade. — Não. Meu pai morreu. Ele… morreu a pouco. Esse infeliz o matou! — apontei para o que me carregou até aqui com a voz embargada — Eu vi o corpo. Eu… — Eu matei. Sou pago pra matar. Que fique bem claro — aquele brutamontes falou e o encarei. Hector me olhou com um semblante que parecia preocupado. Olhei pra trás, novamente. O assassino parecia querer me matar também. Ele apenas cruzou os braços como se nem me ouvisse e desviou o olhar. — Aqueles nojentos não são seus pais. Eu sou responsável por você. Consegui te recuperar — o homem disse, mas nada fazia sentido pra mim. — Eu não estou entendendo nada — balancei a cabeça — Cresci com eles, bom... Parcialmente. Me deram educação, e... — Bom você precisa descansar da viagem. Vai tomar um banho. Tem roupas pra você no closet e depois a gente vai conversando e eu explico tudo — senti a mão dele nas minhas costas e percebi que estava sendo levada pra dentro. Mas era tão confuso. — Eu não sei se devo... — ninguém parecia me ouvir, e foram praticamente me empurrando. Vi o homem que me trouxe ficando do lado de fora e senti um arrepio estranho quando entrei na casa e a porta enorme fechou. — Você costuma ficar trancado? — Força do hábito, minha filha — essa palavra me causava arrepios. Meu peito ainda dói por aqueles que morreram. Como simplesmente esquecer tudo? — Como sabe que é meu pai? Quem seria minha mãe? — questionei. — Venha até o escritório — o segui. Ele começou a abrir gavetas e tirar pastas. — Aqui tem um exame de DNA. Mandei fazer quando te encontrei no internato. Sua mãe morreu quando nasceu. Você foi roubada quando bebê. Ainda estávamos fragilizados com a morte dela e alguém entrou na casa. Te procuramos por anos. — E porque me roubariam? — Seu avô era muito rico. Te nomeou única herdeira dele e seu tutor receberia os ganhos até seus vinte e um anos. Depois disso você mesma poderia assumir os negócios e se apropriar dos seus direitos. — Por que um tutor? E você? Por que não cuidaria de mim? — Eu fiquei em choque com a morte da sua mãe. Ele não sabia se eu seria capaz de te assumir, então ele assinou o testamento assim. Os papéis desapareceram do cofre no dia em que você foi levada. Uma vez por ano o dinheiro foi sumindo da sua conta. Seus sequestradores sacaram cada vez numa cidade diferente. Você não percebeu porque foi mantida presa naquele internato, coitadinha. — Então foi isso? Eles me deixavam lá enquanto viviam desfrutando do dinheiro do vovô? — Provavelmente. — Mas pode ficar tranquila. Agora você tem a mim e também a todos da casa... — colocou a mão sobre meu ombro. — Não gosto daquele homem que me trouxe. Se possível o deixe longe de mim. — Não vamos nos preocupar com isso hoje. Amanhã a gente resolve os por menores. — Assenti sem entender direito. Ele me conduziu até o corredor e chamou um senhor que me levaria para um quarto. Quando iria entrar, lembrei que minhas coisas ficaram no carro daquele homem que me arrastou pra cá, então desci as escadas apressada e estava indo até a sala, quando uma voz me chamou muito a atenção: — Sim, a Marjorie é sua — parei onde estava e me aproximei — Prometi que daria minha filha em casamento pra quem a trouxesse sem nenhum arranhão e vou cumprir. Amanhã anunciaremos pra ela que vai casar com você pela manhã e oficializamos a tarde. Abri a porta de repente. Precisava saber quem estava ali, e que brincadeira de m*l gosto seria aquela, mas quase caí de costas com o que vi.
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