Depressão e internação

3005 Palavras
Acordei com o sol nascendo, me sentei na cama, essa noite não sonhei com Ash, fiquei parada olhando o sol surgir e entrar pela minha janela, estava um dia lindo, me levantei e abri as cortinas, o sol bateu na minha pele, eu senti uma vontade de tirar a roupa e ficar a vontade, foi o que fiz, fiquei nua, soltei meus cabelos e fui para a frente do espelho e me olhei, eu precisava urgente mudar aquilo, eu estava quase esquelética, escovei meus cabelos, e me analisando, deixei cair a escova no chão, senti uma exaustão tão forte que tentei me segurar no espelho e nós dois fomos ao chão, a minha sorte que o espelho caiu para o lado da parede e eu para traz, mesmo assim tive alguns cortes na perna e no meu braço quando os estilhaços vieram a tona. Acordei com Taylor batendo no meu rosto para me acordar, Becky passava álcool nos meus pulsos aflita, eu estava nua e nem me dei conta disso, sorri assim que abri os olhos, ver Taylor me deixou animada, era bom ver alguém que eu gostava muito e considerava como um irmão, passei os braços em volta de seu pescoço e me aninhei junto de seu peito e ele me abraçou forte. "Por Deus Vick!", você precisa comer e se recuperar!", ele riu, "Cadê aquela bunda maravilhosa que Ash tanto elogiava!?". Demos risadas, ele me pegou no colo do jeito que eu estava e me levou para a cama e me deitou, não estava preocupada com minha nudez, eu sei que estava horrível e eu precisava me conscientizar daquilo, Taylor tentou me cobrir, eu neguei empurrando a mão dele, minha respiração estava rápida, eu via vultos no meu quarto, minha pressão estava baixa demais e fechei os olhos novamente e apaguei. Acordei no hospital, recebendo soro, estava sozinha, mas estava no mesmo hospital que trabalhava, provavelmente Taylor e Becky chamaram o resgate ou o Dr. Smith e me trouxeram para cá, me virei de lado e fiquei agarrada a grade e olhando pela janela, eu estava em depressão e isso não era nada bom, a porta se abriu eu não virei para ver quem era, escutei o som dos passos, eram duas pessoas, elas deram a volta pela cama, eu gelei ao ver os pais de Ash na minha frente, eu estava tão fraca para dizer algo e simplesmente desabei a chorar, eu não queria vê-los tão cedo na minha frente, ainda mais os olhos azuis de sua mãe que também estavam em sofrimento, os dois começaram a chorar comigo, e desabaram no pequeno sofá-cama, ficamos por alguns minutos ali chorando, até que o pai de Ash veio até a mim, "Sentimos muito minha filha!", disse ele beijando minha testa e meus cabelos e acariciando meu braço, "Não tivemos como vir para cá... Quando soubemos de tudo". Ele fungou e tirou o lenço do bolso, eu escutava a mãe de Ash ainda chorando em soluços. "Eu perdi meu bebê!", disse em choro, "Eu não fui capaz de segurar o seu neto!... Eu não pude dar a vocês um pedacinho dele!". Dona Cristina se levantou e veio ao meu encontro e me abraçou, "Ah querida!... Eu sinto muito!". Pela primeira vez me senti amada por ela que era sempre neutra e distante, Oscar ficou acabado com á noticia, Dr. Smith entrou no quarto e se aproximou de nós. "Vick!... Seus sogros querem te levar para o Canadá e te dar toda a assistência para sua recuperação!", ele disse com uns papeis nas mãos e continuou a falar, "Você precisa ser internada e reabilitada... Se continuar do jeito que está, vai acabar morrendo!". "Eu não quero ir embora daqui... Eu tenho que ficar!", disse em lágrimas, "Meu lugar é aqui!", balancei a cabeça e sequei o rosto e olhei para meus sogros, "Ash precisa de mim ainda, eu tenho que ir a Nova York, eu prometi a ele que iria!". Oscar fechou os olhos, eu vi a dor em seus olhos, eu não tinha como ficar explicando, mas eu precisava ficar nos Estados Unidos. "Vick!"... Oscar pegou no meu rosto, "Ash pediu para cuidar de você se caso acontecesse algo com ele... E eu e sua mãe prometemos isso a ele e queremos você perto da gente... Você é nossa filha agora!". "Obrigada!... Eu fico feliz por saber que me amam como uma filha, mas eu preciso de 15 dias apenas, eu preciso ir a Nova York, eu prometi estar lá!", eu os olhei em suplica, eu precisava disso. "Filha!... Não enlouqueça!", disse Cristina pegando em minha mão, "Olha para você?... Está tão magra, seu diagnostico deu para anorexia aguda, você precisa se cuidar". Dr. Smith pôs a mão no meu ombro, "É verdade!... se não tratar de imediato, você vai vir a óbito e nem poderá ir à Nova York como deseja!". Fiquei calada olhando para ele, eu não sei mais o que queria, se era a morte ou se era viver, só agora conseguia enxergar a importância da minha vida para as pessoas que me conheciam, provavelmente meu pai a noite estaria comigo, olhei para os meus sogros e concordei com eles, mas deixei claro que voltaria assim que tivesse alta, assinei meus papeis de transferência, em três dias embarcaria para o Canadá com meus sogros e direto para a clinica de saúde. *** Oscar foi no meu lugar reconhecer os pertences de Ash e trouxe para casa algumas coisas, o relógio destruído, um pedaço da camisa que ele usava no dia e sua carteira toda chamuscada, fui autorizada a sair da clinica para acompanhar o enterro simbólico, meu marido agora pertencia ao Canadá, estaria longe de mim, caí debruçada sobre o tumulo da família, e foi o meu momento de extravasar, agora era oficial ele tinha ido embora e eu tinha que me acostumar de uma vez por todas o vazio que tinha em meu peito, gritei por ele, chamei seu nome, o enfermeiro que me acompanhava teve que me dar uma dose cavalar para me desgrudar do tumulo, e novamente quase um mês sem falar, parecendo um zumbi pela clinica, não chorava, não sorria e não escutava, Ash foi enterrado justamente no dia do um aniversário. Dezembro chegou, Cristina praticamente ia todos os dias para me ver, ficava horas comigo no jardim da clinica, às vezes falava e contava sobre a infância de Ash e como ele sempre foi um menino alegre e responsável, ela tentou engravidas duas vezes e até hoje não sabe por que perdeu seus bebês, mas ela me entendia perfeitamente como me sentia, mas eu não a olhava, apenas escutava e ficava vendo aquelas mulheres esqueléticas andando de um lado para o outro, elas eram normais, a depressão não era como a minha, de me matar a cada dia, tinha perdido o contato com o mundo e com os amigos, até Taylor sumiu, eu não podia usar o meu celular, apenas o telefone da recepção, meu pai me ligava todos os dias, a enfermeira colocava no meu ouvido e ele falava e contava histórias para mim, mas eu estava sozinha, eu não conhecia Cristina o suficiente para me sentir amada, por mais que ela demonstrasse em suas visitas. O médico entrou no meu quarto, eu estava sentada na cama olhando o tempo, nevava muito, o tempo estava nublado e não podia aproveitar o jardim, era difícil não nevar naquela cidade e quando saia o sol, os enfermeiros nos colocava para fora e aproveitar o dia, eu tinha puxado os cabelos para frente, meus ossos da coluna deveriam estar todos em evidencia, ouvi seus passos, era 10h da manhã e ele costumava a passar esse horário, puxou a cadeira e se sentou a minha frente, eu não o olhava, alias, eu não olhava mais para ninguém, eu não suportava seus olhos sobre mim. Dr. Bergman abriu minha prancheta e olhou e riscou algo, "Que novidade boa!... Você engordou dois quilos este mês, estou feliz!", ele puxou o ar pela boca, "Daqui a pouco a enfermeira vai passar e colher seu sangue para analise... Vamos ver como está sua anemia e a glicose!". "Quero ir embora!", disse. "Eu sei!... Você me fala isso todos os dias!", ele descansou a prancheta no colo e suspirou me olhando, relaxou na cadeira, "Me conte como está se sentindo Hoje!?". "Como todos os dias!", disse. "E acha que pode sair daqui e levar uma vida normal?", ele me encarou e se pôs de pé, "SE continuar assim, vai passar bastante tempo, por que não vou te dar alta... Você é uma profissional da saúde e deve saber muito bem o risco que você representa as pessoas que vai anteder numa sala de emergência!". "Você não sabe do que está falando!", disse, eu não me movia, apenas olhava a neve cair lá fora, "Eu sei trabalhar!". "Imagino que sim!", ele se aproximou e pegou no meu queixo e me fez olhar para ele, mas olhei para sua boca em vez de seus olhos, "Vick... Você é forte o suficiente e pode sair desta depressão se quiser... Não depende só dos remédios... Mas sim de sua força de vontade!". Engoli em seco, eu sabia que ele tinha razão, "Por que aqui as pessoas não se abraçam?... é proibido?". Ele me soltou e pôs as mãos na cintura, eu percebi que ele não sabia responder, ficou atônito, "Na verdade não é proibido, mas as vezes um abraço pode ser mal interpretado e já aconteceu de paciente processar um profissional por ter dado um abraço. "Eu assino um documento que não vou processar!", disse passando a mão pelo meu rosto e tirando alguns fios de cabelos que vieram para frente, meus fios estavam tão opacos e caiam muito, estava muito comprido, já batia na cintura, era incrível como ele estava crescendo muito. "Eu vou informar isso ao diretor!", ele passou a mão no meu rosto rapidamente, "De todas essas mulheres que estão aqui, mesmo sendo modelos... Você é as mais bonitas de todas e deveria recuperar essa sua beleza". Ri do que falava, "É por que não me viu antes desta merda toda acontecer... Eu tinha uma bunda enorme!". Ele riu gostosamente e voltou a se sentar, e começamos a conversar sobre o passado e de como era minha vida na fazenda e como era divertido, da coleção de carros velho de meu pai, depois que minha mãe faleceu o quintal dos fundos mais parece um ferro velho do que um quintal, estava louca para voltar lá e passar uns dias com o meu pai e meus tios, seria muito bom, queria passar o natal e ano novo com eles, mas fui informada que não poderia sair até fevereiro, ainda não tinha condições, estava debilitada demais, a enfermeira colheu meu sangue, mesmo assim o Dr. Bergman não saiu do meu quarto, era a primeira vez que eu falava depois que cheguei ali, antes eu me calava diante dele e fingia estar invisível. O Natal chegou, o salão foi enfeitado, nos juntaram todas na sala, até a ala masculina foi chamada, me sentei em um canto, fiquei olhando aquelas meninas lindas e os meninos muito bonitos, era um refugio de adolescentes eu acho, por que eu era a que tinha mais idade ali, a mais velha era Alisson, uma ruivinha delicada de cabelos ondulados, vivia maquiada, mas seu corpo era tão magro, eu ainda tinha um pouco de bunda para me deixar apresentável, as pacientes daquele lugar desistiram de conversar comigo, então eu virei um fantasma, o Dr. Bergman se juntou a mim, era seu plantão, ele não podia deixar as coisas saírem do lugar, os familiares iriam passar aquela data com a gente, nem todas recebiam seus pais, por justamente não aceitar a condição da filha ou do filho, muitos ali eram ricos e o dinheiro muitas vezes não ajudava a aproximação do sentimento, não que eu não ache que o pai daquelas crianças não os amasse, mas não conseguia enxerga-las, peguei meu caderninho de notas e comecei a escrever sobre meus pensamentos, Dr. Bergman ficou me olhando escrever, eu nunca mostrava para ele, mesmo ele me dando para eu poder expressar minhas emoções nas linhas, já estava quase terminando, só tinha 50 folhas, quando terminei, eu dei uma olhada rápida para ele e desviei o olhar. "Eu acho que preciso de outro caderno!", apertei nas mãos. "Eu vou providenciar um para você!... Desde que me deixe ler este quando terminar!". Não falei nada, apenas soltei o ar pela narina, a musica começou a tocar, alguns pais e familiares entravam na sala, via-se algumas garotas correr para abraçar, outros apenas esperavam para a vinda até eles, desviei o olhar daquele carinho e voltei a olhar minhas mãos e o caderninho. "Faltam apenas duas folha e acho que vou precisar de outro caderno para escrever, hoje vou ter muitas coisas para contar!". "Tudo bem!", Dr. Bergman se levantou e saiu em busca de outro caderno. Eu teria que me afastar de minhas lembranças, eu teria que negociar, olhei para o corredor vazio, todos estavam concentrados nos pacientes, e me levantei, a enfermeira Cindy me segurou e me olhou. "Ninguém sai daqui!". "preciso ir ao banheiro!". "Vá no do salão!", ela apontou para a porta, eu chacoalhei a cabeça, eu nunca usava e a enfermeira sabia, ela torceu a boca e me levou para meu quarto, entrei no banheiro e fechei a porta e me encostei nela, já que não tinha tranca, eu prendi meus pés na parede para que a porta não fosse aberta, juntei o caderninho no meu peito e fiquei com ele ali, meu coração disparou, eu não podia me livrar dele e deixar que lessem, era intimo demais, eu contava coisas loucas que vivi com Ash, Nigel e Rômulo, eu não queria fazer comparações, apenas mostrar que a perda de Ash foi a pior coisa que aconteceu comigo. Vinte minutos depois eu sinto a porta ser empurrada, mas não conseguem, eu forço meus pés na parede. "Me deixa em paz... Eu quero ficar sozinha!". "Não pode ficar sozinha, sabe disso!", disse o Bergman. "Solte a porta Vick!", escutei a enfermeira Cindy, "Eu vou chamar reforços e não vai ficar nada bonito para o seu lado!". "Não me ameace Cindy", estava bem lúcida, "Eu sei dos meus direitos e neste momento eu quero ficar sozinha!". "Sai Cindy... Me deixa falar com ela". Escutei a mulher resmungar, definitivamente eu detestava-a, era estúpida e não tinha paciência e nunca deixava colher meus exames, era bruta o suficiente para machucar, não existia amor em seus olhos. "Pretende passar o natal trancada no banheiro?". "Eu queria uma coisa?", disse, "E só saio daqui se concordar comigo?". Ele riu e senti escorregar pela porta, "Anda!... Desembucha!". "Que meu caderno vai permanecer comigo e só vai ler quando estivermos juntos, ele não vai sair do meu quarto!". "Tenho como negociar?". "De forma alguma!... O que está escrito aqui e intimo e muito pessoal e não quero ver rodando na mão de outros profissionais!". "Mas eu sou novo aqui Vick e eu devo comunicar a psiquiatra o que acontece com vocês e o que eu leio!". "Eu sei que faz anotações na prancheta e você pode até fazer, desde que não revele minha intimidade!". Ele riu novamente e ficamos em silencio, a porta do meu quarto foi aberta novamente, ele pediu mais um tempo, estávamos em negociação e não queria reforços e nem meus parentes. "Escutou Vick?... A o Sr. E Sra. Portman estão aí!". "Que esperem!", disse, "Eu só saio daqui com uma resposta sua!". Bergman respirou fundo, "Tudo bem!". Eu sorri e saí de traz da porta devagar, ela se abriu lentamente, o médico estava sentado com as pernas cruzadas para a porta, eu fiz o mesmo, eu usava um vestidinho azul marinho de mangas longas e meia fina para aquecer minha pele, meus cabelos estavam soltos, tinha feito uma maquiagem leve, já não tinha tanta olheira e consegui esconder, eu senti seus olhos em mim, a porta estava escancarada para nós dois, estendi o meu caderninho, leia algo para mim, aleatória e me diga se eu devo seguir esse caminho. Ele pegou o caderninho, eu o segurei com firmeza, não queria soltar, eu o olhei nos olhos, seus olhos castanhos entraram em transe, ele praticamente grudou seus olhos nos meus. "Você tem os olhos verdes mais expressivos que já vi em toda a minha vida!". Ele engoliu em seco, "É fácil identificar suas emoções, você é autentica... Limpa!". "Um anjo!", escutei a voz de Ash reverberar pelo quarto. "Isso!... Um anjo!", disse fechando os olhos, minha voz saiu fraca e dolorosa, soltei o caderno e comecei a chorar, "Ash!... por favor?... Me deixe ver você!?... Pare de se esconder de mim!". Dr. Bergman respirou fundo, eu estava ouvindo vozes novamente, ele sabia que a doze do remédio seria aumentado de novo assim que ele contasse a Dra. Ciara, Cristina entrou no quarto, todos já estavam preocupados comigo e por que não saia de lá, ao me ver chorando, ela se abaixou ao lado do médico, e engatinhou até mim. "Ah querida!", ela me abraçou e eu deitei em seu colo e chorei abraçada á sua cintura. "Senhora!... Eu acho melhor dar um calmante a ela e deixar que durma por hoje!". Os dois se olharam, ela acariciou meus cabelos, "Mas por quê?". "Ela voltou a conversar com"..., ele torceu a boca, ela entendeu. "Eu não quero ser dopada... Eu quero voltar para o salão", me sentei e o olhei, "Me deixa voltar e ficar com eles!". "Eu não posso... Você pode surtar com alguma lembrança ou com alguma musica que venha a tocar!". Chacoalhei a cabeça, "Não!... Eu vou me comportar!", olhei para ele e estiquei a mão, "Me devolve e me de o novo!". "Você pediu para eu ler!". "Eu quero que leia, mas quando estivermos só nós dois e agora não é um bom momento para ler minhas memórias!". Ele torceu a boca e me devolveu o caderno.
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