Capítulo 2

1151 Palavras
Fogo e Sangue Andar pela cidade ao lado de Vayron era algo tão natural quanto respirar. A presença dele ao meu lado fazia com que todos os olhares se voltassem para nós, e não de uma maneira casual — era medo, respeito e reverência. Nós éramos filhos do rei do inferno, membros diretos da realeza, e mesmo os demônios mais poderosos sabiam que provocar qualquer um de nós seria o mesmo que assinar uma sentença de morte. As ruas de pedra n***a da cidade ecoavam sob nossos passos enquanto caminhávamos lado a lado. A cidade era envolta em um céu escarlate, que lançava um brilho sangrento sobre os edifícios de arquitetura grotesca. As tochas de fogo azul ardiam nas paredes, iluminando os becos sombrios onde demônios menores se escondiam, temerosos demais para sequer cruzar nosso caminho. — Então, Raya — Vayron começou, com aquele tom de brincadeira que ele adorava usar quando queria me provocar —, quando é que você vai arrumar um marido? Revirei os olhos. Ele sempre fazia isso. A ideia de um casamento ou de qualquer tipo de envolvimento romântico parecia ridícula para mim. Eu já tinha tudo o que precisava: força, liberdade e poder. Para quê amarrar minha vida a alguém? — Eu não preciso de marido — respondi, cruzando os braços enquanto continuava caminhando ao lado dele. — E nossos pais concordam comigo. Vayron soltou uma risada curta, uma que só ele conseguia fazer sem parecer debochado demais. — É óbvio que eles concordam — ele disse, os olhos dourados brilhando com diversão. — Eles não querem que você saia de casa. Principalmente nosso pai. Eu bufei, mas não pude evitar um pequeno sorriso. Ele não estava errado. Asura ainda me tratava como se eu tivesse cinco anos, sempre me protegendo, sempre me observando de perto. Mesmo sabendo que eu era forte o suficiente para me defender, ele não conseguia parar de agir como um pai superprotetor. Scarlett, minha mãe, era mais contida, mas eu via o olhar dela sempre que eu saía para lutar ou explorar. Era o mesmo olhar que ela tinha quando pensava que poderia me perder. — Não vou casar com ninguém — falei, firme. — E se alguém tentar me forçar, eu o queimarei até virar cinzas. Vayron sorriu, seus caninos ligeiramente à mostra. — Essa é minha irmãzinha — ele disse, dando um leve soco em meu ombro. — Mas, por favor, escolha um lugar discreto para incinerar os pretendentes, sim? A gente ainda precisa manter certa diplomacia com os outros reinos infernais. — Vou tentar — retruquei, com um leve sorriso. Continuamos andando por mais alguns minutos em silêncio confortável. Vayron sempre foi assim: provocador, sarcástico, mas também o melhor irmão que eu poderia ter. Mesmo sabendo que ele seria o próximo rei, ele nunca deixou que isso criasse uma barreira entre nós. Ele me tratava como igual, e isso significava mais para mim do que ele poderia imaginar. Depois de um tempo, parei no meio da rua e olhei para ele. — Preciso ir — avisei. Vayron ergueu uma sobrancelha. — Caçar? — Sempre. Ele balançou a cabeça, sorrindo. — Não se divirta demais. — Não prometo nada. Abri minhas asas negras, sentindo o poder se espalhar por minhas veias. Uma corrente quente subiu pelos meus braços enquanto o fogo começava a dançar em minhas mãos. Vayron deu um passo para trás, abrindo espaço para que eu pudesse alçar voo. — Toma cuidado, Raya — ele disse, o sorriso ainda no rosto, mas os olhos carregando uma leve preocupação. — Eu sempre tomo. E então eu me lancei para o céu. A sensação de voar era libertadora. O ar quente do inferno corria pelos meus cabelos enquanto eu subia cada vez mais alto. Minhas asas se abriam completamente, criando correntes de ar atrás de mim. A cidade ficava menor abaixo de mim enquanto eu me dirigia para as terras externas — as fronteiras onde os monstros selvagens ainda vagavam livremente. Eu podia sentir a presença deles mesmo antes de vê-los. A energia deles era densa, cheia de violência e desejo por sangue. Criaturas deformadas e monstruosas, com garras, presas e olhos brilhantes, espreitavam nas sombras das montanhas negras. Um sorriso selvagem surgiu em meu rosto enquanto descia em alta velocidade, pousando com força suficiente para rachar o chão. As criaturas imediatamente se viraram para mim, os olhos brilhando em tons de vermelho e verde. Eles sentiram minha presença. Sentiram o poder em meu sangue. — Venham — eu sussurrei, estendendo as mãos enquanto o fogo começava a se acumular nelas. — Não tenham medo. O primeiro monstro atacou sem hesitar, correndo em minha direção com garras prontas para me dilacerar. Eu apenas ergui a mão e uma onda de fogo n***o explodiu de meus dedos, envolvendo a criatura em chamas. Ela gritou, contorcendo-se enquanto queimava de dentro para fora, até que nada restasse além de cinzas. Outro monstro se lançou sobre mim, mas eu desviei facilmente, girando no ar e lançando uma rajada de fogo diretamente em seu peito. O monstro foi arremessado para trás, batendo em uma pedra com força suficiente para rachá-la ao meio. Mais três se aproximaram. Meus olhos brilharam com prazer. — Assim é melhor — murmurei. Eu avancei, usando minhas asas para aumentar minha velocidade. Saltei sobre o primeiro, cortando sua cabeça com uma lâmina de fogo que formei em minha mão. O segundo tentou me atingir com as garras, mas eu me abaixei, girando meu corpo enquanto envolvia sua cabeça em fogo. O terceiro hesitou por um segundo, o que foi seu erro fatal. Eu o encarei, sentindo o calor em minha pele aumentar. — Queime — sussurrei. O fogo explodiu de dentro dele, consumindo sua pele, carne e ossos até que não restasse nada além de um monte de cinzas. Fiquei em pé no meio do campo de batalha, o fogo ainda crepitando em minhas mãos. A adrenalina pulsava em minhas veias, o cheiro de carne queimada preenchendo o ar. Minha respiração estava pesada, mas um sorriso satisfeito permanecia em meu rosto. Eu gostava disso. Gostava de sentir o poder correndo por meu corpo, de saber que eu poderia destruir qualquer coisa que ousasse se opor a mim. Esse era o meu domínio, o meu elemento. E eu sabia que ninguém poderia me parar. Depois de um tempo, deixei o fogo se apagar em minhas mãos e olhei para os restos dos monstros. O silêncio era reconfortante, como se o próprio inferno reconhecesse minha vitória. Bati as asas uma vez e me lancei de volta ao céu, retornando para casa com o sabor da vitória ainda na boca. Eu sabia que Vayron provavelmente faria algum comentário sarcástico sobre o cheiro de queimado em minhas roupas, mas isso não importava. Eu era Raya, princesa do inferno. E nada — nem monstros, nem demônios, nem mesmo o destino — poderia me parar.
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