O Inimigo Vem Aí

1745 Palavras
O INIMIGO VEM AÍ Quando de Tóquio o exército japonês soube da chegada americana ao Kiribati, logo se mobilizaram para irem para os atóis. Todo o exército foi avisado e logo Osanaga, sob ordens do general Shibazaki, reuniu um grande grupo de combatentes. Porém, havia um impasse. Os soldados j*******s estavam no Palau em uma luta travada. Qualquer mobilização de contingente para o Kiribati poderia significar uma derrota no Palau e outras ilhas. Não era viável deslocar o exército. Shibazaki sabia disso. Fez uma reunião rápida com Osanaga, ainda em Tóquio. Era preciso se posicionar quanto à chegada americana aos atóis. Seria um perigo? Grande perigo ou era algo tolerável? Àquela altura, Osanaga entendeu que era tolerável. – Eu não sei do senhor, general, mas ao meu ver, os americanos ainda não apresentam uma ameaça. – Com quais critérios fazes este julgamento? – Pelo fato de o exército americano não aspirar outras terras, além das Filipinas que os pertencem. – É plausível. O que mais? – Acredito que a investida em Kiribati é apenas para a defesa da fronteira com o Hawaii. – Bem. É algo que eu não havia pensado. Muito obrigado! – Douitashimashite (De nada)! O Império do Japão já havia controlado o controle marítimo pertencente à ilha de Palau. Essa ilha ficou sob o domínio japonês até o final da Segunda Guerra. As tropas não poderiam cochilar. Ficaram de pé, sempre em alerta, caso aparecesse o inimigo. Os americanos controlavam as Filipinas (suas colônias). Palau é um território próximo e se fosse tomado pelos americanos, outras regiões sob o domínio do Império seriam ameaçadas. Na ilha, cuidava o comandante Nakagawa, junto com seu braço direito Inoue. Os dois fizeram um inteligente trabalho de “colonização” da ilha. Muitas nativas foram estupradas por soldados j*******s e engravidaram. Outros tantos foram alfabetizados na língua japonesa. A forma com que os j*******s lidavam com os nativos era brutal. Todos os palauenses tinham total respeito e temor pelos j*******s. O temível Império do Japão dava as suas caras, mostrando a tirania e o imponente poder capaz de exterminar o invasor. Essa fama do Império não era de conhecimento exclusivo dos nativos de Palau e de outras ilhas, mas, também, dos soldados americanos. Os combatentes que ficaram nas Filipinas não temiam em forçar uma invasão ao território sob o domínio japonês, pois sabiam que seria uma investida frustrada. A despeito disso, formaram a estratégia no Kiribati para que antes dos j*******s pudessem “doutrinar” os nativos a respeitar e dar apoio aos soldados norte-americanos. O apoio para alguns era bem generoso. Smith fazia um árduo trabalho em demarcar o campo para uma possível batalha contra o exército inimigo. Fazia treinamento de tiro e bombardeio. Fazia inúmeros treinamentos de defesa. Muitos pensam que Palau foi invadida pelos j*******s somente no verão de 1944. Mas isso não faz sentido. No ano de 1944, Palau já estava sob um tipo de exploração nipônica descomunal. Seria impossível em tão pouco tempo boa parte dos nativos saberem falar o básico de língua japonesa. No ano de 1943, já era notório essa influência japonesa em solo palauense. As pessoas eram oprimidas e tinham que concordar com tudo o que os homens de Nakagawa ordenavam. Qualquer desvio de conduta (o menor que fosse) era passível de morte. A pena de morte era algo que não necessitava de assinatura de um juiz, apenas da vontade do opressor sobre o oprimido. O sangue era quase que diariamente jorrado sobre a bela ilha nos primeiros anos de invasão e dominação japonesa. Com o tempo, os nativos passaram a temer as espadas e armamentos do Japão. O plano americano era ambicioso demais. Não queriam forçar uma invasão boba em Palau. Tinham agora uma nova base, no Kiribati. Não havia outra estratégia a não ser reunir os territórios sob o domínio americano e forçar uma investida maior contra as ilhas j*******s. O plano era ousado, mas Smith disse que estava dentro (“I’m in game”). Seu jeito aventureiro e sempre bem animado fazia dele um combatente diferente. Fato que o colocou como o oficial dos fuzileiros. Um homem forte, alto, corpo atlético, charmoso e bastante inteligente. Junto com Spruance, Allan Smith desenvolvia suas habilidades de estratégia de guerra. Não vacilava em nenhum ponto. Isso lhe rendeu inúmeros elogios. Em família, conversava com o mataniwi (líder), ou tentava se comunicar, sempre gesticulando e apontando objetos. Às vezes usava onomatopeias. O mataniwi e também te karo (pai) de Saainwa era um homem sério, na maior parte do tempo calado. Não se preocupava com a presença do soldado ali, apesar de ter uma linda jovem como filha. Saainwa não parava de olhar para ele. “Que d***a! O que essa garota tem de errado? Será que ela perdeu algo aqui ou apenas fica admirando a minha cor de pele?”, Allan já estava sentindo-se desconfortável com aquela cena. Todos os dias às cinco da manhã, levantava para pegar os primeiros raios de Sol e para seguir com os seus trabalhos na base militar. A base estava situada no coração de Tarawa, na saída para o mar. Aos poucos, a pequena vila de comerciantes locais se espremia para caber no espaço ocupado pelas tropas. Nem o líder local, nem algum nativo qualquer entendia aquele fato, mas todos sabiam que o mundo estava em guerra. Não houve sequer uma resistência do governo local de Kiribati sobre aqueles homens do exército e marinha norte-americanos transitando pelas areias dos atóis. O único aviso foi: “cuide da nossa segurança”. Felizmente, os órgãos do governo, principalmente os de relações exteriores, usavam bem o inglês. Não era um inglês impecável, mas era compreensível. Com o objetivo de preparar bases aéreas capazes de apoiar operações no meio do Oceano Pacífico, das Filipinas até as ilhas principais do Japão, os Estados Unidos planejaram assumir o controle das Ilhas Marianas. Esta região, contudo, era muito bem defendida. A doutrina naval da época sugeria que para apoiar uma ofensiva insular terrestre era necessário enfraquecer as defesas costeiras e proteger a força de invasão, e isso seria conquistado ao assumir o controle de regiões próximas ao alvo desejado. Ilhas próximas capazes de apoiar tal esforço perto das Marianas eram as Ilhas Marshall, a nordeste de Guadalcanal (nas ilhas Salomão). Tomar as Ilhas Marshall iria fornecer uma base para lançar uma ofensiva contra as Marianas, mas para chegar lá era necessário passar pela ilha de Betio, no lado oeste do Atol de Tarawa, nas Ilhas Gilbert (Kiribati). Assim, para eventualmente invadir as Marianas, era necessário antes tomar Tarawa, o que foi feito com muita destreza por aqueles homens. Mas, se Tarawa seguiu por um curto período de tempo resistente à chegada dos americanos, Betio, logo ao lado, foi cruelmente invadida e explorada pelos j*******s. Por um pé dentro de Betio era um grande desafio para os homens de Smith. Sabiam do contingente (dezoito mil fuzileiros), mas sabiam do perigo do Império Japonês e o que fizeram com civis neozelandeses e fijianos ali. Smith traçou um plano que, graças à boa convivência com os nativos em Tarawa, daria certo. Ficariam em solo gilbertês por um período indeterminado até tentarem uma investida contra os j*******s em Betio. Algo que agradou a todos. O contingente de trinta e cinco mil homens ainda não havia chegado plenamente nos atóis. Somente em julho do ano de 1943, um mês depois da chegada de Smith e seus dezoito mil fuzileiros, os demais soldados chegaram ao solo do Kiribati. Foram bem recebidos, inclusive pelos nativos de Tarawa, e incorporados à grande base. Se Smith sentia-se animado “in the game”, precisava agora saber “jogar”. – Tudo é estratégia, meu caro Smith. Eu confio na sua inteligência para vencermos o inimigo. – Disse Turner, batendo com a mão direita aberta sobre o peito do soldado fardado. Seria uma árdua tarefa para todos eles. Felizmente, Smith sentia-se em casa vivendo com a família Tatake. Lá estava Saainwa, em mais uma noite na companhia do estrangeiro. Ela nada sabia sobre ele, além de sua atuação militar e de sua nacionalidade. Também sabia que era solteiro ou pelo menos não usava aliança no dedo. Mesmo que ela quisesse descobrir alguma coisa de Allan Smith ficaria no silêncio, pois só sabia falar “hi” em inglês. Smith brincava com o irmãozinho de Saainwa. O jovenzinho de apenas sete anos de idade era bastante enérgico e divertido. Aos poucos, o soldado tentava introduzir um pouco do vocabulário inglês para aquele garoto. Saainwa ficava da janela da casa de madeira (no estilo das casas do Kiribati), admirando os dois brincarem juntos no quintal. Brincavam de bola, de corrida e, às vezes, Smith o pegava no colo para lhe fazer cócegas. A amizade dos dois estava indo muito bem. Pareciam irmãos de sangue. Assim eram como Tarimtarim (irmãos) ou Raoraom (amigos). Para todos os efeitos, se davam muito bem. Smith dormia num pequeno quarto de hóspedes improvisado. A cama era feita de palha e um travesseiro não muito fofo massageava sua cabeça. Uma leve chuva caía pela madrugada. Pensamentos a mil. Ele bem sabia que em pouco tempo os j*******s tentariam invadir Tarawa. A sua missão ali era mais do que fortalecer a base norte-americana para futuras invasões sobre o solo japonês. Ele estava ali para defender aquela família que o acolhera e todos os civis do Kiribati. Localizado a 3 900 km do sudoeste de Pearl Harbor, Betio era a maior ilha no Atol de Tarawa. A ilhota, plana no extremo sul de uma lagoa, era onde estava grande parte da presença militar japonesa. Em um formato de triangulo, a ilha tem apenas 3,2 km e tem pelo menos 730 metros de largura. Um longo cais foi construído na parte saliente da costa norte que poderia desembarcar suprimentos facilmente, com recifes rasos cercando a ilha. A costa norte tinha uma grande lagoa, enquanto as partes sul e oeste tinham águas profundas abertas para o oceano. – Não vamos deixar os americanos invadirem Betio. Este lugar é nosso! – Exclamou Osanaga, golpeando uma pequena mesa de madeira, fazendo com que papéis (anotações de estratégias militares) caíssem no chão. Olhos assustados dos outros cinco que estavam com ele numa pequena reunião da madrugada. Para eles, dormir era para covardes. Desde a chegada dos americanos em junho, não conseguiam mais descansar. Precisavam pensar seriamente num plano para evitar as investidas norte-americanas. Agiriam, assim que o Sol nascesse.
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