2- MORRO

1210 Palavras
CAPÍTULO 2 MANUELA NARRANDO Assim que a porta do meu apartamento se fechou atrás de mim, senti o estômago dar um nó. Não era medo. Era adrenalina — pura, quente, pulsando como se meu corpo finalmente tivesse acordado. O elevador privativo desceu tão silencioso quanto sempre, só o som leve da minha respiração preenchendo o espaço. Me olhei no espelho da cabine: ruiva, olhos verdes, maquiagem no ponto… parecia que eu estava indo pra uma festa de gala, não pra um baile no meio de um morro. Quando as portas se abriram no térreo, a rajada de ar quente do Rio me atingiu de uma vez. A rua lá embaixo estava tranquila, quase vazia. Os prédios luxuosos iluminados, o segurança da portaria nem imaginando que eu não tinha aprovação nenhuma pra sair. Eu caminhei normalmente — como se estivesse indo pra um jantar qualquer — até ver o farol baixo piscando duas vezes. Era a Diana. O carro dela era todo preto, um modelo novo, o tecido dos bancos de couro, mas tinha música alta e um cheiro doce de bala de hortelã misturado com perfume doce. Era tão diferente do carro do motorista do meu pai que parecia até outro mundo. Diana baixou o vidro e abriu um sorriso enorme. — Eita, ruiva… — ela disse, me olhando de cima a baixo. — Se o morro te ver assim, vai ter gente batendo continência, hein? Eu ri, meio nervosa. — Para, Diana… — Entra logo antes que seu porteiro resolva te dedar — ela brincou, destravando a porta. Entrei. Assim que coloquei o cinto, Diana acelerou saindo da rua arrumadinha do meu prédio. — Tá pronta pra ver um mundo novo? — ela perguntou, animada, virando a esquina como quem vira a página de um livro. Engoli seco. — Acho que tô. Ela riu alto. — Ninguém tá pronta pro baile a primeira vez. Mas relaxa: tu tá comigo. A cidade foi mudando na medida em que a gente avançava. As ruas largas e silenciosas da zona sul deram lugar a avenidas com gente andando, vendedores de rua, música saindo de bares pequenos. Depois, mais pra frente, vielas que subiam sinuosas, prédios mais antigos, motos cortando o trânsito. E lá no alto… As luzes do morro brilhando como um universo próprio. Eu pressentia a batida da música antes mesmo de chegar perto. Era grave, pesada, pulsante, como se chamasse a gente pelo nome. Diana abriu um sorriso ainda maior quando viu meu olhar grudado na janela. — Parece outro planeta, né? — Parece liberdade — respondi, sem nem pensar. Ela bateu no volante, animada. — SABIA que cê ia gostar disso! O caminho começou a ficar mais estreito, motos passando dos dois lados, gente conversando na porta de casa, crianças correndo mesmo à noite. Eu me sentia deslocada e, ao mesmo tempo, estranhamente confortável. Como se eu estivesse vendo o Rio pela primeira vez — o real, o vivo, o que meu pai nunca deixou eu conhecer. Quando subimos mais algumas curvas, Diana diminuiu a velocidade. — A partir daqui tem que ir devagar — ela explicou. — O pessoal da contenção fica de olho. É normal. Só não olha torto pra ninguém. Meu coração disparou. — A contenção? Tipo… homens armados? Ela sorriu de canto. — É o morro, Manu. A lei é outra. Mas relaxa. Eu moro aqui, todo mundo me conhece. E você tá comigo. A batida da música ficou mais forte. O clima ficou mais quente. O barulho — motos, vozes, risadas, som alto — tudo se misturava como se fosse uma única vibração viva. E de repente eu entendi. Ali, naquele mundo que meu pai chamava de perigoso, tudo parecia mais real do que qualquer coisa que eu já tinha vivido. Diana estacionou perto de uma viela iluminada por luzes coloridas e piscantes. Ela desligou o carro e virou pra mim, séria por um instante. — Pronta? Eu respirei fundo. — Vamos. Saímos do carro. O morro parecia respirar por si só, cheio de vida, cheiro de churrasco, perfume forte, fumaça de narguilé, risadas altas. A música tocava tão alto que eu sentia no peito. Diana jogou o braço por cima dos meus ombros e riu. — Hoje, ruivinha… tu vai conhecer o baile do morro. O caminho até a quadra era iluminado por luzes coloridas penduradas de um lado ao outro das vielas, como se o morro tivesse se enfeitado pra festa. A cada passo que eu dava, a batida do funk vibrava mais forte — como se estivesse entrando direto pela sola do meu sapato. Diana me puxou pela mão, animada, desviando de grupos que conversavam, gente dançando na rua, vendedores de espetinho, meninas com roupas brilhantes e caras maquiados demais. Tudo era intenso, exagerado, vivo. — Segue comigo — ela disse, abrindo caminho com a naturalidade de quem cresceu ali. A viela se abriu de repente. E eu juro que perdi o ar. Era uma quadra enorme, gigantesca, com arquibancadas nas laterais, luzes piscando em tons vermelhos, azuis e verdes, fumaça subindo de máquinas que deixavam o ar quente e úmido. Tinha gente por todo lado — dançando, bebendo, rindo, pulando ao som do MC que comandava o baile lá do palco. O chão tremia com a batida. Meu peito tremia também. — Meu Deus… — sussurrei, sem conseguir esconder o espanto. — Isso tudo acontece aqui… toda semana? Diana riu. — Às vezes mais de uma vez. Aqui o morro vive, Manu. Aqui ninguém dorme. Passamos pela entrada, onde dois homens grandes, tatuados e armados observavam todo mundo. Um deles olhou pra mim por um segundo — só o suficiente pra reparar que eu era claramente de fora. Meu rosto queimou, mas ele só balançou a cabeça em cumprimento pra Diana. — Tranquilo, Manu — ele disse para ela, abrindo espaço. — Pode passar. Diana piscou de volta. — Valeu, Joca. Eu engoli seco e entrei. A música bateu no meu corpo como um choque elétrico. A multidão parecia se mover em ondas, sincronizada com o som, com o calor, com a energia do lugar. Era esse o tal baile? Eu nunca tinha visto nada assim. Era diferente. Era lindo. Era… livre. As luzes refletiam no meu cabelo ruivo, e algumas pessoas chegaram a olhar duas vezes. Eu não sabia se era admiração, curiosidade ou surpresa. Talvez tudo junto. Diana pegou minha mão de novo. — Vem. Vamos achar um lugar pra gente ficar antes que eu te perca no meio desse mundaréu de gente. Ela me guiou até o canto da quadra, onde as luzes eram um pouco menos fortes e dava pra ver melhor o palco, o DJ, as pessoas dançando até o chão. Eu estava completamente hipnotizada. Gente de todas as idades, estilos, cores, ritmos. Meu mundo sempre foi tão… controlado. Polido. Limpo demais. Ali não tinha nada disso. Ali tinha verdade. — Cê tá elétrica — Diana riu, me observando. — Tô amando ver a madame se libertando. — Eu nunca vi tanta vida num lugar só — admiti, ainda olhando tudo ao redor, tentando absorver sem perder nada. — Isso aqui, amiga… — ela disse, passando o braço pelos meus ombros. — É o morro. E hoje é sua primeira noite de verdade nele. Continua.....
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