Julia
Tem coisas que o corpo entende antes da cabeça.
Naquela tarde, eu descobri isso do jeito mais incômodo possível.
O estampido ainda parecia vibrar no ar quando voltei pra dentro da lanchonete, jogando o saco de lixo no canto e limpando as mãos no avental como se o simples gesto pudesse arrancar de mim a sensação estranha que tinha se grudado na minha pele. Mas não arrancou. Ficou ali. Pesada. Quente. Viva.
Porque eu sabia de onde vinha.
Ou, pior, de quem vinha.
— Júlia, tu tá me ouvindo? — Cida estalou os dedos na minha frente, me puxando de volta.
Pisquei algumas vezes.
— Tô. Fala.
Ela me entregou dois copos de refrigerante e arqueou a sobrancelha, desconfiada.
— Tu ficou branca do nada. Foi o tiro?
Soltei uma risada curta, sem humor.
No morro, perguntar se foi o tiro era quase piada. Tiro fazia parte do fundo musical da nossa vida. Não devia mais gelar ninguém. Não daquele jeito.
— Foi nada — menti. — Só canseira.
Ela me observou por mais um segundo, como se soubesse que eu estava escondendo alguma coisa, mas deixou passar. Melhor assim. Nem eu saberia explicar direito o que tinha acontecido lá fora.
Ou o que tinha acontecido dentro de mim.
Continuei trabalhando, atendendo mesa, limpando balcão, fazendo conta de cabeça, levando salgado e café como se estivesse tudo normal. Mas não estava. A sensação de estar sendo observada não me largava. Era absurda, porque o morro inteiro vivia olhando pra todo mundo. Sempre tinha alguém medindo tua roupa, teu passo, tua pressa, tua tristeza. Só que aquilo era diferente.
Aquilo não parecia curiosidade.
Parecia marcação.
No fim do expediente, o céu já começava a escurecer, tingido num laranja sujo que logo seria engolido pela noite. Tirei o avental, prendi melhor o cabelo e peguei minha bolsa. Cida ainda me ofereceu companhia até metade da subida, mas neguei. Eu odiava parecer assustada.
Mesmo quando estava.
Subi sozinha, o tênis raspando no cimento irregular, desviando de criança correndo, de moto passando perto demais, de homem parado em esquina com fuzil pendurado no peito como se fosse extensão do corpo. O morro mudava de rosto quando a noite caía. De dia, ele ainda fingia normalidade. De noite, mostrava os dentes.
E eu conhecia cada um deles.
Quando virei a rua da quadra, vi o grupo primeiro.
Homens espalhados, conversa baixa, respeito no silêncio. Não era bagunça de esquina. Era outra coisa. Era ordem. Era poder. E no meio deles, sem fazer esforço nenhum pra chamar atenção, ele estava ali.
Bruno.
Até então, eu só sabia o nome pelos sussurros. Pelas histórias jogadas de boca em boca. Pelo jeito como as pessoas mudavam de tom quando falavam dele. Não era só medo. Era aquele tipo de respeito construído na violência, no controle, na certeza de que ninguém ousava peitar.
E eu entendi por quê no instante em que meus olhos bateram nos dele.
Foi como levar um choque sem encostar em fio.
Ele estava encostado de leve na parede, uma mão no bolso, a outra solta ao lado do corpo, o rosto sem pressa, sem sorriso, sem necessidade de provar nada pra ninguém. Não era bonito de um jeito delicado. Era bonito de um jeito errado. Perigoso. Daquele tipo de homem que parece ter sido feito do mesmo material da noite: escuro, silencioso e cheio de coisa que a gente não vê, mas sente.
Eu devia ter baixado os olhos.
Toda mulher sensata baixaria.
Só que eu nunca fui muito amiga do sensato.
Continuei andando, firme, embora o ar parecesse mais pesado a cada passo. Quando fiquei perto o bastante, senti o olhar dele me atravessar devagar, como se estivesse lendo coisa demais em mim. O meu rosto. Minha boca. Minha postura. Meu atrevimento. E aquilo me irritou na mesma medida em que bagunçou alguma coisa aqui dentro.
Porque não era um olhar comum.
Não tinha malícia vazia. Não tinha pressa de homem folgado. Não tinha sorriso barato.
Tinha outra coisa.
Promessa.
Ameaça.
Os dois misturados do jeito mais perigoso possível.
— Tá olhando o quê? — perguntei antes que o juízo me segurasse.
Um dos homens ao lado dele endureceu na hora, claramente surpreso com a minha coragem ou falta de noção. Mas Bruno não se mexeu. Só inclinou a cabeça de leve, como se tivesse acabado de encontrar exatamente o tipo de problema que gostava de observar.
— Você — ele respondeu, a voz baixa, firme, sem elevar um tom sequer.
Meu estômago deu um nó ridículo, desses que a gente sente e odeia sentir.
Ergui mais o queixo.
— Perdeu alguma coisa?
Os olhos dele desceram pelo meu rosto outra vez, lentos. Quase calculados.
— Ainda não.
O silêncio que caiu entre a gente foi pior do que se ele tivesse gritado. Tudo ao redor pareceu distante por um instante. O funk subindo da viela, o rádio chiando, alguém rindo na laje, uma criança sendo chamada pela mãe, tudo ficou pequeno demais perto daquele olhar preso no meu.
E a pior parte?
Eu não conseguia desviar.
Não porque estivesse encantada. Não era isso. Era outra coisa. Era como encarar uma porta escura e saber que, se abrisse, nunca mais fecharia direito.
Soltei o ar pelo nariz, tentando segurar o tremor que quase não veio.
— Então aprende a não encarar os outros desse jeito — falei, seca.
Passei por ele antes que meu corpo denunciasse o que minha boca jamais admitiria. Mantive a coluna ereta, o passo firme, a respiração presa. Só voltei a sentir o ar entrando de verdade quando dobrei a esquina.
Mas aí já era tarde.
Porque eu sabia.
Sabia pelo arrepio na nuca. Pelo calor estranho no peito. Pela sensação incômoda de que alguma coisa tinha começado sem a minha permissão.
Eu tinha cruzado com Bruno pela primeira vez.
E o olhar daquele homem ficou em mim como ficam as coisas perigosas: em silêncio, mas prometendo voltar.