• um ano depois •
BRUCE CARTER
Esmurrei o volante sentindo raiva. Meu primeiro dia na delegacia dessa m***a de cidade e a p***a do carro pára no meio da pista.
Desço do mesmo tentando manter a calma e o empurro até o acostamento. Olho a hora no relógio em meu pulso e vejo que faltam trinta minutos para que todo o meu plano de chegar mais cedo desça pelo ralo. Abro o capô do carro e resmungo um palavrão ao não entender nada daquilo. Maldita hora em que prometi para a Margot que usaria esse carro que ela me deu. Minha vontade é pôr uma pedra no acelerador e deixar que ele vá até o penhasco mais próximo.
Ouço barulho de motor e então olho para a estrada, logo vendo o Impala 1969 preto diminuindo a velocidade e parando atrás do meu carro. Quando o motorista abre a porta e sai do mesmo, preciso me segurar para não fazer uma cara de paspalho. Ao contrário do que eu pensava, quem sai do veículo é uma mulher alta, usando uma calça larga, tênis de exercícios, um top preto e uma bandana preta na cabeça que prende seus cachos castanhos no alto. Ela bate a porta do carro e caminha até mim.
— Precisa de ajuda?
Sua voz me atinge como um soco na cara, me tirando dos devaneios e dos questionamentos.
Fala sério.
A mulher é bonita, curte carros antigos e é prestativa.
Onde posso casar com ela?
— Ele parou. — digo embasbacado, mas logo firmo a voz — Parou.
— Parou no tranco ou simplesmente parou? — ela se aproxima de mim
— Faz diferença? — ergo uma sobrancelha e ela ri, se debruçando no motor
— Só responde a pergunta.
— Ele foi perdendo a força e apagou.
Ela me olha como se não ouvisse direito e então eu a encaro de volta, confirmando o que disse. Ela ri um pouco e observa o motor do carro com atenção, levando a mão até um dos arranjos da bateria.
— Está vendo aqui? — pergunta mostrando o lugar onde está mexendo
— O que tem? — franzo o cenho
— Tá vendo que está frouxo? — balança o fio solto
— Ah, que m***a! — resmungo, vendo-a apertar o fio com as mãos
— Prontinho. — diz batendo o capô e checando se está bem fechado, o que faz com que seus s***s se movimentem sob o tecido do top — Mas vai precisar levar na oficina pra apertar isso, senão a bateria vai te deixar na mão mais vezes.
— Você é mecânica? — a olho
— Nas horas vagas. — dá de ombros
Entro no carro e quase grito de felicidade quando giro a chave e ele liga de novo. A mulher bate minha porta e debruça na minha janela.
— Salvou meu primeiro dia de trabalho. — digo olhando o relógio e vendo que ainda estou na hora
— É o novo policial da cidade? — ela pergunta olhando para a pistola exposta no banco do carona
Merda!
— Detetive. — corrijo — Ficou muito evidente? — a olho
— Bom, nunca te vi aqui e você tem uma pistola no seu carro.
— Claro. — ri fraco — Mora aqui há muito tempo?
— Alguns meses. — ela diz desviando o olhar e endireitando o corpo, desencostando do meu carro — Bom, boa viagem e... Bom trabalho. Espero que goste da cidade.
— Você gosta?
— Pra uma cidade com o nome de portões do céu, até que é interessante. — ela dá de ombros — Tchau. — começa a caminhar para o seu carro
— Ei. — ponho a cabeça pra fora da janela — Se precisar de alguma coisa, vá ao distrito me procurar.
— Vou ficar bem longe daquele distrito. — ela diz em voz alta sem se virar para mim
Eu fico parado, ainda embasbacado observando-a entrar no carro e seguir seu caminho com ele. Solto uma risada e piso fundo no acelerador.
Dá pra acreditar no que aconteceu aqui?
***
— Detetive Carter. — um homem alto, cabelos loiros esbranquiçados penteados para trás, usando blusa social e gravata vem até mim e aperta minha mão
— Você deve ser o... — ergo uma sobrancelha enquanto aperto sua mão
— Andrew Stone, seu novo parceiro. — se apresenta
— Ah, sim, li sobre você. — digo — Espero que seja tão bom quanto sua ficha.
— Também li sobre você. — era o que eu temia — Espero que alguns pontos ali não sejam verdade.
Sorrio para ele. Apesar do comentário, não tenho vontade de socar seus malditos dentes perfeitos.
Andrew me mostra a delegacia e me apresenta a algumas pessoas. Minha mesa é de frente para a dele, bem na frente da sala do comissário, no segundo andar da delegacia. Alguns me encaram com indiferença, outros cochicham baixinho sobre mim. Deve ser difícil ter um novo detetive sênior na área.
Coitado de quem atravessar meu caminho.
— Stone! Carter! — a atendente grita e eu debruço na divisória do andar — Chamado pra boate.
— Olympus Club? — Andrew questiona já descendo para o térreo
— E existe outra? — ela ergue uma sobrancelha atrevida
— Qual o problema? — desço os degraus
— Uma das funcionárias abriu a boate e encontrou o corpo de uma das meninas jogado no salão. — ela explica
— Isole a área. — comando em voz alta para os oficiais que se aprontam para ir na nossa frente — Eu não quero ninguém que não seja de lá no local.
— Entendido! — eles respondem
Entramos no carro do departamento e Andrew dirige como um marica até o outro lado do centro da cidade. O letreiro rosa com o nome do local está apagado e há um cordão de isolamento por toda a área do estabelecimento.
Eu entro na boate e então reparo que não é nada muito luxuoso, mas é muito aconchegante. Há sofás de couro branco e rosa espalhados pelo lugar, pequenos palcos com pole dance e um palco principal com três pole dances ao fundo. Vasculho o local com o olhar e percebo que o corpo da vítima está jogado no pequeno palco à esquerda. Me aproximo deles enquanto a perícia tira fotos.
— Relatório. — peço ao ver a loira morta no chão sobre uma poça de sangue
— Louise Hernández, vinte e cinco anos, trabalhava aqui há, pelo menos, cinco anos. Segundo a outra mulher que trabalha aqui, esse era o palco que ela dançava. Quinze facadas. — a forense diz — Ela resistiu. Há cabelos e tecido sob as unhas.
— Algum namorado ou cliente zangado? — coloco as mãos na cintura, enquanto observo o padrão da cena do crime
— As meninas aqui só dançam, mas se quiserem sair com um dos clientes é por conta delas.
— Conta delas, sei. — murmuro — Sabem que prostituição é crime, não é?
— Até então, isso é só um clube de dança e happy hour, novato. — Andrew bate em meu ombro ao se aproximar
— Ouvi que ela saía com um mesmo cliente há umas duas semanas. — a forense conta
— Stone, vamos fazer uma varredura. — digo — Qualquer coisa que acharem é pista.
— Olha, já tá agindo como se fosse meu chefe.
Reviro os olhos a tempo de ouvirmos um grito. Um dos oficiais surge da porta dos fundos e diz que há um corpo na caçamba de lixo. Ando o mais depressa possível até o lado de fora e vejo o corpo de um cara esquisito, todo dobrado na caçamba. A forense mexe em seus bolsos e encontra a carteira.
— Achamos o cliente. — ela diz — Paul Seville.
— Então temos um namorado enraivecido por aqui. — murmuro
— Ou namorada. — meu parceiro acrescenta
— Eu quero falar com a mulher que encontrou os corpos. — digo entrando de novo
— Tragam-na para a sala privativa. — Andrew diz me seguindo e o soldado obedece — À sua esquerda. — ele me guia para uma sala com um sofá grande e um pequeno palco com pole dance
— Parece conhecer bem o lugar. — murmuro me sentando no sofá
— Minha despedida de solteiro foi aqui. — ele dá de ombros
— É casado? — franzo o cenho
— A forense que te deu o perfil da vítima? — ele me olha — Rebecca Stone.
— Não! — sorri incrédulo — Eu olhei pra b***a dela, cara.
— É, eu percebi. — ele se senta ao meu lado — Se fizer de novo, a vítima será você.
— Todas as suas piadas vão ser sobre isso? — pergunto notando as segundas intenções por trás da frase
— Não foi você mesmo, foi? — ele me olha
— O caso foi arquivado por falta de provas e de um corpo.
— Não foi isso que perguntei.
Ouvimos o barulho das inúmeras camadas de cortina de bolinhas rosas cintilantes e então um dos soldados surge ao lado da mulher que viu tudo. Ela tem cabelos escuros, lisos e que vão até a cintura.
Com um gesto, Andrew dispensa o policial que a acompanhava e fala para a mulher sentar no pequeno palco em nossa frente.
— Seu nome? — Andrew pergunta
— Sally. — diz — Sally Walker.
— É seu nome de verdade? — pergunto intrigado
— Quer olhar minha identidade? — ela me olha e puxa o documento de dentro do top, preso no peito
— Sally, eu sou Andrew Stone e esse é meu parceiro, Bruce Carter. Nós precisamos que você nos conte tudo o que fez, a partir do fim do expediente de ontem.
— Ontem eu estava no bar, cobrindo a folga da Kira. A irmã mais nova dela passou m*l e como são só as duas no mundo, não me opus em ajudá-la. — ela diz parando de me encarar — Nós fechamos tudo e tinha um cara esperando por Louise. Esse cliente dela. Eles estavam saindo há pouco tempo e ele lhe dava um bom dinheiro por isso. Antes de sair, Kayla perguntou se ela tinha certeza, afinal Lucas já tinha demonstrado raiva e ciúmes.
— Quem é Lucas? — Andrew pergunta
— Lucas Trent é namorado dela. Ex, eu acho. — franze o cenho, pensativa — Eles tinham uma relação conturbada. Quando eu cheguei aqui, há um mês, ele deu uma surra nela na porta da boate. Eles terminaram, mas ele é o típico b****a projeto de machão que se acha rei do mundo. — ela cospe as palavras com rispidez, como se tivesse uma experiência própria com o tipo — Kayla deu uma surra nele também.
— Vamos precisar falar com essa Kayla também. — digo
— Ela só chega aqui lá pras sete. — me olha — Hoje de manhã, eu vim tranquila pela estrada de dentro. Eu só tinha que abrir a boate e pôr as bebidas no gelo, mas encontrei Louise no palco.
Ela parece mais abalada agora. Acho que a ficha está caindo aos poucos. Andrew anota tudo o que ela diz e então a dispensa. Ela sai da sala privativa e eu olho para meu parceiro.
— Que foi? — ele franze o cenho
— Foi o namorado.
— Você jura? — debocha
— Bom, todas as unidades procurando Lucas Trent? — me levanto
— Com certeza. — ele se levanta também e então a forense entra na sala
— O cabelo que encontrei sob as unhas da Louise? Mandei pra análise assim que cheguei aqui e nem precisamos procurar muito. — ela diz — Lucas Trent, acusado de t***************s. O DNA dele está no sistema há, pelo menos, uns três anos.
— Eu pego o cara. — digo saindo
— E eu o mandado. — Andrew corre
***
— Eu deixei um prato pra você, no microondas. — minha irmã diz
— Já disse que te amo? — sorri batendo a porta e acendendo as luzes
— Hoje não. — a ouço rir
— Uau! — digo vendo o apartamento arrumado e cheiroso — O desinfetante é novo?
— Você é o único homem que nota até quando o cheiro do desinfetante está diferente. — ela solta uma risada
— É um dom. — jogo as chaves sobre o aparador — Eu estou exausto.
— Primeiro dia intenso, não?
— Você acha? O suspeito só se trancou no terceiro andar do prédio e fez a mãe de refém, depois de m***r a ex. — ironizo — Só isso.
— Às vezes me pergunto como você faz isso, mas aí é só lembrar de você criança, dizendo que ia proteger as mulheres do mundo.
— Volta no tempo e diz pra esse menino que, aos quarenta e dois anos, ele ainda é suspeito do suposto assassinato da esposa maluca.
— Ei, eu acredito em você.
— Só você. — vou até a cozinha e abro a geladeira, pegando uma lata de soda
— Sem pessimismo, ok? Além do mais, eu tenho certeza que aquela vaca está por aí, em algum lugar.
— Isso era pra me tranquilizar? — franzo o cenho, após virar a lata na boca e tomar um longo gole do refrigerante — E com a quantidade de sangue que acharam, seria impossível.
— Não vamos tornar a noite mais difícil, falando dela. — minha irmã suspira — Esquenta a comida, enquanto toma banho. Depois vai descansar, você precisa.
— Tem razão, eu preciso. — suspiro — Obrigado por ainda cuidar de mim.
— Eu sou sua irmã mais velha, Bruce. — ela ri — Você vai ser sempre meu menininho.
Após encerrar a ligação e colocar a comida pra esquentar, tomei uma ducha quente e liguei o computador, dando uma olhada nos meus e-mails. Ao fim daquela noite, eu estava comendo em silêncio e sozinho. Era estranho, mas era bom estar sozinho.