Eu havia acabado de apagar as velas quando Brian entrou tentando fazer o máximo de silêncio possível. Assim que fechou a porta,paralisou por completo quando me viu parada olhando para ele.Eu não o vi o dia todo,desde manhã. Brian falou que precisava falar com o rei,só não falou o quê. Também não me interessava saber nada dele.Mas Brian sumia durante o dia,e só voltava a noite,algo estava tramando.
—Não sabia que ainda estava acordada,senhorita.
Falou tirando seu sobretudo e jogando sobre a poltrona.
—Eu...estava escrevendo uma carta para a Espanha.Como sabe,daqui alguns dias estaremos embarcando.
Seu semblante caiu.
—Sim.E...já tem uma data?
—Quatro dias,no máximo.
Ele ficou uns instantes me olhando,que me causou um arrepio e eu desviei meu olhar para a última vela acesa.
—Bom,vou me recolher,senhor Leonel.Tenha uma boa noite.
Passei por ele e senti sua mão segurar meu braço.
—Alana!—Quase desfaleci com seu toque.
—Por que vai voltar para Espanha?
Franzi o cenho.O que ele estava pensando? Eu tinha uma vida me esperando na Espanha.
—Por motivos óbvios, senhor.Minha vida está lá.
Ele se aproximou de mim,me desconcertando por completo. Eu pude ouvir as batidas do meu coração, e certamente,ele também.
—E se eu pedir para ficar?
Arregalei os olhos.
Sem dúvidas eu ficaria...
Afastei esse pensamento absurdo para longe.
—Teria que ter um bom motivo para isso.
Arrependi nas palavras.Brian colou seu corpo no meu,eu tinha que me livrar dele,mas eu não conseguia,talvez eu nem queria...
Aos poucos ele foi aproximando seu rosto no meu,até nossos lábios se encontrarem um no outro.
Ao invés de eu sair correndo dali,eu Fechei os olhos e me deixei levar pelo desejo.
Aquele beijo reacendeu uma chama dentro de mim,eu sempre sonhei com aquele beijo,aquele momento,como eu amei Brian e todo aquele amor da infância, voltou a tona,como se eu nunca o tivesse esquecido... Mas eu nunca o esqueci...e nem ele.Me beijava com paixão, com desejo,vontade,com amor...
Interrompa esse beijo,Alana!
Eu não conseguia,era como um ímã. Por mais que quisesse,não conseguia.
Brian foi se afastando,e eu continuei imóvel, sem reação,eu apenas o olhava.Houve um breve silêncio. Até Brian o quebrar.
—Desculpa,milady.Eu...Há muito tempo eu queria fazer isso.
Eu não sabia o que falar,levei minha mão aos meus lábios ainda sentindo o gosto do seu beijo.
—Agora eu tenho a certeza de que eu nunca deixei de te amar.Boa noite,senhorita.
Mas como?
Como boa noite?
E como eu teria uma boa noite depois daquele beijo?
E por quê eu queria mais?
Minha cabeça deu um nó.A partir daquele momento,tudo começou a desandar.
Fiquei alguns segundos tentando controlar minha respiração ofegante.Ele não podia ter feito o que fez e sair do jeito que saiu,me deixando do jeito que me deixou.
Ele teria que me dar explicações, por que me beijou?por que pediu para eu ficar?
Por que?
Não.
Eu não conseguiria dormir.
Caminhei determinada até entrar em seu quarto,que foi meu,ele estava acabando de tirar o blusão, seu peitoral estava completamente exposto e demorei para subir meus olhos para o encara-lo.
—Senhorita!
Exclamou não acreditando que eu estava bem ali.
Não era correto uma moça invadir o quarto de um homem seminu tarde da noite.Se tio Rick nos pega...
—Por quê, Brian? Eu já havia me conformado.Eu estava seguindo minha vida.De repente você aparece,me diz aquelas coisas, me beija...Tem noção do que fez?
—Sim.Me declarei.Eu passei todos esses anos querendo saber de você, mas nunca mais recebi uma carta sua.
—Você não me escreveu mais...
—Eu escrevi,todo esse tempo.Só não tive coragem de enviar,porque achei que já tivesse esquecido de mim.
Não sabia se olhava em seus olhos ou para seu peitoral forte e perfeito.Mas ele percebeu que me desconcentrava da conversa,pois vestiu seu blusão novamente.
—Você foi um covarde.
—Eu sei.Por isso eu a perdi.
Aquele silêncio entre nós estava me matando.Saí de lá sem dizer uma palavra,ele deveria ter pensando que eu era uma maluca.
Fui até meu quarto e peguei o medalhão debaixo do travesseiro. Num açoito,eu já estava em seu quarto de novo,ele ainda estava vestido,porém sentando diante da mesa que havia ali no canto da parede.Seu olhar subiu para mim,ele estava sexy,seus cabelos bagunçados,não estavam daquele jeito quando eu saí por alguns segundos.Como se ele tivesse passado as mãos diversas vezes sobre a cabeça para os bagunçar daquela forma.
Caminhei até a mesa e ele não tirou os olhos de mim tentando me decifrar.Estendi minha mão e ele baixou os olhos para o medalhão que eu segurava.
—Isso prova o quando eu pensava em você?
—Eu...nem me lembrava mais dele.Guardou todo esse tempo?
—Sempre.Nunca tirei.Até algumas semanas atrás.
Ele se levantou e pegou o objeto da minha mão.
—Meu pai nunca perguntou por ele...
Eu respirei fundo,tentando encontrar uma palavra certa para aquele momento.
—Eu sempre te amei,Brian Leonel.
Ele me olhou e vi uma chama de esperança em seus olhos.
—Mas agora é tarde.Não há nada que possamos fazer para consertar isso.
—Não diga isso.Para tudo tem uma solução.
Ele deu a volta sobre a mesa e pegou em minhas mãos.
—Alana,eu não posso mais ficar longe de você outra vez.
—Brian...percebe o que me pede? Quer que eu deixe a minha vida na Espanha.Meu trabalho,meus alunos...eu não posso Brian.
—E seu eu for para Espanha com vocês?
Olhei incrédula para ele.
—O quê?
—Sim! A gente vai para Espanha, se casa lá,formaremos nossa família.
—Brian...
—Alana, por favor.Eu não suportaria vê-la indo embora novamente naquele navio.
—Você...faria isso?
Ele sorriu e segurou meu rosto entre as mãos.
—Eu só preciso de alguns dias a mais.Até eu resolver o que eu preciso.
—Mas Brian...
—Por favor,Alana!Só mais alguns dias e a gente vai para longe daqui, viver nossa vida na Espanha.
Só mais alguns dias...
Eu podia ficar mais alguns dias.
No dia seguinte,eu estava enviando uma carta para comunicar minha mudança de planos...
******
Deixei tio Rick no armazém e aproveitei para enviar a carta à Espanha.Imaginei as carinhas dos meus pequenos quando a irmã leu a carta que escrevi avisando que precisava ficar mais alguns dias em Londres.
Ai meus pequenos. Quantas saudades ainda sinto,desde quando eu os deixei. Não recebi mais notícias desde quando me enviaram a última carta me comunicando a morte da sra.Lovett,uns dois anos...?
Como eu senti.A sra.Lovett me ajudou muito.Foi ela que me levou até a Espanha,ao colégio onde estudei e me formei professora.Ficou sendo responsável por mim,pagou meus estudos,claro que tio Rick enviava dinheiro para minhas despesas,mas a Sra.Lovett nunca aceitou uma moeda se quer.Tio Rick contou que ele recebia tudo de volta.
Sra.Lovett.Que Deus a tenha em bom lugar.
Estava muito calor naquele dia,deixei a cidade e dei uma paradinha na cachoeira para me refrescar um pouco, amarrei donzela debaixo de uma sombra e desci o caminho para a cachoeira.
Eu adorava admirar aquelas cataratas descendo entres as pedras,as águas pareciam cristalinas de tão limpa que era,se via o fundo.
Me abaixei e molhei meus pulsos e meu rosto em seguida.
Estava prestes a me livrar do vestido de seda espanhola quando ouvi barulho de galhos quebrando.
Olhei para trás num impulso e quase morri do coração.
Um homem aparentemente uns trinta anos estava desnudo, usava apenas um blusão e a roupa de baixo.
Olhei ao redor pensando em gritar,mas ele estendeu as mãos em rendimento.
—Calma.Não vou lhe fazer m*l.
Até parece que eu acreditei.
Procurei por alguma coisa pelo chão, um pedaço de madeira,algo duro e que machucasse bastante.
—Só quero conversar.
Deu uns passos para frente e eu dei uns para trás.
Ele parou e ficou me olhando incrédulo.
—Não sabe quem eu sou?
—E por quê eu deveria?
Ele sorriu debochado.
—Eu sabia que ia te encontrar por aqui de novo.Vem sempre sozinha...
—Eu não estou sozinha.
—Ah não?—ele olhou ao redor.—Não vejo mais ninguém além de nós dois.
Droga.Eu estava sozinha com um desconhecido na cachoeira.
—Não vou lhe fazer nada que não queira.
Ele pretendia fazer alguma coisa.Se aproximou um pouco mais.E se eu desse mais um passo, eu cairia na água, eu sei nadar muito bem,porém o vestido era muito pesado quando molhado.
Me abaixei rapidamente e peguei uma pedra e fiquei com ela estendida em direção ao homem que cismava em se aproximar.
—Não vai fazer isso.
—Se der mais um passo eu...
Num piscar de olhos,o homem deu um pulo segurando minha mão e rodeando minha cintura me puxando para si,pude sentir seu hálito fresco e quente.
—Não sabe mesmo quem eu sou?
—Solte-me.Ou vou gritar!
—Vamos lá. Grite!
Pensei em abrir a boca para pedir por socorro.Mas meu grito foi abafado por um beijo inesperado. Soltei a pedra que eu segurava fazendo um barulho quando se chocou com chão.
Aquele homem me beijava com ardor,vontade, como se me conhecesse há muito tempo.
Juntei todas as minhas forças e o empurrei lhe dando uma bofetada que chegou arder minha mão.
Ele olhou para mim com um olhar que me causou um pequeno apavoro.
—Cometeu um grande erro ao fazer isso.
Passei por ele como um vento,tinha que correr para cima pegar donzela e galopar como um raio para longe dele.
—Tem belos tornozelos.—parei onde estava e olhei para ele sem entender.
Ele sorria esfregando a mão no lugar da bofetada.
—O que pretendia fazer com aquele galho?
Arregalei os olhos ainda mais assustada.Não era um camaleão.Era ele me observando.
Por isso disse que sabia que me encontraria ali.Ele estava me seguindo. Só podia ser um maníaco.
Corri mais rápido ainda.
Assim que cheguei lá em cima,fui surpreendida por um cavalheiro que empunhou a espada em meu pescoço num ligeiro.
Olhei em volta e vi os guardas do palácio montados em seus cavalos,mais a frente uma carruagem ricamente luxuosa onde o brasão da família Graham estava estampado na porta.
Meus olhos ficaram atentos para a carruagem,esperando alguém da realeza descer.
—Quem é você?
O cavalheiro perguntou percebendo meu apavoro.
—Por favor,me ajuda!Tem um homem me seguindo e...
—Majestade!Está tudo bem?
O cavalheiro olhou por cima dos meus ombros,eu olhei lentamente em direção ao seu olhar e quando vi o homem atrevido ali parado bem a minha frente novamente, gelei.
Ele me olhou,e eu não consegui dizer uma palavra.
Eu bati no rei da Inglaterra?
Assinei minha sentença de morte.
—Está tudo bem,James.
Abri a boca para dizer alguma coisa,um pedido de desculpas,uma clemência pela minha vida,alguma coisa eu tinha que dizer,mas as palavras faltaram.
—Deixe-a ir.
Meu coração acelerou num ritmo incontrolável. Pensei em me ajoelhar aos seus pés pedindo perdão.
Ele passou por mim e seguiu até sua carruagem.
***
Fiquei o resto do dia pensando no que havia acontecido naquele lugar,o que eu fiz,o que o rei não fez...Ele podia ter me punido,ou pior, podia ter me condenado a morte.Mas ele não o fez,apenas me deixou ir.
Acordei dos meus devaneios com o barulho da porta fechando,tio Rick e Brian haviam chegados juntos,assim era bom,todos podiam jantar de uma vez.
Soltei um sorriso e caminhei até tio Rick para um abraço.
Ele estava muito contente e sorridente.
—O jovem Leonel me pediu sua mão.
Olhei para Brian que também sorria.
—Estou tão feliz,filha.
Tio Rick me deu mais um abraço.
—Certo,tio.Mas agora vai se banhar,eu já preparei sua água. E depois vamos comer.
—Sim ,filha.Estou tão feliz que não vou reclamar do banho hoje.
Me deu um beijo e abraçou Brian em seguida.Saiu cantarolando uma canção italiana.
Eu ainda olhava tio Rick sumir quando senti os braços do Brian envolvendo meu corpo.
—Brian!
Lhe dei um tapa no ombro,mas eu não queria saí dali.
—Como foi seu dia hoje?
Fui desfazendo o sorriso lentamente.
Eu deveria contar o que aconteceu?
Talvez ele pudesse interceder por mim ao rei.Já que ele era um nobre,filho de um conde, certamente o rei levaria em consideração.
—Ótimo!Não houve nada de mais.
Menti.
Brian alisou meu rosto e me surpreendeu com um beijo apaixonado...