Capítulo 1

4580 Palavras
— Bom dia! — William diz de forma seca, passa feito um foguete caminhando em direção à sua própria sala. — Bom dia, senhor Firenze. — diz Helena, a secretária da diretoria. Ela se levanta da mesa e vai disparada atrás do chefe. — Quero que confirme meus compromissos. — O homem diz assim que ela entra na sala. Retira seu terno azul marinho ficando apenas com a camisa branca e a gravata azul e vinho. — Onde está o meu assessor? — Ele coloca o terno no encosto da cadeira, sentando-se e mexendo em seus papéis sobre a mesa. — Luciano ainda não chegou. Seria algo que eu possa fazer? — Helena pergunta de pé em frente à mesa dele com uma caderneta na mão. Depois puxa a cadeira e se senta, cruzando as pernas. Ela se levanta bastante à perna, tentando dar a ele uma visão privilegiada de suas partes íntimas. William sequer a olha. — Não. Assim que ele chegar mande vir até minha sala. Antes me repasse meus compromissos internos e reuniões agendadas. — Responde. Helena informa sobre as reuniões que ele tem durante o dia. As visitas agendadas e coisas a providenciar. O CEO pede a ela que se retire da sala, logo que a mulher termina de passar seus compromissos. E assim que a secretária passa pela porta e adentra a sua sala o elevador se abre e Luciano entra, com todo aquele seu estilo moderno e pinta de estilista. — Bom dia Heleninha! Onde está o chefe mais gato de todo o planeta terra? — Ele diz bem alto para que William o ouça de sua sala. — Bom dia! Ele está lhe aguardando. — Ele faz uma careta para a secretária assim que ela senta e volta o rosto para o computador. Ele caminha em direção à sala do CEO, rebolando e jogando os braços. — Bonjour! Monsieur Le patron. — se joga na cadeira e joga a pasta no assento ao lado. — O que queres falar comigo? — Quero as notícias sobre os j*******s, que lhe pedi. Quero as informações completas e detalhadas. Preciso fechar esse negócio. Seria maravilhoso um Resort daquele nível aqui, na Ilha das rosas e ainda por cima, um milhão deles espalhados pelo mundo. Tem noção? Isso é muito importante para mim, Luciano. — Oui, oui. patron, o que você me pede que eu não faça? Hum? — O homem pega sua pasta e tira de dentro um classificador transparente cheio de papéis, joga em cima da mesa de William e ri, jogando os pés em cima da outra cadeira e levando o dedo à boca, em um meio sorriso. Os olhos de William brilham ao pegar a pasta nas mãos. — O que é isso? — William pergunta. — Veja com seus próprios olhinhos, felino! — William pragueja dos apelidos de Luciano. Após o importante Firenze analisar alguns dos muitos papéis, ele solta aquele quase livro das mãos e leva-as até a boca, subindo-as pelas têmporas. — É isso mesmo que eu estou vendo aqui? Luciano, eu estou errado ou estamos na lista de prioridade de negócios dele? — Profere animado. — É isso aí! — Luciano responde enquanto lixa as unhas, como se aquela informação não fosse nada demais. — Mas eu devo lhe avisar de algumas coisas. — Ajeita-se na cadeira mantendo postura. — Embora você esteja na lista de prioridades, para fechar o negócio terá que estar dentro dos parâmetros exigidos pelo senhor Ching. Ele gostou muito de você, do potencial da nossa empresa e ficou muito contente de saber que desde os seus 15 anos está à frente de toda essa empreitada sempre em nível crescente de sucesso. Ele te admira muito por isso e esse é o motivo de você ser uma prioridade. — Agora o tom de voz de Luciano é profissional. Sem deboche e sem voz afeminada. — Porém ele tem uma regra absoluta, uma que ele não abre mão. Ching não negocia com homens solteiros. — William sorri de desdém. — É um homem que acredita demais no Amor. Que acha que o homem que não tem um par, que não pode dividir a vida com outra pessoa, não é capaz de dar valor ao sucesso. É um homem fadado ao fracasso. Sem espiritualidade. Um homem indigno de receber seu patrimônio. — É sério? — William parece não acreditar em Luciano, mesmo ele usando o seu tom de voz profissional. — É, é muito sério. Todos os meus informantes e pessoas que negociavam com o senhor Ching confirmam que ele segue isso à risca. Muitos deles se casaram para conseguir fechar negócio com o bilionário excêntrico. — Droga! — William pragueja. — Como vou resolver isso? Luciano consiga uma reunião com alguns assessores do senhor Ching aqui no Brasil para que eu converse com eles e saiba diretamente da fonte se ele recusaria a minha proposta por uma simples tolice. — Ele larga um lápis na mesa. — O senhor Ching só fala japonês e seus assessores também. Não tem representante brasileiro. Você vai precisar contratar alguém para conversar com eles. — Luciano informa, mantendo o padrão profissional. — Que merda! — Firenze fala m*l outra vez e desfere um murro na mesa. — Mas que homem ultrapassado! Então como conseguiu isso tudo? — Consegui alguns empresários que já fizeram negócios com ele e enviei e-mail usando a tradução do Google. Mas a videoconferência com o representante, tive auxílio de uma amiga que mora na Vila e é poliglota. — Uma menina da Vila das Rosas? — Ele pergunta e Luciano sacode a cabeça positivamente. — Poliglota? — O assessor confirma outra vez com a cabeça. — Ela é fantástica! — Elogia. — Então contrate ela. Se for precisar de uma intérprete, contrate a moça da Vila. — William diz e volta a mexer nos papéis do senhor Ching. — Chame Carolina na minha sala, Helena, agora! — ele ordena pelo telefone. — Sério? Posso contratar aquela belezura para ser a intérprete? — William sequer lhe dá ouvidos agora que ele voltou ao modo gay. — Você vai amar aquela garota! Assim que ele fecha a boca a estonteante Carolina entra na sala, com seus cabelos negros encaracolados, que vão até a linha de sua cintura. — Bom dia! O que me traz até sua sala, Sr. Firenze? — Ela questiona, sentando-se na cadeira ao lado do assessor. — Você foi rápida! — O CEO diz ainda olhando os papéis. — Eu já estava vindo até aqui lhe passar alguns relatórios. — Estende alguns papéis na mesa dele. — Quero que organize um jantar para mim, em minha residência, com algumas das servidoras mais bonitas de toda a rede Firenze. Aqui da Ilha, claro. Vá pegando todas que você ache bonitas, me traga as fotos e eu vou selecionar. Depois irei jantar com elas. Preciso de uma noiva para fechar um bom negócio. Não tenho tempo para romances, todos sabem, então vou firmar com uma delas um contrato. Após a negociação ser fechada o casamento será anulado, mas a escolhida ganhará uma boa quantia, imóvel e um bom carro. — Nossa que romântico! — Carolina debocha. — Posso incluir na conta a sua secretária Chetelena? Ela, com certeza, amaria poder ser a sua noiva. — Lógico! É só um contrato. — Luciano e Carolina se olham boquiabertos. — Patron, tenho uma ideia muito melhor. — Diz Luciano. — Todos sabemos que você fez muitas degustações na sua rede hoteleira — William sorri e levanta os olhos para encarar Luciano. — Que tal um concurso? Vamos movimentar essa pequena cidade. Será um concurso interno. — Ele abre as mãos no ar, sonhando. — Com direito a inscrição e com a exigência de um vídeo onde ela diz por que deseja ser a noiva. Na inscrição já estará especificado o motivo da seleção, o prêmio final e as condições do casamento. Aí você seleciona as 20 mais interessantes através do vídeo e somente na hora do evento escolhe um número e revela a noiva, como um sorteio. Já que você não precisa de i********e pode fazer disso um evento. Chama todo o mundo corporativo e os agentes do senhor Ching, apresenta seus dados, seus lucros e toda a sua história diante da empresa e no meio disso tudo você apresenta a sua noiva para todos. Para os j*******s vai parecer muito romântico e demonstrar que não está casado, mas que quer se casar e de forma tradicional, no entanto, para a Firenze será um sorteio onde nem mesmo você sabe quem será a escolhida. Assim na hora que for apresentar sua noiva você vai digitar o número no sistema, e a foto dela vai aparecer no telão. Ela vai subir ao palco e você entrega as flores e a aliança de noivado. — Finalmente ele volta os olhos para William e olha para Carolina. — Perfeito! Pela primeira vez vejo um delírio brilhante. — William se volta para Carolina. — Consegue fazer isso Carol? — Você vai mesmo fazer isso? — Ela pergunta totalmente surpresa. — Sim. Inclusive você também pode se inscrever se quiser. — William pisca um olho para Carolina que levanta os seus em desdém. Carolina é apaixonada por Rômulo, o advogado da empresa, e William sabe disso. — Não, muito obrigada! Embora o dinheiro da rescisão do contrato fosse muito bom, não n**o. Eu ia poder pedir demissão e voar daqui. — William sorri enquanto assina alguns papéis. — Providencie uma reunião com Rômulo para estabelecer um valor adequado para o prêmio da ex-futura-noiva. E editar as regras e os pormenores. Não quero correr o risco de ela requerer qualquer outro direito após o fim do contrato. E insira o código de ética e total discrição sobre o noivado de fachada. A escolhida deverá se passar por uma mulher apaixonada e as não selecionadas não poderão falar que o casamento é uma farsa. Isso não pode chegar aos ouvidos do Sr. Ching. — Com todo prazer, senhor Firenze. Com licença! — Carolina se levanta da cadeira e sai toda animada por ter que lidar pessoalmente com Rômulo. Enquanto isso Luciano está parado na mesma posição de quando completou suas ideias, com a boca aberta e o olhar fixo em William. William gesticula as mãos e bate os dedos na frente dos olhos de Luciano. — Tem alguém aí? Preciso de mais informações sobre a Chiangching. Ele finge acordar do transe e então volta ao modo profissional e começa a relatar várias informações que conseguiu sobre o senhor Ching e sua empresa. Depois retorna o assunto sobre a contratação da amiga para a vaga de intérprete. — Vou mesmo poder convidá-la para trabalhar aqui? — Sim. Vá conversar com ela pessoalmente e fazer o convite. Seja bastante formal, não quero que ela negue. Preciso de seus serviços. E assim que ela demonstrar interesse peça para vir conversar com Antônio. Ele vai falar todos os benefícios que a empresa oferece e ajeitará a contratação dela pelo período das negociações. — Isso significa que a contratação dela só durará enquanto estivermos lidando com os j*******s? — William confirma. — Então arrume outra pessoa. Minha amiga tem um emprego fixo. Não vou permitir que ela pedisse demissão por uma vaga temporária. — Então o que sugere? Nossos cargos estão completos. Quer que eu a empregue em algum hotel ali da Vila? Porque aqui na sede não tem como eu a empregar. — William diz impaciente. — Não existe "não ter como" para você, William. Ou contrata ela por tempo indeterminado, quase vitalício, ou nada feito. E não digo o nome dela nem mesmo sob tortura. — Avisa em um drama característico dele. — E o que essa garota vai fazer aqui na empresa quando essa negociação com os j*******s acabarem? A maioria dos meus investidores ou fornecedores são de regiões quais eu domino os idiomas. Portanto, ela vai ficar obsoleta? Zanzando ou se metendo na vida dos outros? — Primeiro meu caro: ela não é do tipo que fica falando da vida dos outros. Segundo que ela pode virar sua assistente pessoal. Será de grande ajuda. Tudo que você precisar bastará pedir. Tudo! Todas as suas reuniões, encontros, festas, o seu mundo interno e externo da Firenze, será organizado pela sua assistente. — Ele levanta apenas uma sobrancelha para o chefe. Que lhe olha bem sério. — Terceiro ponto é que quando eu digo que ela é poliglota, não é à toa. Ela fala 14 idiomas. Português, inglês, espanhol, francês, italiano, japonês, turco, alemão, árabe, chinês, russo, grego, irlandês e sueco. — Cita todos os nomes dos idiomas lendo em uma folha de papel. William arregala os olhos diante da informação e se joga no encosto da cadeira, inclinando-a para trás. Leva uma mão à boca, repousando um dedo nos lábios. — Onde esta garota da vila aprendeu a falar tantos idiomas? — Respondo assim que me disser que ela será contratada da forma devida. William sorri. — Se você não fosse tão gay, ia dizer que é apaixonado por ela. Tudo bem, tudo bem. Ela será intérprete e minha assistente. Mande-a vir conversar com Antônio, pagaremos um bom salário, visto que domina tantos idiomas assim. — Eu poderia me apaixonar facilmente por ela. É como uma deusa. Linda! Mas é uma moça muito humilde. Eu... Se não for muito incômodo... — Desembucha logo, Luciano. Nunca te vi tímido, o que foi? — ele continua calado e vermelho. — Luciano... Não me diga que quer emprego para o marido dela? — Não. É que... — William sopra impaciente. — Está bom. Vou falar de vez. Ela precisa de roupas para o trabalho. Quero saber se posso levá-la em alguma loja e vesti-la apropriadamente para ser a assistente pessoal do CEO. — Ela vai ganhar um salário muito bom. Pode muito bem usar o dinheiro para se vestir. — Assim ela não terá um real no fim do mês pelo serviço prestado. Ah, por favor, William! — ele se levanta irritado, como William nunca viu e anda em direção à porta. — Tudo bem. Ajeite o que for necessário para a sua amiga... Inclusive sua contratação. Preciso dela urgentemente. — Patron... Merci beaucoup! Je t'aime! — ele agradece em francês e diz eu te amo a William. Luciano fez faculdade de economia na França, por isso o seu hábito em falar coisas em francês. William ri da cara de seu amigo e assessor internacional. Quando Luciano fecha a porta ele respira e fica pensando em tudo que ouviu e decidiu ali na sala. Depois liga para Carolina, que está na sala de Rômulo nesse exato momento e assim que desliga seu celular toca. É Rômulo. — Diga Rômulo. — Quando resolveu essa palhaçada toda? — O seu amigo lhe pergunta com voz de riso. — Hoje. Ideias do Lu e da Carol. — É sério isso Will? Isso é ridículo! Tem certeza de que essa exigência é real? Será que não é invenção do Luciano? — Não creio. Analisei os papéis que ele me deu e, de fato, dos funcionários aos parceiros todos são casados. E por favor, não me venha me chamar de Will há essa hora. Já estou com a cabeça cheia demais para me aborrecer com essa lembrança infeliz. — Comenta aborrecido. — Faz cinco anos meu amigo. Cinco anos que você levou aquele fora e aquela bofetada épica. Ainda guarda mágoa disso? — Rômulo sorri. — Guardo sim. Como você disse, foi épico! Enfim, resolva todas as questões necessárias, mas avise a Carolina que eu quero essa festa para daqui a quinze dias. No sábado. E... Bom, deixe claro no contrato que eu posso beijar a minha noiva ou ir para a cama com ela se julgar necessário e se eu quiser. Deixe isso bem claro. — Ele ri antes de terminar. — Já que é para fingir um casamento, ao menos que isso seja divertido. Rômulo ri alto da "cláusula" do amigo. — Pode deixar. Duvido que isso seja motivo de algum problema. Tenho certeza de que todas, exceto aquela moça, farão questão de serem beijadas pelo noivo. — Ele volta a citar o incidente de cinco anos atrás, de William com Iza. E depois fica sorrindo. — Vá à merda Rômulo! — William também sorri. — Providencie essa papelada para sexta-feira. Já quero divulgar o tal concurso neste dia. — Devia enviar os convites por e-mail a cada funcionária solteira da empresa. Assim esse sigilo seria mantido e nenhum homem invejoso colocaria o caso na rua. E você já colocaria no e-mail um aviso de que aquilo é algo confidencial. — Excelente ideia! Mas como vamos saber quem é solteira ou não? — William pergunta. — Acredito que Antônio consiga essa informação para nós tranquilamente. Bem como organizar uma lista de e-mail. E tem mais, Paulo pode criar o designer do site das inscrições. A gente te entrega isso tudo na quarta-feira. Você pode analisar na quinta-feira e na sexta a gente faz a divulgação. E o senhor Firenze passará o fim de semana inteiro assistindo aos vídeos e vendo as fotos de suas possíveis futuras noivas. — Rômulo volta a rir. — Que programa maravilhoso para um fim de semana. Espero ao menos ter alguns nudes para eu me divertir um pouco mais. — Ele ri junto com Rômulo. — Então tudo certo meu caro. Deixe-me voltar ao trabalho. — Ele desliga após ouvir o tchau de William. William volta a se sentar em sua cadeira e sorri de sua missão surreal, pensando na loucura que vai fazer apenas para fechar um contrato. Um contrato bilionário, diga-se de passagem. Ele vai gastar alguns de seus milhões para comprar toda a rede do senhor Ching, que vai lhe render o triplo do seu investimento, em um ano. O triplo! Fora a quantidade de pessoas que ele vai poder empregar quando a construção do resort seis estrelas forem construídas na Ilha das Rosas. Além do hospital. Será um marco para a Firenze. Se seu bisavô pudesse imaginar onde essa empresa chegaria estaria muito mais orgulhoso de sua descoberta. Um marco! Ele m*l podia conter-se tamanha a ansiedade que essa possibilidade lhe causava. Em contrapartida tinha essa exigência. Um casamento por contrato. Onde já se viu? — ele pensa. Ele ri lembrando-se da cara de Carolina e da reação de Luciano ao ver que ele aprovou o plano mirabolante. Isso no mínimo será divertido, refletiu outra vez. Seus pensamentos são cortados assim que Helena entra em sua sala, anunciando que Antônio quer falar com ele. — Helena... Antônio é meu primo. Não precisa anunciá-lo quando eu estiver sozinho em minha sala. — Ele diz, rispidamente. Ela assente, e sai com todo aquele seu mau-humor habitual, contrariada por ter que facilitar as coisas para Antônio. Ela não o suporta. Eles são primos. Helena é sobrinha de Luiz, pai de Antônio. Luiz é casado com a tia de William, irmã de sua falecida mãe. Helena sempre fez de tudo para se aproximar de William de maneira romântica, sem sucesso. Já chegou a pedir a ajuda do primo, que sempre dizia não para ela. Antônio passa pela prima sorrindo de forma debochada. Adentra a sala de William e fecha a porta atrás de si com o pé. — Bom dia para o solteirão da Ilha das rosas. Qual será o nome do reality show? — Antônio ironiza, sorrindo e se sentando de forma largada na cadeira confortável, que fica em frente à mesa do CEO do grupo Firenze de Hotéis. Antônio é o diretor de Recursos Humanos, é o responsável pelas contratações de toda a empresa e é ele quem aprova ou não a contratação de pessoal qualificado para todas as unidades e subunidades. É claro que ele conta com uma excelente equipe de RH, em cada Hotel e cada cidade — incluindo a Ilha — em que a Firenze possui unidades. Mas as contratações da sede são feitas direta e pessoalmente por ele. — Isso será responsabilidade de Carolina. — William diz e sorri. — É até difícil de acreditar nessa maluquice sendo aprovada, apoiada e idealizada por você. — Ele cruza os dedos na frente do corpo. — Não foi minha ideia, e sim do Luciano, eu só fiz concordar. É uma exigência do Ching, não quero perder a oportunidade do século. Tem ideia dos números que entrarão em nossa conta, caso fechemos o contrato? E tem mais, somos a opção número um dele. Para estar no papo eu só preciso me casar. — Não pensou em conhecer alguém e fazer isso de uma forma normal? — Antônio pergunta. — Não tenho tempo para isso Antônio, você sabe. Também sabe que não sou homem de me apaixonar, por favor! Fora que preciso fechar esse negócio o quanto antes. Tem muita gente de olho nesse patrimônio. Ching não teve herdeiros, por isso quer garantir que a pessoa que assuma o que construiu seja merecedor de tal coisa. Ele não está exatamente vendendo, pelo preço que está pedindo é como se ele estivesse simplesmente doando seus bens de herança para alguém. E eu garanti, na proposta, manter o nome Chiangching em memória a ele. Tirar esse nome pode nos fazer perder credibilidade. No texto que escrevi para início das negociações fiz questão de mencionar como me tornei um empresário. Contei que fiquei órfão e tive que aprender a ser homem antes da hora, deixando a subentender que assim como ele carecia de herdeiros, por sua infertilidade, eu carecia de pais. — William sorri de sua própria genialidade. — Compreendi. Acho interessante isso tudo. Só espero que você deixe esse contrato bastante claro, o suficiente para que essa moça que se casar com você não se apegue e sofra quando tudo acabar. É preciso pensar no sentimento alheio. — William encara o amigo e primo. — Você tem razão Antônio. Eu não havia pensado nessa possibilidade. Inclusive pedi para incluir no contrato a liberdade para um contato físico, caso eu sinta vontade, ou se necessário. — O primo sorri. — Então trate de dar um acompanhamento psicológico após a separação, e uma boa indenização. Mas... Mudando de assunto, Luciano veio falar comigo sobre a contratação de uma intérprete e assistente pessoal sua? Desde quando precisa de uma assistente pessoal? — Isso foi uma exigência dele, que eu empregasse a intérprete de verdade na empresa. Não só durante a negociação com os j*******s. Tony, você não acreditaria se eu te contasse a maneira como ele veio defender esse emprego dessa garota. Se eu não tivesse plena ciência de sua opção s****l, diria que ele era apaixonado pela Vilense. Ele quase chorou quando não permiti que ele comprasse roupas para ela, também. — Foi justamente essa exigência dele que me trouxe a sua sala. Ele foi lá saber qual seria o valor do salário que íamos pagar a essa fulana para ver se era vantajoso para a garota, como se fosse advogado dela. E ainda me exigiu acompanhá-lo até o encontro dessa moça na vila para conversarmos com ela juntos. Parece até que é uma coisa extremamente rara o que ela faz. Tive vontade de rir quando ele me exigiu um cartão corporativo para comprar as roupas. — Ambos sorriem. — Estou curioso para conhecer a tal poliglota da Vila, agora. — Aquele crápula não me disse onde uma garota tão humilde como ele diz aprendeu a falar tantos idiomas. — William sorri outra vez. — Fiz essa mesma pergunta a ele, que me deu a seguinte resposta: assistindo filmes via internet. Você acredita nisso? Essa garota passou a lábia nele, só pode. — William gargalha. — Então a jovem é poliglota e autodidata? Por favor! — William se espreguiça. — Mas de todo modo, vou dar a ela esse emprego, ao menos ela foi útil ao ajudá-lo de graça com as videoconferências. — Não sei mais se acredito ter sido de graça, não depois de ele exigir tanto para contratá-la. — Bom, na verdade foi uma sugestão minha. Ele nem mesmo ia-me dizer como conseguiu tais informações sem saber falar japonês. — William volta a apoiar as mãos sobre a mesa. — Só depois que eu disse que convidasse essa garota para trabalhar conosco, inicialmente de forma temporária, foi que ele começou a brigar pelos direitos trabalhistas. Ele garantiu que eu vou amá-la. — Só há uma pessoa naquela vila que você poderia amar. A mulher mascarada. — Antônio ri. — Por favor, Tony... Engraçado que é a segunda vez que esse assunto vem à tona, somente hoje. E aquilo tudo foi culpa sua e de Rômulo, seu sacana! Eu nunca tinha pisado meus pés naquela p***a de Vila, que minha mãe fez questão de projetar. Muito menos no Baile que meu avô faz tanta questão de manter. E aí vocês me infernizam para ir e vejam no que deu. A p***a de uma garota de 15 anos, moradora da Vila, me deu uma tapa e um fora. — Se ela soubesse que era você, duvido que tenha feito aquilo. — William sorri. — Nunca pensou em procurá-la? Sei lá, você a levou em casa, nunca teve curiosidade de saber como é o rosto dela, ou como ela está agora após cinco anos? Ou se ainda vive na Vila? — Não. Não tenho o menor interesse. Você por acaso não estaria interessado em saber, para reencontrar a amiga dela, não é? A que tirou a virgindade da sua boca? — Ele cai na gargalhada e Antônio atira um pedaço de papel no primo. — i****a! — Tony se levanta da cadeira sorrindo para retornar à sua sala. Quando ele fecha a porta, William fica se sentindo culpado por ter mentido para o primo e melhor amigo. A verdade é que sabendo do segredo de Iza — de que ela ia todos os dias se sentar no banco que fica em frente ao portão da entrada de sua residência, à meia noite, para olhar as estrelas — ele fazia o mesmo de sua mansão. Inicialmente de lá de cima, em um local privilegiado, ele pegava um binóculo extremamente potente em alcance e a vigiava de lá até a hora em que ela entrava para dormir. Ele via o seu rosto e admirava como era linda. Isso se tornou um hábito e uma obsessão. Quando ele precisou fazer uma viagem longa — a cerca de um ano atrás — decidiu pôr câmeras com acesso via satélite escondidas no muro, de forma que ele pudesse vê-la todas as noites mesmo não estando na mansão. Ele ainda se lembrava, mesmo depois de cinco anos, do sabor de seu beijo, o cheiro de seu perfume e da maciez de seus longos cabelos que por sinal, ainda eram do mesmo jeito, lisos, longos e retos. Iza — como ele a conhecia — não havia mudado nada ao longo desse tempo. Sua pele continuava tão linda e firme quanto naquele dia. Ele a via sorrir às vezes, também a via chorar e quando ela chorava, ele sentia vontade de descer a montanha e abraçá-la, afagar seus cabelos e a consolar. Mesmo ela tendo feito o que fez... mesmo ele a odiando por isso, ele a amava e não conseguia não contemplar a sua imagem. E não rir, quando ela dançava e parecia cantarolar para o céu sobre o banco de cerâmica que parecia um trono de algum monarca. Só de lembrar-se dela fazendo isso, ele sorri agora mesmo.
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