Depois que tudo aconteceu, o mundo não explodiu. Ele continuou. Essa foi a primeira coisa que me desorientou. As ruas da Beira-Mar acordaram no mesmo ritmo. O cheiro de café forte subiu das casas cedo demais. Crianças correram descalças, rindo alto. O rádio de alguém tocava uma música antiga, dessas que atravessam décadas sem pedir licença. Nada parecia diferente — mas tudo era. Eu era. A justiça tinha sido feita, da forma possível, da forma imperfeita. E agora não havia mais urgência. Não havia planos secretos, nem passos calculados, nem tensão constante no ar. Só o depois. E o depois pesa. Passei dias em silêncio. Não por tristeza explícita, mas por reorganização interna. Era como se meu corpo estivesse reaprendendo a existir sem a raiva como combustível. A raiva tinha sido útil.

