Eu nunca esqueci o som.
Não foi um grito.
Não foi uma palavra.
Foi o ranger abafado da cama — a minha cama — misturado a uma respiração que não era só uma.
Naquele instante, antes mesmo de abrir totalmente a porta do quarto, meu corpo já sabia.
Minha mente ainda tentava negar, mas meu estômago afundou como se tivesse despencado de um prédio.
O corredor da casa estava silencioso demais. A televisão da sala desligada, a luz da cozinha apagada. Tudo parecia suspenso, como se o mundo tivesse prendido o fôlego para me assistir cair.
Eu tinha voltado mais cedo do trabalho.
Chovia.
Meu uniforme ainda estava grudado na pele, pesado, úmido.
E eu só queria um banho quente e o abraço do homem que dizia me amar.
Abri a porta.
O cheiro veio primeiro.
Um cheiro que não era meu sabonete.
Depois, o movimento — rápido, desordenado, desesperado.
E então vi.
Meu namorado.
Nu.
Em cima da minha irmã.
Na minha cama.
O tempo não parou como dizem nos filmes. Ele esticou, c***l, me obrigando a observar cada detalhe. O cabelo dele bagunçado, o rosto suado, a mão cravada na lateral do colchão que eu tinha escolhido com tanto cuidado porque “aguentava mais peso”.
Minha irmã do meio estava por baixo. Rindo.
Não um riso nervoso.
Um riso debochado, satisfeito, como se aquela cena fosse um troféu.
— Samantha… — ele murmurou, a voz quebrando.
Meu nome na boca dele soou errado. Sujo.
Eu não gritei.
Não chorei.
Não joguei nada.
Meu corpo simplesmente congelou.
Senti minhas pernas tremerem, mas elas me sustentaram. Sempre me sustentaram. Desde criança eu aprendi a aguentar. A ouvir. A engolir.
O silêncio que caiu no quarto era mais pesado que qualquer ofensa que eu já tivesse escutado sobre meu corpo.
— Sai daqui — minha irmã disse, com desdém, puxando o lençol para cobrir o próprio peito. — Você não tá vendo que tá atrapalhando?
A frase entrou em mim como uma faca lenta.
Atrapalhando.
Como se eu fosse uma visita inconveniente.
Como se aquele não fosse o meu quarto.
Como se aquela não fosse a minha vida sendo estraçalhada diante dos meus olhos.
— Sami, calma… — ele começou, levantando-se rápido demais, tropeçando no próprio nervosismo. — Não é o que você tá pensando.
Eu ri.
Um riso curto, sem humor nenhum.
— Engraçado — falei, sentindo minha garganta arder. — Porque parece exatamente o que eu tô vendo.
Minha irmã revirou os olhos.
— Para de drama. Já deu.
Ela sempre fez isso.
Minimizava tudo quando a dor não era dela.
Olhei para ele. Esperei alguma coisa. Qualquer coisa. Um pedido de desculpa verdadeiro. Um olhar de culpa. Um gesto desesperado.
Nada.
Ele parecia… aliviado.
Como se finalmente não precisasse mais fingir.
— A gente precisava conversar — disse ele, passando a mão pelos cabelos, evitando me encarar. — Eu não planejei assim.
— Planejou o quê? — perguntei, minha voz saindo baixa demais.
Ele suspirou, impaciente.
— Isso tudo. Essa situação.
Minha irmã soltou uma risadinha.
— Para de enrolar, amor. Fala logo.
Amor.
A palavra caiu no chão entre nós, pesada, suja.
Ele respirou fundo. Quando finalmente me olhou, não havia ternura. Só cansaço.
— Eu nunca soube como terminar com você, Samantha.
Foi ali que algo dentro de mim rachou.
— Terminar…? — repeti, sentindo o mundo girar.
— Você é legal. Sempre foi. Mas… — ele fez um gesto vago com a mão, me incluindo inteira naquele movimento. — Não dá mais.
Minha irmã cruzou os braços, analisando meu corpo de cima a baixo, sem disfarçar o desprezo.
— Vamos ser honestos — ela disse. — Você realmente achou que ele ia ficar com você pra sempre?
Meu coração bateu tão forte que doeu fisicamente.
— Por quê? — perguntei, ignorando-a. — O que eu fiz?
Ele riu, nervoso.
— Não é o que você fez. É… o que você é.
O quarto ficou pequeno demais.
Minha pele parecia apertada sobre meus ossos. Cada curva do meu corpo, cada centímetro que eu aprendi a odiar, se tornou visível demais.
— Fala — insisti. — Olha na minha cara e fala.
Ele demorou um segundo a mais do que devia.
— Eu sempre tive vergonha, Samantha.
Vergonha.
— Vergonha de quê? — minha voz saiu trêmula agora.
Minha irmã se adiantou, c***l como sempre:
— De você ser gorda.
A palavra ecoou.
Não era a primeira vez que eu ouvia.
Mas daquela vez… veio de dentro da minha própria casa.
— Gorda não é mulher — ela continuou, com um sorriso torto. — É conforto temporário.
O chão desapareceu.
Meu peito apertou tanto que achei que não conseguiria respirar.
Olhei em volta. Meu quarto. Minhas fotos. Minhas roupas. Minha vida inteira resumida àquela cena grotesca.
— Vocês… — comecei, mas não consegui terminar.
Ele deu de ombros.
— Eu tentei gostar. De verdade. Mas eu sempre pensava no que os outros iam dizer. Em como você ficava ao meu lado.
Meu corpo inteiro tremia agora.
Ele deu de ombros.
Silêncio.
A resposta estava ali.
Minha irmã se aproximou, parando a poucos passos de mim.
— Você devia agradecer — disse. — Pelo menos agora sabe a verdade.
A verdade.
Saí do quarto sem olhar para trás.
Cada passo pelo corredor parecia um esforço absurdo, como se eu estivesse atravessando lama.
Minha mãe apareceu na porta da cozinha.
— O que tá acontecendo? — perguntou, confusa.
Olhei para ela. Esperei algo. Qualquer coisa.
— Eles… — comecei, a voz falhando. — Eles estavam…
Ela desviou o olhar, desconfortável.
— Depois vocês conversam — disse apenas. — Não é hora de escândalo.
Foi ali que entendi.
Não haveria defesa.
Nunca houve.
Peguei minha bolsa, minhas chaves, o celular. Minhas mãos tremiam tanto que quase deixei tudo cair.
Antes de sair, ouvi a risada da minha irmã atrás de mim.
Alta. Vitoriosa.
Fechei a porta da casa com cuidado demais. Como se quisesse não acordar ninguém. Como se a dor pudesse ser discreta.
A chuva caía forte agora.
Caminhei sem rumo, sentindo a água se misturar às lágrimas que eu finalmente não consegui segurar.
Cada gota parecia lavar algo de mim. Não a dor. Mas a ilusão.
Naquela noite, algo morreu.
Não foi só o amor.
Foi a versão de mim que acreditava que podia ser escolhida.
E aquela cena — a minha cama, o corpo dele, o riso dela — nunca mais saiu da minha cabeça.
Porque algumas imagens não passam.
Elas marcam.
E eu ainda não sabia…
Mas aquela humilhação era só o começo do inferno.